Os diários de Anthony Fauci foram tornados públicos e isto gerou um turbilhão nas redes sociais. Eu vou analisar este tema numa pensata, num formato um pouco diferente (e mais longo) do habitual. E já alerto: não é para alguém que espera uma resposta simples, o preto ou o branco. Estou no território da subjetividade, pois trata mais de dúvidas que de certezas.
Anthony Fauci foi diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (National Institute of Allergy and Infectious Diseases – NIAID) entre 1984 e 2022 e, como tal, foi uma das vozes mais ouvidas durante a definição de políticas para enfrentar a pandemia de covid nos EUA. No último mês de julho, seus diários eletrônicos particulares foram recuperados de servidores do governo a mando de Robert Fitzgerald Kennedy Jr. (RFK Jr.) e divulgados pelo senador Rand Paul. O que eles revelam?
Aqui não há como mencionar tudo, já que são milhares de páginas, mas vou enumerar alguns dos temas que mais têm sido debatidos recentemente em relação a Fauci (mas não necessariamente contidos nos diários):
1) A origem do vírus
Os opositores acusam Fauci de ser desonesto, alegando que ele descartava o vazamento de laboratório como “implausível” em público, enquanto confessava dúvidas em relação a isto em seu diário.
2) Pesquisas de “ganho de função”
Correlacionado ao ponto anterior, este é o cerne das acusações de que Fauci teria mentido ao Congresso. A polêmica envolve o financiamento indireto que o National Institutes of Health (NIH) forneceu ao Instituto de Virologia de Wuhan (por meio da ONG EcoHealth Alliance). Parlamentares o acusam de ter financiado experimentos para tornar vírus de morcegos mais patogênicos e de ter negado esse fato sob juramento. Fauci tem mantido a versão de que a pesquisa financiada não se enquadrava na definição regulatória estrita do governo para “ganho de função” e que seria “molecularmente impossível” que os vírus estudados naquelas pesquisas específicas tivessem se transformado no SARS-CoV-2.
3) A distância correta
Desde o início da pandemia, Fauci enfatizou a importância do distanciamento social de 6 pés estabelecido pelo CDC (que não era comandado por ele, vale lembrar) mas, em depoimento, disse que o número “meio que apareceu” e que foi algo empírico, sem embasamento em estudos.
4) Uso de máscaras
No início de 2020, Fauci e outras autoridades de saúde desaconselharam o uso de máscaras pelo público em geral. A justificativa inicial era a incerteza científica da época e a necessidade de preservar estoques para profissionais de saúde. Meses depois, a orientação mudou drasticamente, e Fauci tornou-se um dos maiores defensores do uso universal. Já em maio de 2021, ele lutou para revogar a obrigatoriedade de usar máscaras em locais abertos.
5) Danos colaterais
Opositores o acusam de ignorar o custo humano das políticas que promoveu. Eles apontam que os mandatos de vacinação levaram pessoas a perderem seus empregos, enquanto o fechamento de escolas e os lockdowns causaram atrasos severos no aprendizado infantil, depressão e devastação econômica. Já os defensores ressaltam que as restrições e mandatos salvaram milhões de vidas ao evitar o colapso total do sistema de saúde antes e durante a distribuição em massa das vacinas.
6) Supressão de divergências
Acusadores dizem que Fauci usou sua enorme influência institucional para silenciar ou descredibilizar outros cientistas renomados que discordavam de suas abordagens. Alguns pesquisadores o acusam de “abuso de poder” por sufocar o debate e denegrir colegas. A crítica é que Fauci ajudou a criar um clima onde qualquer questionamento às políticas vigentes era imediatamente rotulado como “anticiência”, prejudicando o método científico natural que exige debate contínuo.
E aqui meus comentários:
Antes de tudo, que fique claro: qualquer gestor experiente sabe que não se torna público tudo o que se pensa. O simples fato de haver dúvidas em privado não deveria ser motivo de escândalo.
