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A mordida do Tigrinho nas mulheres

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
02/09/2026
in Sociedade
Reading Time: 9 mins read
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Desde que começou a clinicar, em meados da década de 2000, o psicólogo Ângelo Mattioli se interessou pelo impacto emocional causado por questões financeiras. Para se aprofundar no assunto, ele voltou à universidade e se graduou, também, em ciências econômicas. Desde então, tem focado sua atuação em compulsões financeiras e, principalmente, no vício em jogos de azar online e apostas esportivas. Mattioli é chamado pelos seus pacientes de “o psicólogo das apostas”. Além de concluir que o consumo e a compulsão de apostas são faces de uma mesma moeda, ele chama a atenção para um fenômeno negligenciado: o peso que as apostas exercem sobre as mulheres. Leia, abaixo, o depoimento dele ao repórter Felippe Aníbal. 

Na manhã de 26 de maio – uma terça-feira –, recebi uma mensagem no celular: “Sei que sou viciada em apostas. E sei que preciso de ajuda para sair.” Renata* é cabeleireira no interior de São Paulo e aposta compulsivamente no Jogo do Tigrinho há mais de dois anos. Começou a jogar por influência do filho, que também é jogador compulsivo – e que perdeu tudo que tinha. Ela entrou em uma espiral: sonha em ganhar dinheiro para “devolver” ao filho tudo que ele perdeu nas apostas, mas também acaba perdendo, o que aumenta o rombo familiar.

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É ao longo da noite, quando a família vai dormir, que Renata costuma apostar: “Fico jogando até perder o último centavo, achando que posso recuperar.” Apesar de saber que é uma ilusão, ela diz que o impulso é irrefreável. “Na mesma hora que tô pensando ‘não vou jogar’, eu faço um depósito em algum jogo. Parece que virou uma coisa automática”, conta. Para minimizar as perdas, ela repassou a gestão do dinheiro do salão de beleza para a filha. Mas tem um porém: “Eu nunca mando tudo que ganho [no salão]. Mando uma parte pra ela e fico sempre com uma parte pra jogar. E acabo perdendo tudo.”

Não estou descrevendo algo incomum. Ao longo da minha trajetória como psicoterapeuta, me especializei no atendimento de pessoas que enfrentam problemas financeiros, como compradores impulsivos, pessoas com comportamento compulsivo ligado ao mercado financeiro e, principalmente, pessoas com vício em apostas esportivas (as famosas bets) ou jogos de slot (os jogos online de azar, como o do Tigrinho ). Hoje, dos meus 54 pacientes ativos, mais de 70% são viciados em jogos. Acabou que fiquei conhecido como “o psicólogo das apostas”.

Todas as manhãs, quando abro meu celular, encontro entre 10 e 15 mensagens de pessoas que acessaram meu site profissional. Em sua grande maioria, são jogadores compulsivos ou familiares deles, procurando informações sobre atendimento. Eu reservo as minhas manhãs para responder a essas perguntas e, principalmente, fazer um acolhimento inicial. Parte dessas pessoas não se torna paciente, mas procura algum tipo de alívio imediato, uma palavra de conforto.

Nesse primeiro contato, o viciado tende a estar em uma fase ambivalente: ele busca algum tipo de ajuda, mas ainda não se reconhece como alguém que realmente necessite de auxílio profissional para quebrar o ciclo. São pessoas que ainda estão tentando entender o que acontece com elas. E minha experiência clínica mostra um fato curioso. A maioria esmagadora dos apostadores estão na faixa etária entre 25 e 44 anos, ou seja, tendem a fazer parte da população economicamente ativa. (Esse viés econômico, como veremos adiante, é muito importante.)

Atualmente, segundo uma pesquisa da Unifesp, cerca de 64,8% dos apostadores dos jogos online são homens, padrão que se repete quando analiso as estatísticas de visitas ao meu site profissional. Mas são as mulheres quem mais procuram ajuda especializada. Elas correspondem a cerca de 70% das pessoas que me enviam mensagens – seja procurando apoio para si, para o marido ou para um filho. Ou seja: os homens sabem que enfrentam um problema, mas ficam em silêncio, ao contrário das mulheres, que manifestam o pedido de auxílio. Creio que não seja algo exclusivo do mundo das apostas. De uma forma geral, o público masculino é mais resistente a buscar ajuda psicoterápica, a frequentar uma análise.

As mulheres, tanto quanto eles, são impactadas por essa epidemia que o vício em jogos de azar online e em bets se tornou. Noto que, entre as que jogam, nem sempre a motivação é financeira. Em muitos casos, é emocional.

“Hoje estou me sentindo triste. Até pensei no jogo, mas me distraí e fui fazer outra coisa.” Assim começou uma série de mensagens que recebi em 15 de maio, de minha paciente Carla,* viciada em jogos de roleta online. Casada e com um filho de 4 anos, ela vive uma crise conjugal em seu relacionamento de dez anos. “Eu e meu marido meio que brigamos ontem, por outro motivo. Não tem a ver com jogo. E daí, eu tô o dia todo triste. Aí, acabei pensando no jogo”, disse. Ali, já era possível constatar: o episódio conjugal a impelia ao vício.

