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Fim da escala 6×1: ‘Empresários causam pânico para continuar sugando trabalhador’, diz fundador do movimento

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
06/02/2026
no Política
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Fim da escala 6×1: ‘Empresários causam pânico para continuar sugando trabalhador’, diz fundador do movimento
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Quando o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse na segunda-feira (2/2) que o fim da escala 6×1 — aquela em que o funcionário trabalha seis dias na semana e tem apenas um dia de descanso — será uma das prioridades do ano legislativo de 2026, a equipe do gabinete 805 da Câmara dos Vereadores do Rio de janeiro vibrou.

Entre divisórias plásticas brancas típicas de repartição pública e cartazes motivacionais com dizeres como “disciplina” e “foco”, é ali que dá expediente Rick Azevedo, ex-balconista de farmácia que viralizou no TikTok desabafando sobre sua rotina de trabalho, com só um dia de folga por semana.

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Após criar uma petição que já reúne quase 3 milhões de assinaturas e fundar com outros trabalhadores o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), Azevedo foi eleito em 2024 como o vereador mais votado do PSOL do Rio de Janeiro.

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Aos 32 anos e nascido em Dianópolis, no Tocantins, ele não esconde o entusiasmo com a possibilidade de ver em breve se tornar realidade o que ele classifica, sem modéstia, como “a proposta trabalhista mais importante deste século”.

“Tenho certeza que vai ser aprovado agora nesse primeiro semestre de 2026”, disse Azevedo, em entrevista à BBC News Brasil, concedida no dia seguinte à fala de Hugo Motta na cerimônia de abertura do ano legislativo em Brasília.

Com igual entusiasmo, ele responde às críticas de economistas e empresários que têm se posicionado contrários ao fim da escala 6×1.

Esses críticos dizem que a proposta pode ser um tiro no pé da economia brasileira, em um momento em que empresas enfrentam dificuldades para contratar, e que pode prejudicar principalmente as pequenas e médias empresas, responsáveis por 80% do emprego formal do país.

“Se eu estivesse falando para você aqui agora, ‘vamos acabar com a escravidão no país’, os economistas de hoje iriam falar a mesma coisa: que o país não tem estrutura para acabar com a escravidão, que o país ia quebrar”, diz Azevedo.

“O 13º [salário], a mesma coisa. Férias remuneradas, a mesma coisa. Licença maternidade também. Direitos para empregadas domésticas? ‘Não podemos. O país vai quebrar'”, afirma.

“Eles querem causar esse pânico econômico para continuar sugando o trabalhador seis dias na semana, para apenas um dia de folga, e receber um salário que muitas vezes não dá nem para comer.”

Mas a resistência à proposta não vem apenas de empresários e economistas.

Pesquisas Genial/Quaest publicadas em dezembro mostraram que, embora 72% da população seja a favor do fim da escala 6×1, entre os deputados, apenas 42% são favoráveis e 45% são contra — os outros 13% não opinaram ou não responderam.

A bancada contrária já foi maior, era de 70% em julho de 2025, segundo o mesmo instituto. Mas ainda assim, o apoio ainda é bem inferior ao da tarifa zero no transporte público, por exemplo, aprovada por 65% dos deputados em dezembro.

“O Congresso Nacional brasileiro, que deveria ser a Casa do Povo, é a casa do agro, dos empresários, dos lobistas, dos escravocratas. Netos e parentes de donos de escravos estão lá dentro”, critica o fundador do movimento VAT.

Ainda assim, Azevedo se diz confiante na aprovação da pauta. “Eles são lobistas, são escravocratas, mas precisam do voto do povo”, afirma.

O vereador também não poupa críticas ao governo Lula, que ele avalia ter dificuldade de dialogar com os novos trabalhadores. E afirma que o apoio da gestão petista à proposta — que deve ser uma das bandeiras da campanha de reeleição de Lula este ano, ao lado da tarifa zero — é resultado da pressão popular.

“Quando a classe trabalhadora se une em prol de uma causa que é muito maior que o lobby do Congresso Nacional, o governo se sente seguro em enfrentar esse lobby.”

