Itamaraty convoca embaixador da Argentina para prestar esclarecimentos após críticas de Milei
Milei chamou Lula de “presidiário” e Moraes de “lixo careca”. Crédito: AFP
BRASÍLIA – O governo avalia como “muito grave” o comportamento do presidente da Argentina, Javier Milei, que no sábado, 25, dirigiu uma série de ofensas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Embora o episódio tenha aberto uma crise diplomática, o Itamaraty desaprovou, porém, os termos usados pelos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) para reagir aos ataques de Milei.
Boulos, por sua vez, afirmou nas redes sociais que Milei não apenas é “uma caricatura patética, que envergonha o cargo que ocupa” como um “puxa-saco” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Milei xingou Lula e Moraes em convenção do PL. Foto: Natacha Pisarenko/AP Photo
Como mostrou o Estadão, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou neste domingo, 26, o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimundi, para cobrar explicações. Na reunião a portas fechadas, Vieira transmitiu a ele a repulsa do governo brasileiro diante do que chamou de “impropérios” de Milei a Lula e a Moraes.
Ao participar da convenção do PL que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto, no sábado, 25, o presidente da Argentina se referiu a Lula como “presidiário”, “ladrão” e xingou o ministro do STF de “lixo careca”.
Em discurso de meia hora, ao lado de Flávio, Milei reclamou, ainda, do fato de Moraes proibi-lo de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que, condenado na trama golpista pelo STF, cumpre prisão domiciliar. Diante de uma plateia composta por aliados do candidato do PL à sucessão de Lula, o argentino fez questão de destacar ali que Bolsonaro é um “grande amigo”.
Milei também proferiu vários palavrões e afirmou que “esquerdistas de merda” levaram a Argentina à pobreza. A orientação do Itamaraty e do Planalto, no entanto, é para que ministros não partam para ataques pessoais a Milei porque isso seria reagir no mesmo tom.
Além de convocar Raimondi, o chanceler Mauro Vieira chamou para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli. A conversa entre os dois ocorreu na tarde desta segunda-feira, no Itamaraty, e durou 40 minutos.
Foi um primeiro diagnóstico dos problemas no relacionamento entre Brasil e Argentina, hoje bastante desgastado. Os dois combinaram um novo encontro depois que o ministro retornar da viagem a Lima, onde vai representar Lula, nesta terça-feira, na posse da presidente Keiko Fujimori.
No código da diplomacia, a chamada de um embaixador ao País é um gesto político muito sério para demonstrar descontentamento com alguma atitude que pode afetar a relação bilateral.
De acordo com integrantes do Itamaraty, um gesto assim só ocorreu, nos últimos tempos, em fevereiro de 2024, quando Israel declarou Lula como “persona non grata” depois que ele comparou os ataques daquele país na Faixa de Gaza ao Holocausto. À época, o governo brasileiro também convocou o então embaixador, Daniel Zonshine. Após a crise política, o Brasil não possui mais embaixador em Tel Aviv e Israel só mantém em território brasileiro uma encarregada de negócios.
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