Ela prosseguiu, detalhando a crise com o marido: “No começo, ele era presenteador, fazia surpresas, mandava mensagens durante o dia. E agora esquece as datas, não me presenteia, não manda mensagens carinhosas enquanto estamos longe. Isso me deixa triste de verdade.” A paciente relatou que isso a fazia se sentir “desanimada” e com “baixa autoestima”. “Nisso, penso em jogar mais uma vez”, concluiu.

Recebo mensagens assim o tempo todo de minhas pacientes, quando estão prestes a cair na tentação do vício. Mantenho um canal com elas para que possam me acionar no momento em que estiverem na iminência de jogar. Eu os oriento justamente a me enviar uma mensagem ou a me telefonar, para tentarmos frear o impulso e identificar o gatilho.

No caso de Carla, uma das coisas que respondi foi: “Você percebe que pode existir uma série de conexões entre a sua vontade de jogar com coisas cotidianas da sua vida, como, por exemplo, crise no casamento, ciúmes, baixa autoestima, etc.?” Quanto mais gatilhos identificarmos e trabalharmos em sessões de terapia, menos vontade ela terá de jogar. Nós trabalhamos para ressignificar esses impulsos. A conversa terminou com Carla se comprometendo a não jogar – pelo menos naquele momento.

Percebo que há muitos casos semelhantes, envolvendo mulheres que estabeleceram relacionamentos em um modelo mais tradicional, mais conservador, em que renunciaram à carreira e aos estudos para se dedicar à família e aos filhos. Aí, de repente, há uma desilusão com o companheiro e a mulher se vê em um casamento infeliz, sem condições de sair desse ciclo. Além de mulheres que jogam para preencher um vazio existencial de natureza emocional – como Carla –, há pacientes que veem no jogo uma ilusão de conquistar autonomia financeira para, enfim, sair daquele casamento.

Nem sempre esses gatilhos emocionais dizem respeito a relacionamentos. Há outros tipos de vazios existenciais. Recentemente, atendi Larissa,* uma jovem profissional autônoma que tem um estúdio de manicure. Ela é o tipo de pessoa que sai pagando coisas para as amigas, para o namorado. Se ela vai com alguém a um shopping, ela quer bancar um lanche para todo mundo, por exemplo. O problema é que ela não tem cacife para isso, então começou a recorrer aos jogos com a ilusão de conseguir uma renda extra. Quando, a partir da terapia, ela compreendeu que não precisava bancar os desejos alheios para se sentir querida, o jogo foi embora de sua vida.

Tenho outra paciente, a Márcia,* que é uma executiva com carreira consolidada e um bom salário. Ela nasceu em uma família humilde e formada só por mulheres. Como é a mais bem-sucedida do clã, Márcia gosta de impressionar a mãe e as irmãs. Por isso, comprou um carrão da BMW. Só que o veículo é incompatível com a renda e os gastos dela. E onde ela foi buscar recursos para sustentar esse estilo de vida? Apostando em jogos online de cartas, como Blackjack e Baccarat.

Neurologicamente, essa ilusão ocorre graças a um neurotransmissor chamado dopamina. É uma substância química associada à expectativa do prazer, à expectativa da vitória. Quando um jogador do Tigrinho pensa em apostar, ele já começa a liberar dopamina. Eu tive um paciente que tem um estúdio de tatuagem. Ele me relatava: “Ângelo, quando eu tô negociando o preço de um serviço, eu já começo a pensar no jogo.” O dinheiro nem entrou na conta e ele já está liberando dopamina. O viciado está preso à possibilidade de ganhar.

Com a dopamina em ação, é como se o cérebro dele dissesse: “Vai lá, fulano! Joga, que hoje é seu dia de sorte.” Ou, quando ele está jogando, o cérebro entra em um modo do qual ele não consegue sair: “Tenta de novo! Agora vai vir uma premiação boa!” E quando ele fica abstêmio do jogo, a sensação é de fissura, semelhante à de um fumante sem acesso a cigarro. Gera crises de abstenção. O jogador não se vicia no jogo ou no dinheiro, mas na expectativa da vitória – ou seja, na dopamina.

Psicologicamente, temos alguns elementos fundamentais que compõem o vício em apostas: gatilhos (situações que levam a jogar), pensamentos e crenças (o que a pessoa diz para si para legitimar a continuidade das apostas); comportamentos e emoções (ações que a levam a perpetuar o vício, como pedir dinheiro emprestado ou mentir para familiares). Eles formam o modelo cognitivo de um apostador e o levam a um comportamento disfuncional de jogar. E as plataformas sabem como estimular cada um deles.

Nos jogos de slot, o apostador joga contra um algoritmo que está programado para ganhar. A “sacanagem” é que, de vez em quando, sobretudo no início, como forma de fisgar o novo jogador, o algoritmo o deixa ganhar, criando uma experiência positiva. Quando ele vence, o cérebro entende isso como uma recompensa. Se perde, o cérebro entra em modo de reparação, ou seja, quer recuperar o que foi perdido, gerando um impulso ainda maior de continuar apostando. Esse padrão é o que chamamos, na psicologia comportamental, de reforço intermitente: você nunca sabe quando vai ganhar e isso faz seu cérebro insistir mais e mais. É como uma roda gigante em movimento perpétuo.

