O desembargador Márcio Roberto Albuquerque, do TJ de Alagoas, recebeu mais de R$ 70 mil em agosto, mas foi ao Instagram mostrar que terminou o mês com R$ 96,10 na conta e reclamar das críticas aos salários da magistratura. No Brasil, onde o teto do funcionalismo é de R$ 46,3 mil, penduricalhos legais permitem que vencimentos cheguem perto de R$ 80 mil. E há casos de penduricalhos e afins que chegam às centenas de milhares de reais em um mês, que vêm sendo enfrentados por decisões do ministro Flávio Dino, no STF.
A cena lembra a desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Pará, que chamou de “regime de escravidão” o fim de penduricalhos. Ela havia recebido R$ 91 mil líquidos em um mês. Num país em que escravidão não é metáfora, mas gente submetida a ameaças, jornadas exaustivas e condições degradantes, a comparação revela um abismo entre certas elites e a realidade.
Limitar privilégios não transforma magistrados em miseráveis. Apenas dificulta sustentar padrões de vida bancados por recursos públicos.
Se ganhar R$ 70 mil e terminar o mês com R$ 96 é sinal de sofrimento, talvez o Brasil precise mesmo da “Campanha Juiz Esperança”, destinada a autoridades em vulnerabilidade salarial.
Enquanto milhões fazem milagre com o salário mínimo, há quem confunda perda de privilégio com sofrimento. Nesse caso, não é o contracheque que está fora da realidade. É a pessoa.
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