Apesar de suas críticas ao Congresso, Rick Azevedo não descarta deixar seu mandato de vereador no Rio para concorrer a deputado federal em outubro.

“Até o fim desse semestre, vou tomar uma decisão”, antecipou à BBC News Brasil.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Rick Azevedo sorrindo e olhando para a câmera em uma escadaria imponente na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro

BBC
Rick Azevedo não descarta deixar seu mandato de vereador no Rio para concorrer a deputado federal em outubro: ‘Até o fim desse semestre, vou tomar uma decisão’

BBC News Brasil – Sua petição que colocou o fim da escala 6X1 em pauta no Brasil já teve quase 3 milhões de assinaturas. No Congresso, PECs sobre o tema avançam na Câmara e no Senado e podem ir à votação em plenário ainda este ano. Esperava que o tema tivesse essa repercussão e avançasse tão rapidamente?

Rick Azevedo – Quando eu comecei lá atrás, como um balconista de farmácia que só queria desabafar, nos primeiros momentos, achei que realmente não iria avançar a ponto de a gente chegar até aqui. Mas, conforme criei a petição, fundei o Movimento VAT e fui vendo a adesão em todo o país, falei: “Agora vai, a gente tem uma pauta da classe trabalhadora em evidência”.

BBC News Brasil – E como vê a iniciativa do governo Lula de apoiar a pauta?

Azevedo – Vejo como uma resposta à pressão do povo. Vejo que, quando a classe trabalhadora se une em prol de uma causa que é muito maior que o lobby do Congresso Nacional — porque obviamente sabemos de todo o lobby do empresariado que toma conta das instituições —, o governo se sente seguro em enfrentar esse lobby para dizer “sim, teremos o fim da escala 6×1”.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante pronunciamento televisivo pelo Dia do Trabalhador, em 1º de maio de 2025. Ele veste camisa azul com as mangas compridas dobradas e tem as mãos unidas junto ao peito. Uma legenda em letras brancas diz

Reprodução YouTube
Lula defendeu debate sobre o fim da jornada 6×1 em seu discurso pelo Dia do Trabalhador, em 1º de maio de 2025

BBC News Brasil – A opção da deputada Erika Hilton de apresentar a proposta como uma PEC [cuja aprovação depende dos votos favoráveis de três quintos dos deputados, em dois turnos de votação] e prevendo uma jornada de 4 dias de trabalho e 36 horas semanais pode dificultar a aprovação do tema?

Azevedo – Dificulta, porque, quando se fala em direitos para a classe trabalhadora, sempre há uma grande resistência. E a gente chega com uma proposta bastante ousada.

Obviamente, vem esse discurso de que “não tem como, porque a [escala] 4×3 vai fragilizar a economia”, quando, na verdade, a gente fala de um Congresso que nem trabalha.

Então, obviamente, essa proposta ousada de 4×3 e 36 horas semanais dificulta a aprovação do texto, porque eles [os parlamentares] estão querendo já pensar em uma nova proposta, algo mais flexível.

Mas a gente vai manter nossa linha até o último momento. De repente, a gente não consegue 4×3, mas, se a gente conseguir a [escala] 5×2 e 36 horas semanais, não iremos desistir aí. O movimento VAT vai continuar lutando para que a gente consiga a 4×3 em um futuro muito próximo.

BBC News Brasil – Alguns economistas e empresários dizem que seria um tiro no pé aprovar a escala 6×1 no momento atual, em que o mercado de trabalho enfrenta sérias dificuldades para contratar, particularmente nos empregos de baixos salários e menor qualificação. Como avalia essa preocupação?

Azevedo – Os economistas contratados pelos empresários iriam dizer isso se a gente estivesse falando agora de acabar com a escravidão?

Se eu estivesse falando para você aqui, agora, “vamos acabar com a escravidão no país”, os economistas de hoje iriam falar a mesma coisa: que o país não tem estrutura para acabar com a escravidão, que o país ia quebrar, que o país não poderia ter um outro momento senão a escravidão, porque os empresários e os senhores de escravos precisam explorar e escravizar pessoas.