Alguns pacientes tentam, inclusive, racionalizar o aplicativo. Muitos acreditam que é possível viver de jogos de apostas, desde que consigam controlar o impulso quando estão ganhando. Uma mulher que eu atendi, por exemplo, me relatou que tinha colocado 100 reais e, após as primeiras rodadas, já acumulava 9.660 reais. Disse que, depois, perdeu tudo porque foi gananciosa e continuou apostando. E falou: “Você tem que me ensinar a sair na hora certa.” Assim como ela, muitos enxergam esses jogos como um instrumento de alavancagem e só querem controlar o impulso para “sair na hora certa”. Eles não conseguem compreender que o jogo é programado para ganhar justamente quando o jogador dobra a aposta. Aí, perdem tudo.

No início da manhã de 15 de fevereiro – segunda-feira de Carnaval –, comecei a responder a um dos contatos que recebi durante a madrugada. Maria* é casada com Jorge,* um motorista de aplicativos que torrava tudo o que ganhava em apostas. No caso dele, o vício em jogos passou a se associar ao uso de drogas. “Ontem, [ele] trabalhou a noite toda. Não tinha nada [de dinheiro] quando chegou. E vi que fez uso de cocaína”, relatou Maria, que desabafou: “Doutor, sinto que tô no fundo do poço, por não saber o que fazer mais […] É uma mistura de dó, raiva e desespero.” Ela ainda concluiu: “Pior que não sobra nem para abastecer o carro no outro dia.”

Esse é um exemplo de um fenômeno que tem se tornado cada vez mais comum. Esposas de motoristas de aplicativo têm procurado meu auxílio profissional, porque eles estão muito vulneráveis aos jogos. A dinâmica dos aplicativos, em que eles têm acesso constante a pequenas quantias em dinheiro, faz com que caiam em um ciclo contínuo: eles fazem uma corrida, o valor correspondente cai na conta, eles jogam e perdem. Tenho um caso de um motorista que trabalhou mais de 12 horas e voltou pra casa sem 1 real na conta, porque perdeu tudo em jogos de slot.

Maria e Jorge passaram a fazer acompanhamento psicológico comigo. De imediato, trabalhamos para quebrar o ciclo da liquidez, ou seja, para que Jorge não tivesse acesso a dinheiro “picado” o tempo todo. Para isso, ele precisaria de outra ocupação profissional. Jorge se tornou caminhoneiro com remuneração mensal. Maria, por sua vez, assumiu a gestão financeira da casa, incluindo o salário do marido. Desde o início da psicoterapia, ele nunca mais jogou.

A pandemia do coronavírus provocou uma série de transformações, entre as quais novos comportamentos que foram incorporados à vida cotidiana. Um deles tem relação direta com aplicativos de entrega (como o iFood) e bancos digitais. Com as pessoas permanecendo mais tempo em casa, elas se tornaram mais íntimas dos smartphones. Ao mesmo tempo, muitas ficaram desempregadas ou tiveram seus rendimentos reduzidos e foram pressionadas financeiramente. Foi nesse momento que as plataformas de apostas passaram a ganhar força. Se olharmos o gráfico de quantidade de usuários e arrecadação, vê-se uma curva acentuada a partir da pandemia.

Recentemente, diversos veículos publicaram reportagens com base em dados do Banco Central, estabelecendo uma relação direta entre o endividamento das famílias e os jogos e apostas. A leitura que se fazia era: “as pessoas estão consumindo menos ou se endividando porque estão apostando mais.” Esse tipo de narrativa coloca as bets e os jogos como os grandes vilões. A partir dos meus atendimentos, concluí que o quadro é mais complexo. Quase sempre esses dois aspectos – consumo e compulsão em jogos de apostas – estão conectados. Nós vivemos em uma sociedade do consumo, bombardeados com estímulos para gastarmos nosso dinheiro. Muitas vezes, a pessoa que aposta compulsivamente já possui um endividamento alto, fruto dessa lógica. Em paralelo, ela busca nos jogos de azar uma forma de ganhar dinheiro para satisfazer esse desejo.

Nós temos a tendência de nos compararmos o tempo todo. Gatilhos são deflagrados quando uma pessoa vê uma postagem da Virgínia Fonseca apostando no Tigrinho e ganhando ou do Neymar apostando em bets. Esses momentos, geralmente, são compartilhados nas redes sociais, em que comparamos nossa vida real com a vida editada de outras pessoas. O pensamento que vem é o seguinte: “Puxa, tá todo mundo se dando bem, menos eu.” Isso pode ser decisivo para que a pessoa derive para o jogo.

Como se vê, as armadilhas são muitas. O ponto central da questão é analisar o outro lado da aposta, ou seja, identificar e ressignificar os gatilhos financeiros e emocionais que sustentam o comportamento compulsivo. Aquilo que não é compreendido, continua se repetindo.

* Os nomes citados foram alterados para preservar a identidade das pacientes

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