Candidato a presidente da República pelo PL, Flávio Bolsonaro terá nas próximas semanas a chance de testar sua capacidade de repetir o feito do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em mobilizar grandes multidões pelo Brasil.
Já no primeiro ato da campanha, Flávio viu a Praia de Copacabana, no Rio, palco de grandes manifestações bolsonaristas, esvaziada. De acordo com o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e a ONG More in Common, 8,9 mil pessoas compareceram ao comício neste domingo, 16. Em 2022, quando ainda era presidente e estava em campanha pela reeleição, Jair Bolsonaro reuniu 64,6 mil pessoas no Rio em 7 de Setembro.
O Dia da Independência, data explorada por Jair Bolsonaro ao longo de seu governo (2019-2022), também vai entrar na rota da campanha do senador. Flávio planeja um comício temático na Avenida Paulista – o PL já reservou o endereço para o evento. Mas os números mostram que o presidenciável terá de reverter uma tendência se quiser reeditar os grandes protestos de rua mobilizados pelo pai.
Um levantamento feito pelo Estadão com a contagem de público feita pelo Monitor do Debate Público do Meio Digital em 25 manifestações nos últimos três anos mostra que a adesão aos atos convocados pela direita vem caindo, ainda que mantenha média superior aos da esquerda.
São 16 protestos de direita e nove de esquerda nesse período. A média de público nos atos convocados pela direita – nesse tempo, quase todos pelo pastor Silas Malafaia, a pedido de Bolsonaro – é de 30,3 mil, enquanto na esquerda é de 13,2 mil.
A ausência de Bolsonaro, que cumpre a pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, afeta os números. Quando o ex-presidente está presente nos carros de som, ao lado de aliados que se revezam no microfone para discursar contra a esquerda, a média de público é de 49,5 mil pessoas. Sem ele, cai para 18,7 mil.
Bolsonaro está preso desde agosto do ano passado, primeiro em prisão preventiva. Nos primeiros meses, Malafaia conseguiu manter um público de cerca de 40 mil pessoas. Nas últimas, puxadas pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), a média caiu para cerca de 20 mil – quando havia presença dele.
Flávio teria outra oportunidade de medir a popularidade nas ruas nesta segunda-feira, 17, em ato em Juiz de Fora, Minas Gerais. O candidato do PL tinha na agenda uma “motociata”, o desfile de motociclistas que Bolsonaro ajudou a popularizar, e um comício no local do atentado a faca sofrido pelo pai em 2018. Por causa do mau tempo, contudo, o aeroporto na cidade ficou fechado para pousos e a viagem foi cancelada.
A estratégia de atos em grandes palcos do bolsonarismo é mais uma das ações do pai replicadas por Flávio. Desde a pré-campanha, o candidato do PL está realizando transmissões ao vivo semanais no seu canal no YouTube. As lives foram popularizadas por Jair Bolsonaro durante seu governo para discursar ao público sem contestações.
Perfil das manifestações mudou na última década
A quantidade de bolsonaristas nas ruas diminuiu. Depois do auge em fevereiro de 2024, quando o primeiro ato com Bolsonaro após a derrota presidencial de dois anos antes levou 185 mil pessoas à Avenida Paulista, as convocações nunca mais superaram 45 mil manifestantes.
Pesquisadores veem uma mudança no perfil sociodemográfico e político-ideológico das manifestações na última década. O cientista social e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) Jonas Medeiros diz que até as Jornadas de Junho (protestos generalizados contra o sistema político em 2013) a juventude se sobressaía nas ruas. Isso mudou com as manifestações pró-impeachment de Dilma, quando pessoas mais velhas e mais ricas passaram a participar delas.
“Mesmo quando entram em cena os protestos em defesa do governo Bolsonaro, a partir de 2019, a idade (dos manifestantes) permanece alta. A diferença é que tem pessoas com renda um pouco menor e maior diversidade racial, na comparação com a época da hegemonia de Vem Pra Rua, MBL e Revoltados Online. Não são os mesmos públicos em cada um destes cenários”, afirma.
Após o fim do governo Bolsonaro, Medeiros diz ver um “ponto de virada” nos protestos, quando Malafaia se profissionaliza na organização de showmícios, ao instaurar um carro de som unificado – uma tática para reduzir dissidências e centralizar os protestos das direitas na família Bolsonaro, afirma o pesquisador.
“De novembro de 2014 até novembro de 2023 (o ponto de virada) a dinâmica era sempre outra: pluralidade de carros de som, múltiplas organizações liberais ou conservadoras concorrendo pela atenção dos manifestantes. Malafaia alterou a estrutura e a dinâmica das manifestações da direita”, avalia.
Medeiros destaca a singularidade do episódio do tarifaço do governo Trump sobre os protestos no Brasil. O ato de 10 de julho de 2025 não só foi a primeira vez que um ato da esquerda foi maior do que um da direita em data próxima, diz ele, como foi estruturado por uma retórica nacionalista.
“Foi a primeira vez em mais de uma década que símbolos patrióticos deixaram de ser monopólio das direitas e passaram a ser disputados e ressignificados por uma via de esquerda. O bandeirão ianque no ato bolsonarista do 7 de Setembro de 2025 alimentou esta disputa de quem seriam os ‘verdadeiros patriotas’. Mesmo com este crescimento no público das manifestações das esquerdas, os protestos da direita demonstram fôlego equivalente ou superior, mesmo com sua maior figura política encarcerada”, declara.
Isabela kalil, professora de ciência política e antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e estudiosa das novas direitas, diz que a mudança mais relevante dos protestos da direita nos últimos dez anos é que antes eles eram mais fragmentados e dispersos em pautas e lideranças.
“Essa dispersão pode ser vista entre 2013 e 2015. O ano de 2016 é o marco de uma agenda comum anticorrupção e contra Dilma Rousseff, mas ainda sem uma liderança unificada. De 2018 em diante temos a consolidação não apenas das pautas, mas das lideranças em torno do bolsonarismo”, afirma.
Para a professora, a figura de Bolsonaro tem um peso importante e foi responsável por organizar essa dispersão. Mas isso não explica tudo, diz ela, “porque as mobilizações teriam cessado assim que ele fosse preso”, o que não ocorreu.
“A resposta está no fato de a direita se apresentar como oposição em todos os momentos, mesmo durante o governo Bolsonaro. Essa direita reivindicou pra si a identidade de antissistema, o que mobiliza mais as pessoas. Ninguém vai para rua para dizer que está satisfeito com o governo de situação, ou seja, de forma afirmativa. O que mobiliza é a negação, é ser contra o governo. E ser essa negação de tudo, paradoxalmente até no próprio governo aliado, tem sido a chave da direita nos últimos 13 anos”, declara.
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