Em praticamente todo mandato presidencial recente, um mesmo roteiro se repete: um presidente levanta a Bíblia, promete honrar “Deus, Pátria e Família”, cerca-se de pastores e padres, e promove leis, homenagens e verbas para agradar o eleitorado religioso. Aconteceu com Jair Bolsonaro. Está acontecendo com Lula. E, invariavelmente, os bastidores dessa aproximação terminam em escândalo. Este artigo investiga os dois lados dessa moeda — o carinho institucional e a corrupção que muitas vezes o acompanha — e pergunta: até que ponto a fé pode ser usada como instrumento de poder antes de se tornar, ela mesma, uma ameaça à liberdade que diz defender?
O evangelho segundo o Planalto: a era Bolsonaro (2019–2022)
Jair Bolsonaro construiu boa parte de sua base eleitoral sobre o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e sobre a frase que ficaria marcada em sua gestão: “O Estado é laico, mas nós somos cristãos. […] Nós somos terrivelmente cristãos”, dita ao lado da então ministra Damares Alves durante um culto da Bancada Evangélica no Congresso, em 2019.
Essa aproximação não ficou só no discurso. O governo promoveu uma ocupação inédita de evangélicos em cargos do Executivo federal, indicou o “terrivelmente evangélico” André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal — cumprindo uma promessa de campanha feita justamente para agradar pastores conservadores — e chegou a defender publicamente que a presidência da Ancine (Agência Nacional do Cinema) fosse ocupada por alguém capaz de recitar de cor 200 versículos bíblicos. A retórica oficial também adotou um tom de cruzada: um “nós contra eles”, “o bem contra o mal”, no qual pautas de costumes e uma suposta guerra cultural contra a esquerda se confundiam com defesa da fé cristã.
O escândalo que derrubou um ministro
Foi justamente nessa proximidade entre púlpito e gabinete que floresceu um dos maiores escândalos religiosos da recente história política brasileira: o chamado “MEC dos pastores”. Em 2022, reportagens revelaram que os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, sem ocupar qualquer cargo público, tinham acesso irrestrito à agenda do então ministro da Educação, Milton Ribeiro — ele próprio pastor presbiteriano —, e intermediavam a liberação de verbas do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) para prefeituras, mediante pagamento de propina que variava entre R$ 15 mil e R$ 40 mil por liberação.
Um áudio vazado revelou Milton Ribeiro afirmando que dava prioridade a essas liberações “a pedido do presidente”, para atender municípios ligados aos dois pastores. O caso resultou na saída do ministro, em investigações da Polícia Federal e do STF, e, anos depois, nas prisões preventivas de Ribeiro e dos dois religiosos na operação “Acesso Pago”. Documentos internos do próprio ministério comprovaram que os pastores tinham status equivalente ao de autoridades, participando de reuniões oficiais e até compondo mesas diretoras ao lado do ministro.
Ainda no fim do mandato, Bolsonaro editou um Ato Declaratório Interpretativo isentando pastores do pagamento de contribuição previdenciária sobre a “prebenda” — o salário pago pelas igrejas a seus líderes —, medida tomada poucos meses antes da eleição de 2022 e que seria alvo de investigação do Tribunal de Contas da União.
O evangelho segundo o Planalto: a era Lula (2023–atual)
Ao assumir o terceiro mandato, Lula herdou um eleitorado evangélico majoritariamente hostil — e passou a investir de forma explícita em reconquistá-lo. O movimento é público e assumido pelo próprio governo. Entre os gestos institucionais mais simbólicos estão a sanção do Dia Nacional da Música Gospel (2024) e a instituição de uma data nacional em homenagem aos pastores evangélicos, ambas assinadas por Lula em cerimônias no Palácio do Planalto ao lado de lideranças religiosas — muitas delas ex-apoiadoras de Bolsonaro.
O governo também estruturou uma ofensiva de aproximação mais ampla: o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social firmou protocolos de intenção com a Igreja Católica e com lideranças evangélicas para divulgar programas sociais como o Acredita, e o ministro Wellington Dias chegou a se reunir com 600 líderes evangélicos no Rio de Janeiro para apresentar esses projetos. Paralelamente, o Advogado-Geral da União, Jorge Messias, tornou-se o principal interlocutor do governo junto aos evangélicos, representando Lula em edições da Marcha para Jesus.