O 13º [salário], a mesma coisa. [Eles diriam que] não poderia ter 13º, porque o país ia quebrar. Férias remuneradas, a mesma coisa. Licença maternidade também. Direitos para empregadas domésticas? “Não podemos. O país vai quebrar.”

É um roteiro falido dos empresários. É um roteiro que as novas gerações não engolem, não aceitam.

A deputada federal Erika Hilton e o vereador Rick Azevedo. Ela veste um vestido preto e tem cabelos loiros ondulados, ele veste terno preto e camiseta clara. Ambos olham para a câmera e Rick Azevedo está sorrindo

Divulgação PSOL
‘Obviamente, essa proposta ousada de [escala] 4×3 e 36 horas semanais dificulta a aprovação do texto’, admite Rick Azevedo, sobre PEC apresentada por Erika Hilton

BBC News Brasil – Os empresários também dizem que a proposta deve afetar sobretudo as pequenas e médias empresas, que são responsáveis por 80% dos empregos formais do país, e que os negócios dessas empresas podem se tornar insustentáveis. Como vê essa crítica?

Azevedo – Sim, a gente tem uma discussão bem incisiva lá em Brasília, em parceria com o mandato da deputada federal Erika Hilton. E sim, tem essa preocupação que é válida com os pequenos e microempresários.

Obviamente, a gente está estruturando esse plano para apresentar. Agora vai ter os grupos de estudos dentro do Congresso Nacional para a gente apresentar um plano mais concreto.

Mas o que eu posso te dizer é que esses pequenos e microempresários vão ser assistidos. A gente vai, sim, ter essa conversa técnica e mais aprofundada.

BBC News Brasil – Mas o que estão pensando em termos concretos para que esse pequeno empresário seja protegido e não fique de alguma forma prejudicado por essa mudança?

Azevedo – Já tem a isenção fiscal que acontece no Brasil, que é um assunto que pouco se fala. Temos milhões e milhões de isenção fiscal.

Então, não temos um plano fechado agora, mas o que eu posso te dizer [é que] a isenção de alguns impostos para essas pequenas empresas será um dos planos que a gente vai apresentar de forma concreta para os empreendedores e para os pequenos empresários.

Porque, de fato, essa discussão tem que ser muito bem pensada.

Uma cabeleireira atende uma cliente enquanto assiste um jogo de futebol na televisão

AFP
Rick Azevedo diz que micro e pequenas empresas poderão ter isenção de impostos para não serem prejudicadas pelo fim da escala 6×1

BBC News Brasil – Você foi funcionário de farmácia, antes de se tornar vereador. A Abraframa, entidade que representa o varejo farmacêutico, tem dito que para manter as farmácias funcionando 12, 15 ou até 24 horas de segunda a domingo, não tem como reduzir o número de pessoas. Dizem que a redução de jornada pode resultar no fechamento de pequenas farmácias e no encarecimento dos produtos aos consumidores, devido ao aumento de custo. Como alguém que trabalhou em farmácia, como vê esses argumentos?

Azevedo – Vejo um malabarismo grande para continuar sucateando os trabalhadores desses setores. Porque eu venho de farmácia, e quem já trabalhou em farmácia sabe como é difícil, como você fica esgotado. Farmácias vendem cuidado, e quem cuida das pessoas que estão ali trabalhando?

Na verdade, o empresariado brasileiro não conseguiu enxergar o que está acontecendo mundo afora. Porque o patrão europeu não é bonzinho. O exemplo que temos de outros países que já diminuíram a jornada de trabalho, não é porque o patrão é bonzinho, é porque ele é esperto o suficiente para entender que o trabalhador com mais tempo vai consumir mais.

Então, esse efeito que eles falam que vai causar é simplesmente pânico econômico. Eles querem causar esse pânico econômico para continuar sugando o trabalhador seis dias na semana, para apenas um dia de folga, e receber um salário que muitas vezes não dá nem para comer.

BBC News Brasil – Empresários e economistas também defendem que o fim da jornada 6×1 pode ser prejudicial à economia do país sem investimentos anteriores em educação e um aumento da produtividade da economia brasileira. Na sua visão, é de fato necessário um aumento da produtividade antes do avanço da pauta?

