O conceito de “resiliência” vem sendo distorcido – e isso é ruim para a saúde
Essa palavra virou sinônimo de “aguentar tudo”, o que abre caminho para prejuízos ao cérebro. Crédito: edição: Lais Nagayama
Se você é sempre o primeiro a se voluntariar e o último a sair, pode estar caminhando para uma “ressaca de competência”. Pelo menos é o que afirma Peter Duris, CEO e cofundador da plataforma de carreiras Kickresume, que está dando o alerta sobre o esgotamento que acontece quando você é tão bom no que faz que todo mundo passa a depender de você para tudo.

Sentir-se responsável por manter tudo funcionando na empresa pode aumentar o risco de burnout Foto: deagreez/Adobe Stock
“Querer garantir que tudo seja feito com alto padrão é ótimo, mas isso também pode cobrar seu preço ao longo do tempo, levando a um estresse desnecessário”, alerta Duris. “Se você frequentemente vai além no trabalho, isso pode resultar em uma ressaca de competência — o tipo de burnout que surge quando você se sente inerentemente responsável por manter tudo funcionando.”
Em outras palavras, quanto melhor você é no seu trabalho, mais difícil fica parar de fazê-lo.
Duris sabe do que está falando: sua plataforma já ajudou mais de 8 milhões de pessoas a conseguirem empregos em empresas como Google, Apple e Microsoft, o que lhe dá uma visão privilegiada dos hábitos e bloqueios de profissionais de alto desempenho no mundo todo. E os dados que ele está vendo pintam um quadro preocupante.
Pesquisas da própria Kickresume apontam que 48% dos americanos estão enfrentando a síndrome do impostor e trabalhando demais como resultado disso. Um terço se sente culpado ao tirar folga. Quase um em cada cinco sente pressão para continuar trabalhando mesmo quando está doente.
E a pressão não vem apenas da sua própria cabeça. Em um mercado de trabalho mais difícil, onde promoções estão estagnadas e a IA ameaça silenciosamente categorias inteiras de empregos de escritório, muitos profissionais de alto desempenho sentem que não têm escolha a não ser entregar além do esperado apenas para se manterem seguros.
“Se isso soa como você, vale a pena dar um passo atrás e reduzir sua carga mental”, acrescenta Duris.
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A armadilha é enganosamente fácil de cair. Você se oferece para cobrir o projeto de um colega, fica até mais tarde para resolver um problema que ninguém mais conseguiu, ou diz “sim” para mais uma tarefa porque sabe que é o único que vai fazê-la direito. Você assume um pouco mais, depois mais um pouco, e, quando percebe, já assumiu silenciosamente muito mais do que sua parte justa.
A Kickresume chama isso de “superfuncionamento” — e diz que, inicialmente, ele é impulsionado pelo medo de que seu trabalho não seja bom o suficiente.
Mas, com o tempo, esse medo se transforma em hábito. Profissionais de alto desempenho que constantemente vão além começam a sentir como se toda a responsabilidade estivesse apenas sobre seus ombros. Nesse ponto, recuar não parece apenas desconfortável — começa a parecer realmente impossível.
“Ser a pessoa de quem todos dependem pode ser muito desgastante e levar ao burnout”, alerta Duris. “Lembre-se de que está tudo bem dizer ‘não’ quando sua carga de trabalho fica pesada demais.”
A ironia é que aquilo que na superfície parece dedicação pode, silenciosamente, corroer o desempenho — e o impacto está atingindo tanto funcionários quanto empresas. Diferentes pesquisas mostram que metade dos trabalhadores está no limite atualmente. E o burnout generalizado, junto com a falta de engajamento, está drenando cerca de US$ 438 bilhões em produtividade perdida todos os anos.
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O primeiro passo, segundo Duris, é enfrentar o perfeccionismo que provavelmente trouxe você até aqui.
“É importante entender que você não precisa ser perfeito no trabalho nem na vida”, diz ele. “E que ir além é um bônus, não uma exigência o tempo todo.”
Dar a si mesmo permissão para fazer o suficiente, em vez de tudo, é mais difícil do que parece para quem é cronicamente superprodutivo. Mas, se você não conseguir fazer isso, nada mais vai funcionar.
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Crédito: Marcela Mansur Alves, psicóloga e professora da UFMG
Depois vem o hábito mais difícil de quebrar: dizer “sim” por padrão. “Ajudar os outros é ótimo, mas também pode aumentar sua carga de trabalho se você assumir coisas demais”, diz Duris.
“Em vez de aceitar tarefas sem questionar, você pode tentar dizer que talvez consiga ajudar depois de terminar uma tarefa prioritária. Assim, você não se compromete automaticamente com mais trabalho”, acrescenta. É uma pequena mudança na forma de falar — mas que dá espaço para você realmente avaliar o que consegue assumir antes de concordar.
E se o cansaço, o ressentimento crescente e a sensação de que você simplesmente não consegue desligar já se instalaram, Duris é direto sobre o que precisa acontecer a seguir. “Se você está sentindo os sintomas de burnout e de uma ressaca de competência, pode ser hora de dar um passo atrás”, alerta.
“Você pode tentar reduzir qualquer hora extra que esteja fazendo para melhorar seu equilíbrio entre vida pessoal e profissional e focar nas suas principais prioridades.” Diminuir as horas extras não é sinal de desleixo — é o único caminho realista de volta a uma carga de trabalho sustentável.
Ser a melhor pessoa do escritório e a mais esgotada não precisam andar juntos. Às vezes, a decisão mais inteligente é simplesmente saber a hora de parar.
Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.
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