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O Brasil e o tarifaço

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
18/07/2026
no Opinião
Tempo de leitura:7 minutos de leitura
15
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O governo dos Estados Unidos, de maneira unilateral e ignorando as negociações e as evidências apresentadas pelo Brasil, oficializou tarifas de 25% sobre uma vasta gama de produtos brasileiros. É bom que se diga: esse protecionismo busca desindustrializar ainda mais o Brasil. É uma estratégia para que voltemos ao papel de meros fornecedores de matéria-prima, condenando-nos a exportar o suor da terra para importar o valor agregado estrangeiro. Esse filme nós já assistimos, e o triste final é conhecido por qualquer estudante de história econômica brasileira.
 

Sempre que o Brasil ensaia um salto de complexidade produtiva, as barreiras se levantam. Quando tributamos nossas máquinas e equipamentos — setor que destina 26% de suas exportações aos EUA —, não estão apenas encarecendo um produto. Estamos desestimulando o investimento em inovação, em centros de pesquisa e em empregos de alta qualificação em solo nacional. A indústria, que representa 23,4% do PIB nacional segundo a CNI, é o setor que agrega valor, que encadeia cadeias produtivas, que transforma matéria-prima em dignidade.
 

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Um dos setores atingidos foi o de máquinas agrícolas. É necessário desmentir uma narrativa que, acriticamente, é propalada de forma equivocada, por vezes embalada de muita má-fé: a ideia de que o agronegócio é um setor primitivo, que não gera indústria, não gera prosperidade tecnológica, não gera bons empregos. Os fatos mostram o contrário.
 

O agronegócio brasileiro que Trump quer inviabilizar é uma potência de bioindustrialização. Estamos na vanguarda global da bioenergia e dos bioinsumos, um mercado que alcançou R$ 6,2 bilhões em 2025, crescendo 28% no último ano — uma taxa quatro vezes superior à média mundial. Quando falamos da máquina agrícola brasileira sobretaxada, estamos falando de tecnologia de ponta, de sensores, de automação, de sustentabilidade aplicada.
 

O campo brasileiro industrializa, sim. Gera empregos em fábricas de máquinas e em laboratórios de biotecnologia. Se o agro fosse apenas um setor arcaico, os EUA não estariam tão preocupados em taxar nossas colheitadeiras e semeadoras. O impacto de US$ 4,2 bilhões previstos para o setor comprova que o Brasil é muito mais que apenas o “sacolão” do mundo. Falar de agronegócio, no Brasil, é falar de agroindústria. É falar de transformação, de valor agregado, de conhecimento aplicado à terra.
 

Não podemos acreditar em cantos de sereia, como o de um mercado que se autorregula. O Estado brasileiro precisa ser um instrumento de defesa e promoção da nossa dignidade produtiva. A economia nacional depende, para seu justo desenvolvimento, do investimento produtivo interno. Dessa forma, é possível sustentar investimentos, renda e capacidade exportadora.
 

Ou seja, manter a Selic em patamares que sufocam o investimento produtivo é um erro de política econômica. A CNI foi categórica ao afirmar que a manutenção da Selic em 15% impõe custo elevado à economia e prejuízo à competitividade da indústria brasileira. O empresário brasileiro precisa de juros que permitam os investimentos produtivos.
 

O programa Nova Indústria Brasil, com seu reforço de R$ 140 bilhões para setores estratégicos, é um passo fundamental — mas ainda insuficiente se não for acompanhado de desburocratização e de linhas de crédito específicas. O Estado não deve ser o peso nas costas de quem produz, mas onde esses agentes produtivos se apoiam.
 

Precisamos de uma política fiscal razoável, que não mate a atividade com arrocho, nem que abra mão da capacidade de investimento público em infraestrutura e inovação. Em suma: desburocratizar, facilitar o exercício da atividade econômica, criar crédito barato e direcionado são obrigações de um Estado que pretende ser socialmente inclusivo e responsável.
 

É por isso que devemos estar de olhos abertos: esta tarifaço é a maior oportunidade que o Brasil teve para compensar sua estratégia comercial e construir uma política industrial voltada para exportação. Minha avó sempre dizia: “André, nunca coloque todos os ovos em uma única cesta.” A dependência excessiva de um único mercado consumidor é uma vulnerabilidade inaceitável.
 

Aliás, os dados mostram essas características já se desenhando. Em 2025, os dados consolidados, enquanto as exportações para os EUA caíram 6,6%, nossas vendas para o restante do mundo cresceram 3,5%. Já em 2026, dados parciais do primeiro semestre divulgados pelo MDIC mostram que o Brasil acumulou superávit comercial de US$ 42,4 bilhões, US$ 12,2 bilhões acima do mesmo período de 2025 — justamente porque começou um olhar para além do Atlântico Norte. Em volume com ajuste sazonal, a indústria extrativa viu suas exportações crescerem 37,1%, e a indústria de transformação avançou 3,6%.
 