Azevedo – Eles adoram falar que não temos uma produtividade boa no Brasil. Mas como que o trabalhador vai ter uma produtividade boa?

Estamos falando de um país que não oferece o básico, não oferece um transporte público de qualidade, não oferece sequer uma escala justa, um salário justo, não oferece condições mínimas para o trabalhador ter dignidade.

Como é que essa pessoa vai produzir bem? Como é que ela vai produzir de forma positiva para o país se ela não tem condições mínimas?

E sobre educação, estamos lutando por vida além do trabalho, por uma escala mais justa, para que as pessoas tenham condições de estudar.

Manifestantes em protesto pelo fim da jornada de trabalho 6 x 1, na Cinelândia, Rio de Janeiro, em 15 de novembro de 2024

Tânia Rêgo/Agência Brasil
‘Estamos lutando por vida além do trabalho, por uma escala mais justa, para que as pessoas tenham condições de estudar’, diz Azevedo

BBC News Brasil – Você mencionou a questão do transporte. Existe a expectativa de que o fim da jornada 6×1 esteja no centro da campanha eleitoral deste ano, sendo uma das bandeiras de reeleição de Lula, ao lado da tarifa zero nos transportes. Há espaço para que essas duas pautas que geram forte resistência do empresariado caminhem juntas? Ou o governo pode ser forçado a escolher qual briga quer comprar?

Azevedo – São duas pautas extremamente necessárias e que têm condições de ter um grande andamento agora nesse primeiro semestre. Mas, devido ao tempo curto no Congresso Nacional, por causa das eleições, pode ser que não consiga andar com as duas pautas e aprovar.

Tenho certeza que o fim da escala 6×1 vai ser aprovado agora nesse primeiro semestre de 2026. Tivemos uma fala recente do presidente da Câmara, Hugo Motta, que já disse que vai acelerar a pauta. Uma conversa que não tinha no ano passado, porque teve muita resistência no ano de 2025.

BBC News Brasil – Essa é, então, uma pauta que está mais madura do que a da tarifa zero?

Azevedo – Sim. Acredito que o fim da escala 6×1 é uma pauta que está mais madura e que tem mais chances de ser aprovada neste primeiro semestre. Isso não significa que a gente não vai lutar para que a tarifa zero seja aprovada também. Mas acredito que o fim da escala 6×1 está mais avançada, digamos assim.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, discursando em evento de abertura do ano legislativo, em Brasília, e 2 de fevereiro de 2026

Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
‘Devemos acelerar o debate sobre a PEC 6×1, com equilíbrio e responsabilidade, ouvindo trabalhadores e empregadores’, disse Hugo Motta na segunda-feira (2/2)

BBC News Brasil – Sobre a tramitação no Congresso, pesquisas Genial/Quaest de dezembro mostraram que, embora 72% da população seja a favor do fim da escala 6×1, entre os deputados, apenas 42% são a favor e 45% são contra. A bancada contrária já foi maior, ela era de 70% em julho. Mas ainda assim, o apoio ainda é bem inferior ao da tarifa zero, que tinha a aprovação de 65% dos deputados em dezembro. Na sua visão, o que explica essa resistência do Congresso à pauta?

Azevedo – Simples: temos o Congresso Nacional do agro, do empresariado. O Congresso Nacional brasileiro, que deveria ser a Casa do Povo, não é a Casa do Povo, é a casa do agro, dos empresários, dos lobistas, dos escravocratas, netos e parentes de donos de escravos estão lá dentro.

BBC News Brasil – Mas como vencer essa resistência? Vocês precisam que todo esse pessoal vote a favor do que estão querendo…

Azevedo – E a gente conseguiu, de uma certa forma, porque PECs demoram anos para tramitar no Congresso Nacional. E a gente conseguiu, digamos que de uma forma muito rápida, expondo o rostinho de cada um. A gente vai continuar fazendo isso. Porque eles são lobistas, são escravocratas, mas precisam do voto do povo.

A votação vai acontecer neste semestre e a gente já está programando grandes atos e iremos expor o rosto de cada um que não quiser votar por livre e espontânea vontade. E aí, vão votar por livre e espontânea pressão.

