A nova sequência de ataques do presidente argentino Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao canal LN+, devem complicar o cenário de normalização diplomática e retardar o retorno a Buenos Aires do embaixador brasileiro Julio Bitelli. Gestos de distensão eram uma condição para a volta do diplomata.
Neste domingo, dia 2, Milei reiterou na entrevista o teor das declarações que havia feito no Brasil, ao participar da convenção que lançou a candidatura oposicionista do senador e aliado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a presidente da República.
O presidente argentino afirmou que agiu de forma correta ao chamar o petista de “presidiário”, “ladrão” e “corrupto”.
“Eu menti?”, reagiu Milei, ao ser questionado na TV. “É ladrão, é um corrupto. Foi condenado por ser ladrão e corrupto. Esteve preso, portanto está correto presidiário. E não somente isso. Foi liberado por um erro administrativo do procedimento (judicial), não por ser inocente.”
Até sexta-feira, dia 31, a ordem no Itamaraty era aguardar sinais de eventual normalização e monitorar a situação política na capital argentina à distância, por meio de contatos diversos do corpo diplomático. A embaixada continua funcionando gerida por um encarregado de negócios, sem a presença do chefe do posto.
Bitelli foi chamado a consultas em Brasília como gesto grave de desaprovação ao ato de Milei na convenção bolsonarista, uma praxe diplomática. Após conversas com Lula e com o ministro Mauro Vieira, foi orientado a permanecer no País por tempo indeterminado, até que houvesse uma avaliação política indicando degelo.
O governo brasileiro não pretende rebaixar a representação ou deixar a embaixada sem comando, tampouco romper relações ou agravar a crise. Mas pregou cautela. A nova investida de Milei vai em direção contrária aos sinais recebidos até então.
Há uma avaliação corrente no governo sobre a “imprevisibilidade” quanto às posturas futuras do governo Milei. O governo Lula entende que o libertário argentino agiu em linha com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Diplomatas que acompanham as reuniões de avaliação do Itamaraty tinham achado positivo – para os padrões de Milei – a fala do chanceler Pablo Quirno, na quarta-feira, dia 29, indicando em uma das principais rádios da Argentina, a Mitre, que não havia intenção de romper com o Brasil. Para eles, o chanceler não agiu por contra própria, mas com aval da Casa Rosada.
Também entendiam que os “maus modos” de Milei haviam repercutido mal para ele junto ao setor produtivo argentino, sobretudo no empresariado vinculado ao comércio e investimentos com o Brasil. Houve ainda reações políticas. O ex-ministro peronista Jorge Taiana moveu uma moção de repúdio a Milei na Câmara dos Deputados.
Bitelli permanece no Brasil. Desde a segunda-feira, dia 27, o embaixador fez até agora cinco reuniões com integrantes do governo federal – em duas ocasiões conversou com o próprio Lula, acompanhado pelo chanceler. Houve uma reunião com outros embaixadores da Secretaria de América Latina e Caribe no Itamaraty. A última discussão ocorreu na manhã de sexta-feira, dia 31, apenas com o ministro Mauro Vieira.
Vieira e Quirno se cruzaram na terça-feira da semana passada, enquanto o brasileiro representava Lula e o argentino acompanhava Milei na posse de Keiko Fujimori, em Lima, Peru. No entanto, não conversaram. Na próxima quarta-feira, dia 5, a cena deve se repetir na Colômbia, durante a posse de Abelardo de la Espriella.
O governo Lula também convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para comunicar sua insatisfação. Ele ouviu as queixas do próprio ministro Vieira, algo que só havia acontecido com o ex-embaixador israelense Daniel Zonshine, no auge da crise com Israel.
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