Apelidos do crime, nome de música pop e até de marca de automóveis. No submundo da criminalidade, não falta imaginação ao batizar as facções nascidas em unidades prisionais e com atuação no tráfico de drogas nas ruas.
Meikinho e Kila, Trem Bala e Honda são algumas das 64 organizações criminosas presentes em todo o território nacional, com menor ou maior tamanho e influência sobre a sociedade, segundo levantamento inédito do GLOBO. O mapeamento, feito ao longo do último mês, é baseado em fontes e investigações das secretarias de Segurança Pública e de Administração Penitenciária e Ministério Públicos das 27 unidades da federação.
Presentes em quase todo o Brasil, a paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e a fluminense Comando Vermelho (CV) são hegemônicas. O PCC está em 25 unidades da federação, enquanto o CV se encontra em 26. Os grupos só não estão, ainda, no Rio Grande do Sul. O crime gaúcho gerou suas próprias facções interestaduais: Bala na Cara (BNC) e Os Manos.
Entre os grupos mencionados pelas autoridades, 12 têm presença em mais de um estado, e os outros 52 são, até onde se sabe, organizações locais.
Os estados que concentram mais grupos criminosos são Bahia (17), Pernambuco (12) e Mato Grosso do Sul (10). Enquanto os dois estados nordestinos têm um cenário fragmentado, com muitas facções locais disputando espaço, o território sul-mato-grossense é o maior “importador” de facções de outros estados. A rota do narcotráfico que passa pela fronteira com o Paraguai e a Bolívia estimulou 9 das 12 facções interestaduais a criarem núcleos de atuação ali.
Apesar de o PCC já ter presença internacional, as autoridades brasileiras quase não encontram núcleos grandes de facções estrangeiras no país. A única exceção é no estado de Roraima, onde o grupo venezuelano Tren de Aragua possui membros. O estado que mais “exporta” facções nacionalmente é o Rio de Janeiro, que além do CV tem duas organizações com atuação interestadual: o Terceiro Comando Puro (TCP) e os Amigos dos Amigos (ADA).
Facções por estado
| UF | nº | UF | nº | UF | nº |
| BA | 17 | AP | 4 | RR | 3 |
| PE | 12 | CE | 4 | TO | 3 |
| MS | 10 | MA | 4 | RN | 3 |
| SP | 7 | PI | 4 | SE | 3 |
| PR | 7 | ES | 4 | DF | 3 |
| PB | 5 | RJ | 4 | GO | 3 |
| RS | 5 | AC | 3 | MT | 3 |
| SC | 5 | PA | 3 | MG | 3 |
| AM | 4 | RO | 3 | AL | 2 |
É difícil dizer se o número de facções está diminuindo ou crescendo no país, sobretudo quando se trata dos grupos menores, porque não há critério oficial para diferenciar uma facção criminosa de uma gangue com atuação circunstancial.
A Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) chegou a mapear 88 grupos atuando dentro de presídios em 2024, cifra maior do que os governos estaduais registram em conjunto para as facções com atividade na rua. O órgão federal não divulga, porém, os nomes desses grupos em seu mais recente relatório.
Algo que dificulta a contabilidade, também, é o fato de que algumas organizações têm regime exclusivo “intramuros”, caso do Povo de Israel (PVI), atuante em prisões do Rio de Janeiro.