Porque a gente precisa acabar com a escala 6×1. O Brasil precisa acabar com essa vergonha que ainda temos como modelo de trabalho, que vem diretamente da senzala. Falo isso em alto e bom som. A escala 6×1 vem diretamente da senzala, vem de um modelo de senhores de escravos que querem continuar explorando e escravizando o povo brasileiro.

BBC News Brasil – O governo tenta desde 2023 regulamentar o trabalho por aplicativo e segue enfrentando dificuldades neste início de ano, com críticas tanto das empresas, quanto dos trabalhadores ao projeto de lei em discussão na Câmara. Críticos veem uma certa dificuldade do atual governo do PT, forjado no sindicalismo tradicional, de dialogar com esses novos trabalhadores plataformizados. Vê essa dificuldade no atual governo?

Azevedo – Sim, tem uma dificuldade. O neoliberalismo nos últimos anos fez um trabalho bem incisivo com essa questão dos trabalhadores de aplicativos.

Porque temos esse modelo de escala de trabalho que ninguém aguenta mais, um salário, que muitas vezes não dá para comer, não dá para pagar aluguel. As pessoas estavam procurando uma saída, assim como eu lá atrás, revoltado no TikTok, também estava procurando uma saída.

Só que muitos trabalhadores, principalmente homens, estavam ali tentando essa saída e encontraram, por exemplo, o iFood, que vem com essa proposta neoliberal. “Você é o seu próprio patrão, você faz o seu próprio tempo, você faz o seu próprio dinheiro.” Com essa proposta, os aplicativos conseguiram conquistar uma grande massa de trabalhadores.

Trabalhadores de aplicativos na Avenida Paulista, em São Paulo

Rovena Rosa/Agência Brasil
Governo Lula ‘não teve um plano melhor para a classe trabalhadora. E é por isso que estamos perdendo muitos trabalhadores para o iFood e Uber’, diz Azevedo

BBC News Brasil – Mas por que acha que o governo tem dificuldade de dialogar com estas pessoas?

Azevedo – Porque não apresentou um plano melhor para a classe trabalhadora. É por isso que a gente está ajudando o governo. Estamos ajudando o governo com essa pauta, porque não pode acabar com a CLT.

Não teve um plano formal de trabalho melhor para a classe trabalhadora. E é por isso que estamos perdendo muitos trabalhadores para o iFood, Uber e outros aplicativos. Mas agora a gente está com essa discussão, justamente para manter a CLT.

A gente não pode deixar que acabe com a CLT, porque, na verdade, todo esse discurso que foi vendido e que muitos trabalhadores compraram, é um discurso que no final é para acabar com a CLT, é para não ter direitos, como, por exemplo, pejotização e MEI [Microeempreendedor Individual].

BBC News Brasil – O que me leva à nossa próxima pergunta: como avalia o movimento da geração Z de aversão à CLT?

Azevedo – Não é que a pessoa não gosta de um 13º [salário], de férias remuneradas, de direitos. É que os modelos de trabalho que estão na CLT são modelos de trabalho falidos.

Não tem como o jovem que está chegando agora gostar de trabalhar seis dias consecutivos, mais de 44 horas semanais, [se locomovendo] em um transporte público precarizado, para ganhar um salário mínimo e ainda falar “nossa, que legal, está ótimo”.

E aí, querem dizer que as novas gerações não gostam de trabalhar? São vagabundos? Não, não são.

Manifestantes seguram uma carteira de trabalho gigante durante protesto em São Paulo

Andes
‘Os modelos de trabalho que estão na CLT são modelos de trabalho falidos’, diz vereador

BBC News Brasil – Na eleição de 2024, você recebeu a menor verba de campanha, mas foi o candidato mais votado entre os eleitos a vereador pelo PSOL no Rio. Você acha que os partidos erram ao apostar mais na reeleição e em candidatos conhecidos do que em novos nomes na política?