Precisamos fortalecer laços com o Sul Global, ampliar nossa presença na Ásia, na África, no Oriente Médio e consolidar nossa liderança na América Latina. A diplomacia comercial brasileira deve abrir novos mercados — negociar acordos, construir pontes institucionais, garantir que, se uma porta se fecha, outras dez se abram por necessidade econômica. E este alerta vale também para os setores que hoje não foram atingidos: devem ficar de olhos bem abertos, diversificar destinos, porque também, a depender das situações, poderão ser eles os alvos.
 

A atividade industrial gera os empregos mais dignos desta economia. Dados do IBGE mostram que o salário médio nacional dos brasileiros atingiu R$ 3.722 no primeiro trimestre de 2026, recorde da série histórica da PNAD Contínua. Mas o que esses números escondem é a desigualdade entre os setores. A indústria, historicamente, paga acima da mídia nacional.
 

A CNI destaca que aumentam mais altos e estabilidade no emprego são marcas do setor industrial — 28,7% dos trabalhadores apontam os salários como principal fator de escolha. A indústria exige qualificação, e a qualificação exige investimento em pessoas. E quando o Estado investe em qualificação, abre portas… Ou seja, a economia embasa a justiça social: fortalecer a atividade econômica — e em especial a atividade industrial — é a melhor maneira de promover a inclusão social de todos os grupos minorizados.
 

A Lei de Cotas, que completa 35 anos, registrou mais de 63 mil contratações de pessoas com deficiência só no primeiro semestre de 2025, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Desde 2009, a fiscalização do trabalho realizou mais de 139 mil auditorias, resultando na inclusão de mais de 537 mil trabalhadores com deficiência no mercado formal. Mas esses números, para que cresçam, dependem diretamente da saúde da atividade econômica.
 

Durante a pandemia, mais de 21 mil postos de trabalho ocupados por pessoas com deficiência foram extintos — mais de 10 mil demissões sem justa causa, segundo dados do Ministério do Trabalho. O IBGE revela que 7 em cada 10 pessoas com deficiência estão fora do mercado de trabalho, e que o desemprego e a informalidade são maiores entre essa população.
 

Um estudo da Rede Multiatores MUDE com Elas, baseado na PNAD Contínua 2025 do IBGE, mostrou que o desemprego entre mulheres negras jovens chega a 24,7%. Quando a economia desacelera, quem perde o emprego primeiro é quem sempre esteve por último na fila: a pessoa com deficiência, a mulher negra, o jovem periférico. Quando a fábrica fecha, esses são os primeiros a serem cortados.
 

Por outro lado, quando uma fábrica abre e cresce, são esses mesmos grupos que se aproximam da dignidade do trabalho formal, do salário, da carteira assinada, da possibilidade de planejar o amanhã. Programas como os do SENAI e do SESI, que qualificam milhões de trabalhadores — incluindo pessoas com deficiência —, só cumprem seu papel quando há uma indústria viva para absorvê-los. A inclusão de pessoas com deficiência é corolário da força produtiva.
 

A inclusão social verdadeira — não a performática, a que se resume a panfletos e palestras — nasce da força produtiva. Por isso, defensor da indústria brasileira do tarifaço de Trump é, no fundo, defensor do direito de milhões de pessoas vulneráveis ​​de terem um lugar na economia. É defensor que o pai de família que opera uma prensa, uma pesquisadora que desenvolve um novo bioinsumo, o jovem aprendiz com deficiência que entra pela primeira vez no mercado formal — todos eles têm a chance de construir uma vida com dignidade.
 

O Brasil tem recursos naturais inigualáveis, um mercado interno pujante, uma indústria que resiste bravamente, uma agroindústria na vanguarda da bioeconomia e uma diplomacia historicamente respeitada. O que nos falta, por vezes, é a cooperação dessas forças com determinação estatal. A economia, no fim das contas, trata de pessoas.
 

Defenda nossa indústria, busque novos mercados, reduza juros, facilite o crédito, desburocratize — tudo isso é, acima de tudo, defender a dignidade nacional e a inclusão de quem mais precisa. O Brasil é grande demais para ser contido por tarifas. Se eles querem erguer muros, construiremos pontes para o resto do mundo. A mudança é possível, e ela começa com a consciência de que nosso destino não se decide na Casa Branca, mas na coragem de nossas escolhas.
 

Por André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em Economia Política pela PUC/SP; Cientista Político pelo Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Comendador Cultural, Escritor e Professor

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