Do ponto de vista orçamentário, levantamentos identificaram ao menos sete convênios firmados entre 2023 e 2025 pelos Ministérios do Turismo e da Cultura para custear Marchas para Jesus e festivais gospel em diferentes municípios, com valores que variam de R$ 220 mil a quase R$ 1 milhão por pacote de eventos.
A controvérsia da “perseguição” às igrejas
Se por um lado Lula cortejou pastores, por outro protagonizou o que a bancada evangélica classificou como um retrocesso: em janeiro de 2024, a Receita Federal — sob o Ministério da Fazenda — suspendeu a isenção previdenciária sobre a prebenda dos pastores que havia sido concedida por Bolsonaro em 2022, alegando irregularidades no uso do mecanismo por igrejas para driblar fiscalização. Parlamentares evangélicos chamaram a decisão de “perseguição religiosa” e “dose do veneno do PT contra religiosos”, enquanto o governo argumentou que apenas restabelecia a legalidade tributária.
O episódio ilustra um padrão que se repete nos dois governos: decisões fiscais e administrativas relacionadas a igrejas raramente são tratadas como questões técnicas neutras — tornam-se, quase sempre, munição política dos dois lados.
Quando fé e poder se fundem: o espelho do autoritarismo religioso
A aproximação entre Estado e religião não é exclusividade brasileira, nem sempre é inofensiva. A história e a atualidade oferecem exemplos extremos do que acontece quando um governo deixa de apenas cortejar religiosos e passa a governar em nome de Deus.
Irã é o caso mais emblemático: desde a Revolução Islâmica de 1979, o país é governado por um “Guia Supremo” que concentra poder político e religioso, supervisionando o Judiciário, as Forças Armadas e até quem pode ou não se candidatar a cargos eletivos, sob a justificativa de que a lei islâmica está acima da vontade popular. Mulheres, minorias religiosas e dissidentes convivem com restrições severas legitimadas em nome da fé.
Afeganistão, sob o regime talibã restabelecido em 2021, é outro exemplo contundente: a interpretação religiosa do grupo passou a ditar desde o vestuário obrigatório até a proibição de meninas frequentarem a escola após os 12 anos, com a religião funcionando como justificativa jurídica para o desmonte de direitos básicos.
Também vale mencionar a Arábia Saudita, onde a monarquia governa com base na lei islâmica wahabista, e regimes teocráticos históricos como a Espanha da Inquisição ou a Genebra de Calvino — todos casos em que a fusão entre autoridade religiosa e autoridade política resultou não em mais santidade, mas em mais controle sobre a vida das pessoas.
O ponto não é equiparar o Brasil a esses regimes — o país mantém um Judiciário independente, eleições livres e uma Constituição que garante a laicidade do Estado. Mas a lição histórica é clara: cada aliança entre um governante e uma bandeira religiosa, por menor que pareça, é um passo em uma estrada que, levada ao extremo, termina exatamente ali. O que começa como “defesa dos valores cristãos” ou “defesa da fé” pode, com tempo suficiente e ambição política suficiente, transformar-se em instrumento de controle social e supressão de liberdades — inclusive da liberdade religiosa que originalmente se dizia proteger.
O fanatismo político disfarçado de fé
Um dos efeitos menos discutidos dessa fusão entre política e religião é o comportamental. Pesquisadores que estudam o chamado “populismo religioso” no Brasil observam como discursos de líderes políticos passaram a ser incorporados ao vocabulário e à estética de parcelas do meio evangélico: bandeiras nacionais dentro de templos, hinos políticos entoados como se fossem hinos de fé, e pregações que confundem lealdade partidária com lealdade a Deus.