Ninguém é onisciente, principalmente diante de uma tragédia de dimensões inéditas. E, consequentemente, não é conceitualmente correto culpar alguém por eventualmente ter errado diante de algo potencialmente desconhecido. Digno de nota também é colocar que o contrafactual (o que teria ocorrido se tudo tivesse sido feito radicalmente diferente) é desconhecido.
O conhecimento científico é uma construção constante, mas temos dificuldade em aceitar mudanças. Isto se aplica bem às recomendações das máscaras – e tem relação com o meio de transmissão (se pelo ar ou gotículas). Lembra que no começo se dizia que as superfícies eram um meio importante de transmissão, e a transmissão pelo ar não? O tempo mostrou que era o inverso, mas as medidas não-farmacológicas pouco mudaram: todo mundo continuou dando muita ênfase à limpeza com álcool e aos painéis acrílicos em lugares públicos. Os gestores públicos poderiam intervir e dizer que isto tinha baixa eficácia expressamente? Sim, mas possivelmente houve um cálculo político para evitar um desgaste diante da opinião pública. E infelizmente jamais houve ênfase para melhorar a filtração do ar e quantidade de trocas de ar em ambientes fechados.
Expor algo que contém dúvidas de uma forma assertiva, ocultando as dúvidas, é algo parecido ao que fazemos com crianças (“obedeça ao papai que ele sabe o que está fazendo”). Particularmente eu sempre prefiro expor temas complexos dizendo claramente o que se sabe naquele momento e o que não se sabe. Mas voltando ao paralelo com os filhos, sei que, às vezes, a imposição funciona melhor que a argumentação racional. E não raras vezes somos todos um pouco como as crianças.
Até hoje não há como afirmar categoricamente que o vírus teve origem natural ou em laboratório, como muitos têm feito. É algo que está sendo investigado, mas continua sem resposta.
O debate público sobre adequação ou não de políticas públicas para mitigar os efeitos da pandemia foi, a meu ver, bastante contaminado naquela época. Havia não apenas “negacionistas da ciência” e “portadores da ciência” – é um espectro muito mais complexo. Com tristeza, eu reconheço que algo se quebrou ao compartimentalizar as opiniões de forma binária – talvez definitivamente.
Por outro lado, ativistas antivacinas já existiam antes e seriam contrários à vacina com ou sem coerção governamental (e, de modo geral, se confundiram com aqueles que negavam a gravidade da pandemia). A eles não interessava o debate científico. A pergunta é: sem coerção, as pessoas se vacinariam mesmo assim? Não sei dizer nos EUA, mas no Brasil eu apostaria que a taxa de vacinação seria muito alta de uma forma ou de outra.
Ponto fundamental: lembre-se de quem levantou o tema. Foi RFK Jr., hoje Secretário de Saúde dos EUA e um veteraníssimo ativista antivacinas (que já declarou que “não existe vacina segura e eficaz”). De uma forma bastante sagaz (apesar de intelectualmente incorreta), ele tem usado os diários não apenas para desmoralizar e condenar especificamente Fauci diante do grande público, mas também – e, a meu ver, principalmente – as vacinas como um todo. Não por acaso recentemente Trump assinou um decreto que reduz de 17 para 11 o número de doenças abrangidas pelas recomendações de vacinação de rotina e desmembrou a vacina tríplice viral em doses individuais separadas, algo que foi encaminhado pelo RFK Jr. (e guiado por Andrew Wakefield, autor do famoso estudo fraudado e retratado que associava autismo às vacinas). Portanto, não se enganem: o que à primeira vista parece ser uma importante e saudável discussão sobre integridade intelectual é, no fundo, um Cavalo de Tróia para derrubar toda a política vacinal dos EUA.
Concluindo: eu considero que seria um bom momento para discutirmos o que funcionou e o que não funcionou na pandemia, para estarmos melhor preparados para uma próxima (que virá, cedo ou tarde). Mas isto precisa ser feito de uma forma racional e desapaixonada – e certamente não é a trupe MAHA (Make America Healthy Again), capitaneada por um militante radical, que saberá conduzir este debate.
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