Azevedo – Na verdade, os partidos — muitos deles — ficaram para trás, não estão atualizados. Acho que estão errando quando não dão voz para algumas pessoas que estão aí, que estão brigando, que estão fazendo um bom trabalho. Não para tomar o espaço, não para apagar a história de ninguém, mas para ter novas histórias, novos espaços, novas lutas, com caras novas.

BBC News Brasil – Parte do seu sucesso eleitoral se deveu aos seus vídeos que viralizaram no TikTok, algo comum entre muitos candidatos eleitos pela direita nos últimos anos. A esquerda está atrasada com relação à direita no uso das redes sociais?

Azevedo – Não diria exatamente atrasada. Diria que a esquerda ainda está entendendo a dinâmica das redes sociais.

A questão da direita é porque a mentira é mais fácil de vender, e eles não têm responsabilidade com o que vão postar, se aquela informação vai ser prejudicial para a vida do trabalhador ou não.

Já a esquerda tem essa responsabilidade. Então, por ter essa responsabilidade, a esquerda está entendendo a dinâmica, está entendendo para onde realmente tem que direcionar as questões importantes.

No ano passado, tivemos um avanço muito bom da esquerda nas redes sociais, como, por exemplo, na PEC da blindagem [aprovada pela Câmara em 2025 e depois rejeitada pelo Senado, que limitava a prisão de parlamentares], que conseguimos realmente mobilizar em pouco tempo muitas pessoas por todo o Brasil.

Ali foi um movimento da esquerda, foi onde a esquerda conseguiu se organizar, e acho que tem um caminho muito bom pela frente.

Rick Azevedo em vídeo que viralizou no TikTok, postado em 13 de setembro de 2023

Reprodução TikTok
‘Estou querendo saber quando nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1?’, questionava Rick Azevedo, em vídeo que viralizou no TikTok, postado em 13 de setembro de 2023

BBC News Brasil – Sua eleição levou alguns setores a questionarem a questão das pautas ditas “identitárias” na esquerda, como gênero, direitos LGBT e raça, celebrando o sucesso de um candidato ligado a uma pauta trabalhista e econômica. Como você vê esse debate dentro do campo da esquerda? Há realmente uma oposição entre esses temas?

Azevedo – Não vejo como uma oposição. As pessoas esquecem que esses “identitários”, como eles falam, são trabalhadores. Que podem lutar pelos direitos da classe trabalhadora, mas também têm pautas específicas, que não deixam de ser importantes. Pautas raciais, LGBTs, dentre outras que são necessárias.

Esse discurso que eles jogam para a esquerda é justamente para tentar fazer uma desunião. O que eles não esperavam é que os “identitários” e a classe trabalhadora inteira iriam se unir para colocar eles contra a parede. Eu acho que a surpresa foi essa. A surpresa de todos foi ver um homem gay preto, uma mulher trans preta [Erika Hilton] lá em Brasília, comandando uma proposta de emenda à Constituição.

A proposta trabalhista mais importante deste século. Porque normalmente esses empregos, com escala 6×1 e salário mínimo, é o que resta para grupos vulneráveis.

BBC News Brasil – Quais são as suas ambições políticas daqui para a frente, pretende concluir o mandato de vereador ou deve sair para deputado federal?

Azevedo – Por ora, eu ainda não tenho uma resposta concreta. Estou trabalhando muito enquanto vereador. Trabalhei muito no ano passado, continuo trabalhando muito e tenho uma articulação incisiva com a Erika lá em Brasília, relacionada à pauta [do fim da escala 6×1], que, sim, é uma pauta federal.

Aqui na Câmara Municipal [do Rio de Janeiro], eu não consigo desenvolver ela, mas tenho essa parceria lá em Brasília e, por ora, eu não consigo ainda te dizer se eu vou ser candidato a deputado federal ou não.

BBC News Brasil – Mas é um desejo seu? Pensa nisso como uma possibilidade?

Azevedo – Existe a possibilidade, existe um caminho. Mas, de fato, por ora, eu ainda não estou com uma resposta firme e concreta para te passar.

BBC News Brasil – Até quando você pretende tomar essa decisão?

Azevedo – Eu acredito que logo. Até o fim desse semestre, vou decidir se sim ou não.

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