Esse fenômeno também se manifesta na moda e na identidade visual. Camisetas com a bandeira do Brasil estampadas ao lado de versículos bíblicos, o verde e amarelo incorporado a cultos e eventos gospel, bonés e acessórios que misturam símbolos patrióticos com frases de fé — um repertório que, para muitos fiéis, deixou de comunicar apenas devoção e passou a comunicar também posicionamento político. Pastores relatam perda de membros e cisões em congregações causadas por desavenças eleitorais, e famílias inteiras romperam relações por divergências que, poucos anos atrás, jamais atravessariam a porta da igreja.
O risco desse tipo de fusão é duplo: de um lado, esvazia a fé de seu conteúdo espiritual, reduzindo-a a adereço de campanha; de outro, transforma discordância política em heresia, criando comunidades religiosas menos tolerantes com a diversidade de pensamento entre seus próprios membros.
O que a Bíblia diz sobre políticos que usam o nome de Deus
Se há um lugar onde o cristão deveria buscar critério para discernir entre fé genuína e manipulação política, é justamente nas Escrituras — e elas são incomumente diretas no assunto.
Jesus, no Evangelho de Mateus, capítulo 23, não reserva suas críticas mais duras a ateus ou seguidores de outras religiões, mas aos líderes religiosos de seu próprio povo que usavam a aparência de piedade para obter poder e prestígio, comparando-os a sepulcros bonitos por fora e cheios de podridão por dentro. A crítica de Jesus não era à religião em si, mas ao uso da religião como fachada.
Em Mateus 7:15-20, o alerta é direto sobre reconhecer o falso pelo fruto, não pelo discurso: o texto adverte para tomar cuidado com falsos profetas que se apresentam mansos por fora, mas por dentro agem como predadores — e ensina que a forma de identificá-los é observando os frutos que produzem, não as palavras que pronunciam. A recomendação bíblica não é desconfiar de quem fala mal de Deus, mas justamente de quem fala bem demais, com fluência excessiva, sem que suas ações — políticas públicas, honestidade no trato do dinheiro público, respeito às instituições — sustentem o discurso.
Há ainda um paralelo antigo e revelador em 1 Samuel 8, quando o povo de Israel pede um rei “como todas as outras nações”. Deus adverte, por meio do profeta Samuel, que um rei terreno vai requisitar filhos para a guerra, tomar terras, impor tributos e, no fim, o próprio povo clamará contra o rei que escolheu — mas Deus não os ouvirá naquele dia, porque a escolha foi deles. O texto é lido por muitos teólogos como um aviso atemporal sobre os riscos de depositar em uma figura política uma expectativa de salvação que só pertenceria a Deus.
O denominador comum entre esses textos é simples e desconfortável: a Bíblia nunca disse que o povo de Deus deveria abster-se da vida pública — pelo contrário, orienta a orar pelas autoridades e buscar o bem da cidade (Jeremias 29:7). Mas ela também nunca disse que citar Deus, erguer a Bíblia ou frequentar cultos é prova de caráter. A prova, segundo o próprio texto sagrado, está nos frutos: na integridade com o dinheiro público, no respeito à verdade, na justiça para os mais vulneráveis — não na performance religiosa.
Discernimento antes de devoção política
Bolsonaro e Lula, apesar de posições ideológicas opostas, seguiram uma lógica semelhante ao lidar com a religião no Brasil: cortejar o eleitorado de fé com leis simbólicas, homenagens e projetos sociais — e, em paralelo, conviver com escândalos e controvérsias que expuseram o quanto essa proximidade pode ser usada para desviar dinheiro público, trocar favores ou acirrar disputas políticas dentro das próprias igrejas. Os nomes e os métodos mudam a cada governo, mas o padrão histórico é antigo: quando o poder político percebe o valor eleitoral da fé, ele tende a cortejá-la — e, ocasionalmente, a corrompê-la.
Para o eleitor cristão, o convite bíblico não é o de abandonar a política, mas o de exercer nela o mesmo discernimento que se espera de qualquer área da vida: avaliar frutos, não discursos; cobrar coerência, não apenas linguagem religiosa; e lembrar que nenhuma bandeira, nenhum hino e nenhuma citação bíblica substitui a responsabilidade de governar com justiça. A fé genuína não precisa de palanque para existir — mas o poder político, historicamente, sempre precisou da fé alheia para se sustentar.
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.