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Mãe de menina celíaca viraliza após discutir com escola por alimentação da filha

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
29/04/2025
in Sociedade
Reading Time: 7 mins read
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Nas últimas semanas, um caso inusitado ganhou repercussão nas redes sociais e foi apelidado pelos internautas de “CPI do bolo de cenoura”. Em uma série de vídeos, Tayrine Novak, de 33 anos, moradora de Araucária (PR), revelou estar sofrendo represálias da Educação depois que a filha dela, Thaylla Novak, de 9 anos e diagnosticada com doença celíaca em grau grave, levou um bolo de cenoura sem glúten para a escola.

Tayrine prepara diariamente as refeições e lanches da filha, com o objetivo de evitar contaminação cruzada — algo extremamente perigoso para quem tem a condição de Thaylla. O problema começou quando um colega de classe de Thaylla perguntou à mãe por que ele não podia levar bolo de cenoura também. A mãe da criança procurou a direção da escola, que orientou a abertura de uma ouvidoria. A partir daí, a situação ganhou outras proporções.

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Em uma série de vídeos publicados nas redes sociais, Tayrine mostra que teve com representantes da escola e da secretaria de educação do estado em uma reunião.

Nos vídeos que viralizaram, Tayrine aparece visivelmente constrangida ao mostrar o que prepara para a filha. Durante as reuniões, com a escola e com a Secretaria de Educação a mãe relata que para o colégio estava tudo bem com o fato de mandar legumes e alimentos saudáveis. Mas a reação foi diferente quando ela mandou o bolo de cenoura. E por isso, ela ironizou no vídeo colocando o seguinte texto:  “Agora entendi. O legume até posso mandar, mas o bolo não, porque criança só gosta de doce”, declarou.

 

 

Ao Correio, Tayrine conta que desde abril de 2024, ela é a única responsável pela alimentação da filha. “A escola nunca deixou a gente alimentar ela, porque o município oferece a alimentação sem glúten. Só que é preparada na mesma cozinha dos outros alunos, então acaba havendo contaminação cruzada. E a gente mostrou, com exames de sangue dela, que isso estava acontecendo”, afirma.

Ela diz que, mesmo comunicando à escola sobre a condição da filha, passou a ser questionada por não seguir o cardápio escolar à risca. “O cardápio é diferenciado dos celíacos para as crianças comuns. E mesmo que no cardápio da escola fale que hoje é banana, você chega na escola, não é banana. Acabam mandando outra fruta. Eu sempre bato nessa tecla, que eu não conseguiria mandar o cardápio igual porque até a prefeitura não consegue mandar o cardápio igual”, relata.

A escola, em resposta, sugeriu a curto prazo que caso tenha dificuldade em encaixar as opções de cardápio de acordo com a da escola, Thaylla não almoce na escola. Ou seja, que a mãe deveria buscá-la no horário de almoço e depois levá-la de volta para instituição de ensino. No vídeo, é possível ouvir a diretora falando:  “É possível que sua filha não almoce na escola?”

O que diz a prefeitura sobre o caso de Thaylla e o bolo de cenoura 

Em nota, divulgada nas redes sociais da prefeitura de Araucária no dia 24 de abril, a prefeitura afirma que a reclamação surgiu de outra mãe “que relatou que seu filho ficou com vontade de comer bolo de cenoura com cobertura de chocolate levado pela aluna celíaca no dia em que a escola serviu canjica de sobremesa”. Além disso, também acrescentou as opções que são dadas para a alimentação de crianças celíacas: consumir os alimentos disponibilizados pela escola, a permissão de levar os alimentos de casa, de preferência semelhantes, conforme previsto em lei e também, a unidade escolar fornecer os ingredientes para preparo doméstico. 

Tayrine alega não ter recebido a opção de buscar os alimentos na escola para prepará-los em casa. “Nunca me ofereceram isso. Desde o começo, falei que não queria mais alimentar minha filha porque ela estava tendo contaminação cruzada. Mostrei os exames. Eles nem quiseram ver. Falaram: ‘A gente confia na sua palavra’. Agora dizem que me ofereceram algo que nunca aconteceu. Isso é inverídico, é mentira .”

A mãe se baseia na Lei estadual nº 4.513, de 26 de dezembro de 2024, que assegura o direito de estudantes com doença celíaca, mediante laudo médico, levarem seus próprios alimentos para as instituições de ensino públicas ou privadas de Araucária, respeitando as restrições alimentares e a disponibilidade familiar.

