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Bombardeios no Irã: a aposta mais arriscada de Trump

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
01/03/2026
in Opinião
Reading Time: 5 mins read
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Bombardeios no Irã: lições históricas e os riscos de apostar em mudança de regime

O colunista do Estadão, Oliver Stuenkel, comenta os ataques dos EUA e de Israel e a resposta do Irã no novo capítulo do conflito no Oriente Médio. Crédito: Oliver Stuenkel

Ao atacar o Irã e conclamar os iranianos a derrubarem o próprio governo após o fim da operação, o presidente Donald Trump assumiu um risco elevadíssimo, sobretudo porque o Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA. Pelo contrário: avaliações recentes da inteligência americana indicavam que o país está militarmente enfraquecido após os bombardeios do ano passado. Diferentemente de ataques pontuais no passado, desta vez trata-se de uma campanha aberta, com risco real de escalada. O próprio Trump admitiu que pode haver baixas americanas — linguagem típica de guerra declarada, mas sem autorização formal do Congresso.

A comparação com a invasão do Iraque em 2003 é inevitável: trata-se do que é conhecido nos EUA como “War of Choice”, uma “guerra escolhida”, não de autodefesa. Em 2003, Washington ao menos tentou obter, em vão, respaldo do Conselho de Segurança da ONU — algo que não fez agora. Trata-se, portanto, de mais uma clara violação da soberania iraniana e do direito internacional. Um argumento central da Casa Branca girou em torno da ameaça nuclear. No entanto, não há evidências de que o Irã tenha retomado um programa ativo de armas atômicas. Autoridades americanas chegaram a afirmar que Teerã não está enriquecendo urânio neste momento.

Pessoas observam fumaça causada por ataques contra Teerã na manhã deste sábado. Foto: Associated Press

Diante desse cenário, vale recordar as advertências do cientista político Robert A. Pape, da Universidade de Chicago, especialista em campanhas de bombardeio. Pape destaca três lições históricas. Primeiro: campanhas aéreas, por si só, quase nunca resultam em uma mudança de regime favorável a quem ataca. Desde a Primeira Guerra Mundial, bombardeios foram capazes de destruir infraestrutura e alvos militares, mas raramente alteraram de forma decisiva o rumo político de um país. Segundo: agressões externas tendem a aproximar governo e sociedade. Mesmo quem critica ou rejeita seus líderes costuma reagir fechando fileiras quando o país é atacado. Terceiro: a retaliação geralmente não é imediata — e quase nunca é simétrica. Ela pode vir meses ou anos depois, por meio de aliados, ataques terroristas, ações cibernéticas ou escaladas regionais inesperadas.

Como escreve Stephen Wertheim, do Carnegie Endowment em Washington DC, ao lançar uma ofensiva sem preparar a sociedade americana para um conflito e sem apresentar uma justificativa convincente, o presidente depende de que tudo seja rápido e sem custos para a sociedade americana. Nada garante isso. Se o regime iraniano resistir, a pressão por escalada pode aumentar — inclusive com o envio de tropas terrestres. Se o regime cair e o país mergulhar no caos, Washington poderá enfrentar o dilema de intervir para estabilizar a situação. Em ambos os cenários, o custo tende a crescer rapidamente.

De fato, a opinião pública americana não está mobilizada para uma guerra. Em 2003, George W. Bush trabalhou ativamente para moldar o debate, buscou apoio legislativo e obteve autorização do Senado. Agora, Trump não construiu consenso com o Congresso nem formou uma ampla coalizão internacional. Ao contrário do Iraque, não há uma aliança dividindo responsabilidades. Londres, por exemplo, recusou o uso de instalações estratégicas sob controle britânico para apoiar a operação. Na prática, o único apoio claro vem de Israel. Se os resultados forem negativos, o ônus político recairá quase exclusivamente sobre a Casa Branca.

Mesmo com o expressivo deslocamento de forças americanas para a região, há sinais de preocupação dentro do próprio aparato militar. Como relata o jornal britânico Financial Times, o principal general do Pentágono teria alertado o presidente para limitações nos estoques de munições essenciais e para os riscos adicionais decorrentes da ausência de aliados engajados. Isso amplia a incerteza operacional. Além disso, os objetivos da guerra permanecem pouco definidos: derrubar o regime, conter o programa nuclear ou forçar negociações? Conflitos iniciados sem metas claras costumam ser mais difíceis de encerrar.

Os combates já interromperam o tráfego pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Se a crise persistir, os preços podem subir, pressionar a inflação nos Estados Unidos e afetar diretamente a popularidade de Trump. O Irã, afinal, possui grandes reservas de petróleo. Dos cinco países com as maiores reservas comprovadas — Venezuela, Arábia Saudita, Irã, Canadá e Iraque —, a Arábia Saudita é o único que os EUA não invadiram, bombardearam ou ameaçaram anexar ao longo das últimas décadas.

No fundo, Trump parece apostar que um regime enfraquecido pode ruir sob ataque externo e revolta interna. Mas derrubar um governo de noventa milhões de pessoas apenas com poder aéreo é um risco significativo — e a história mostra que guerras escolhidas raramente seguem o roteiro planejado.

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