Lista das facções
| Nome | Sede | UFs* |
| Comando Vermelho (CV) | RJ | 26 |
| Primeiro Comando da Capital (PCC) | SP | 25 |
| Terceiro Comando Puro (TCP) | RJ | 5 |
| Amigos do Estado (ADE) | GO | 3 |
| Bala na Cara (BNC) | RS | 3 |
| Bonde do Maluco (BDM) | BA | 3 |
| Os Manos | RS | 3 |
| Primeiro Grupo Catarinense (PGC) | SC | 3 |
| Amigos dos Amigos (ADA) | RJ | 2 |
| Bonde dos 40 (B40) | MA | 2 |
| Cartel do Sul (CDS) | PR | 2 |
| Guardiões do Estado (GDE) | CE | 2 |
| A Tropa | BA | 1 |
| Abertos | RS | 1 |
| Anjos da Morte (ADM) | BA | 1 |
| Bonde da Nike | PE | 1 |
| Bonde da União | PE | 1 |
| Bonde do Cangaço | PB | 1 |
| Bonde do Neguinho (BDN) | BA | 1 |
| Bonde do SAJ | BA | 1 |
| Bonde dos 13 | AC | 1 |
| Bonde dos Cachorros | PE | 1 |
| Bonde dos Loucos | PE | 1 |
| Campinho (CP) | BA | 1 |
| Cartel do Norte (CDN) | AM | 1 |
| Castelar | MT | 1 |
| Comando Classe A (CCA) | PA | 1 |
| Comando Democrático pela Liberdade (CDL) | SP | 1 |
| Comando Litoral Norte (CLN) | PE | 1 |
| Comando Litoral Sul (CLS) | PE | 1 |
| Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (CRBC) | SP | 1 |
| Comando Vermelho do Paraná (CV-PR) | PR | 1 |
| Comboio do Cão (CDC) | DF | 1 |
| Daniel Gomes/Pedro Gerônimo/Maria Pinheiro (DPM) | BA | 1 |
| Estados Unidos (EUA) | PB | 1 |
| Família Terror do Amapá (FTA) | AP | 1 |
| Ferro Velho (FV) | PR | 1 |
| Gêmeos de Gaibu | PE | 1 |
| Haja Paz nos Quatro Cantos (HP4) | PE | 1 |
| Honda | BA | 1 |
| Katiara | BA | 1 |
| Keikinho e Kila (MK) | BA | 1 |
| Mercado do Povo Atitude (MPA) | BA | 1 |
| Máfia Paranaense (MP) | PR | 1 |
| Nova OKD (Nova Okaida) | PB | 1 |
| Okaida | MS | 1 |
| Povo de Israel (PVI)* | RJ | 1 |
| Primeiro Comando de Eunápolis (PCE) | BA | 1 |
| Primeiro Comando de Ipojuca | PE | 1 |
| Primeiro Comando de Vitória (PCV) | ES | 1 |
| Primeiro Comando do Maranhão (PCM) | MA | 1 |
| Raio A | BA | 1 |
| Raio B | BA | 1 |
| Revolucionários do Amazonas (RDA) | AM | 1 |
| Seita Satânica | SP | 1 |
| Sindicato do Crime (SDC) | RN | 1 |
| Tauras | RS | 1 |
| Trem Bala | PE | 1 |
| Tren de Aragua** | RR | 1 |
| Tropa da Revolução | RO | 1 |
| Tropa do KLV | BA | 1 |
| Tudo Neutro (TDN) | CE | 1 |
| União Criminosa do Amapá (UCA) | AP | 1 |
| V7 | RS | 1 |
A despeito das dificuldades para estudar o tema, acadêmicos acreditam que existe uma tendência de ‘faccionalização’ no Brasil, explica o professor de ciência política da Universidade de Chicago Benjamin Lessing. Grande parte disso continua sendo reflexo da expansão do PCC.
A ampliação territorial passou a ser uma estratégia de negócios para o grupo paulista a partir de 2010. Em São Paulo, berço da facção, criminosos de fora faziam uma espécie de estágio para aprender a transformar pasta base em cocaína, e lucrar mais. O grupo chegou a financiar núcleos de outros estados, mandando armas e drogas, e a ensinar o funcionamento das extintas rifas, fonte importante de arrecadação. A intenção não era dominar o território, mas estar presente em locais interessantes do ponto de vista logístico para o tráfico internacional.
Muitas das facções que emergiram no Nordeste e Norte surgiram como uma reação à chegada dos paulistas. Foi o caso dos Guardiões do Estado (GDE), no Ceará, e da Família do Norte, no Amazonas. Esta segunda já é considerada extinta pelas autoridades.
— Esse avanço do PCC deu impulso à criação de facções locais, que representam o crime daquele lugar, se defendendo do “imperialismo” do PCC — explica Lessing.
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