Luta antiga 

O ponto de ruptura para Tayrine foi quando, em 2023, foi convocada para uma reunião com o Ministério Público, a Secretaria de Educação e a Secretaria de Alimentação do município. Segundo ela, o motivo era o fato de não estar fornecendo uma alimentação “idêntica” à da escola. Tudo começou porque a filha levou carne assada picada em sua lancheira. Segundo Tayrine, a levaram ao MP porque disseram que ela queria aliemntar a filha com churrasco. 

“Então, a partir desse momento que eu vi que eles estavam mentindo, não era só as represálias. Houve ali uma mentira. Então falei que na próxima reunião que estivesse todo mundo, eu iria gravar sim, para ver o que que eu ia fazer, porque a gravação ia ser a única forma de eu provar o que eu falo e provar o que eles falam”, relata. 

O que o Ministério Público do Paraná diz

Em nota, o Ministério Público do Paraná afirma que em 2024 foi notificado sobre um impasse envolvendo a oferta de merenda escolar na rede pública municipal de Araucária, especificamente no que se refere à entrega de lanches adequados para crianças com intolerância ao glúten. 

Diante disso, foi instaurada um acompanhamento do caso e por isso, em 20 de setembro do mesmo ano, foi realizada uma reunião com a participação da mãe da criança, de representantes do Conselho de Alimentação Escolar e a própria promotoria. “Na ocasião, o Conselho esclareceu que fornece merenda especial para alunos com intolerância sem o registro de intercorrências. A mãe da criança ressaltou, porém, que esse não era o caso de sua filha, que sofria com a chamada contaminação cruzada. Por esse motivo, a criança estava levando lanche de casa, que fugia do estabelecido pelo cardápio escolar e estava sendo alvo de reclamações de outras famílias.”

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Ainda segundo a nota, ficou acordado que a mãe procuraria enviar alimentos o mais próximo possível do fornecido pela municipalidade (que seria previamente informado à família). Da parte do MPPR, foi destacado também a necessidade de que a escola e a família mantenham um canal de diálogo aberto para solucionar as questões que possam surgir no dia a dia. O Correio questionou se houve novas reclamações registradas em 2025 e a promotoria informou que não. 

Tayrine afirma estar lutando há quase dois anos pelo mesmo direito, sem ser ouvida. “Me sinto de mãos atadas. É absurdo. Uma mãe está lutando pela saúde da filha e, em vez de apoio, enfrenta represálias”, desabafa. Para ela, o problema está longe de ser uma escolha. “A doença celíaca não é uma opção. Tem gente que faz dieta sem glúten para desinchar, mas o celíaco não tem essa escolha. Se ele se contamina com glúten, pode ter consequências graves, até mesmo risco de morte. Não é frescura.”

Ação judicial

Diante de toda essa situação, Tayrine entrou com ação judicial visando a responsabilização dos envolvidos e a garantia do cumprimento da legislação e indenização. Também foi feito um pedido de abertura de procedimentos disciplinares e análise de eventual de improbidade administrativa.

Os advogados que representam Tayrine, Eduardo Cardoso e Daniel J. Kaefer, ressaltam que a conduta da escola e da secretaria configuram claras violações contra a Constituição Federal. “Fere o princípio da dignidade da pessoa humana, o direito à integridade física e psíquica da criança, o dever de proteção integral à infância, o direito à saúde e à alimentação adequada e segura e a vedação de discriminação institucional e de práticas vexatórias ou constrangedoras”, conta Eduardo. 

Além disso, Eduardo Cardoso reforça que a legislação local é clara ao garantir o direito de levar alimentação própria. “A secretaria deveria buscar compatibilizar os interesses do poder público com os da criança. Quando não se garante uma alimentação segura, compromete-se o próprio direito à educação”, afirma o advogado.

Tayrine conta que existem ao menos 14 crianças celíacas em Araucária. Desde que começou a falar abertamente sobre o caso, tem recebido mensagens de apoio. “É incrível e absurdo o número de histórias que tenho lido nas redes sociais. Mães que passam pelo mesmo, ou até pior, nas escolas onde os filhos estudam, sejam públicas ou privadas”, finaliza. 

 

Amanda S. Feitoza

Jornalista formada pela UnB, com passagens pela Secretaria de Segurança Pública do DF, pelo Instituto Federal de Brasília (IFB) e pela Máquina CW. Entusiasta nas áreas de cultura, educação e redes sociais, integra a equipe do CB-Online.

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