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Alta do dólar provoca incertezas em 2025

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
05/01/2025
no Economia
Tempo de leitura:6 minutos de leitura
14
A A
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Após um momento de intensa volatilidade, está praticamente impossível a conclusão da previsão de especialistas para o movimento do dólar em 2025. No último dia de operações do ano passado, o valor do câmbio fechou em R$ 6,18 — o que representa alta de 26% nos últimos 12 meses, além de ser a maior valorização anual desde 2020, ano em que o mercado global sofreu com os efeitos da pandemia de covid-19.

Apesar de ter sido um ano no qual a maior parte das divisas internacionais sofreram depreciação em relação ao dólar, o real foi uma das moedas que registraram a maior desvalorização ao longo de 2024. Em apenas um mês, os agentes do mercado aumentaram a projeção do câmbio para o ano que vem, de US$ 5,60 para US$ 5,96, segundo o último Boletim Focus de 2024, divulgado pelo Banco Central.

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Em levantamento realizado pela Elos Ayta Consultoria, a moeda brasileira teve o pior desempenho nesse período em relação à taxa de referência do dólar no mercado nacional, também chamado Dólar Ptax, na comparação com outras 26 moedas, com queda de 21,82% no valor final. Na venda de dólar comercial, o real registrou desvalorização de 19,15%, e só ficou acima do peso argentino e do rublo russo.

O Índice DXY, que mede a força do dólar ante seis grandes divisas do mundo, avançou 7,06% no ano passado e registrou a maior valorização anual desde 2015. No último trimestre, a moeda avançou 7,65% e atingiu em 31 de dezembro o patamar de 108.487 pontos.

O aumento do valor do dólar no último quarto do ano está diretamente associado à eleição do republicano Donald Trump, que defende uma moeda mais forte e registrou dados econômicos favoráveis em seu primeiro mandato à frente da Casa Branca, entre 2016 e 2020. Também pesou na balança a postura do Federal Reserve (Fed) — o Banco Central dos EUA — de indicar um ritmo mais lento na queda da taxa de juros no país, o que fortalece o dólar ante divisas emergentes, como o real.

O cenário interno também jogou contra o real no fim do ano. Com a deterioração das expectativas de inflação e da taxa de juros, o câmbio sentiu o peso da insatisfação do mercado com a condução da política fiscal em 2024. Após a eleição de Trump no início de novembro, a expectativa de um pacote de corte de gastos robusto cresceu entre os agentes do mercado. Apesar disso, as medidas anunciadas pelo governo no final do mês frustraram as expectativas do mercado.

Entre os pontos mais criticados estão a isenção de Imposto de Renda (IR) para pessoas físicas que recebem até R$ 5 mil. A medida era promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que solicitou à equipe econômica que estudasse alternativas para colocá-la em prática. Com a desidratação do pacote no Congresso Nacional, a estimativa de economia pelo Ministério da Fazenda para este ano e o próximo caiu de R$ 71,9 bilhões para R$ 69,8 bilhões. O mercado prevê uma redução de gastos ainda menor para os próximos dois anos. A nível de exemplo, a XP projeta uma economia de apenas R$ 44,3 bilhões.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, rebateu as críticas sobre o aumento do dólar no país. Segundo o chefe da pasta, o avanço da divisa norte-americana foi “forte no mundo todo”. “O câmbio não é fixo no Brasil. O dólar este ano de 2024 termina muito forte no mundo todo. Mas eu penso que as intervenções do Banco Central foram corretas”, disse a jornalistas.

Cenário fiscal

O real foi a sexta moeda que mais se desvalorizou em todo o mundo no ano passado. A divisa brasileira foi a que mais perdeu valor entre todos os países do G20 (grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo, União Europeia e União Africana), no mesmo ano em que o Brasil sediou a reunião do bloco, no Rio de Janeiro. Na avaliação do sócio e economista da G2W Investimentos Ciro Almeida, a situação fiscal no Brasil é o que mais tem pesado como principal fator para a desvalorização do real.

“O governo não tem demonstrado interesse em ter um equilíbrio fiscal. Existe uma política fiscal muito expansionista, o que acaba gerando mais inflação, mais risco, e mais risco aumenta os juros, como a gente tem visto a alta dos juros futuros nesses últimos dias, com todos os DIs (Depósito Interfinanceiro) futuros já em 15%. Então, a situação fiscal acaba trazendo um risco para a saúde, para a confiança e para a credibilidade do Brasil. Por conta disso, o investidor estrangeiro também prefere retirar dólares daqui e investir em mercados mais seguros”, avalia o especialista.

Em dezembro, após o dólar bater o valor recorde de R$ 6,28 no fechamento, o Banco Central promoveu uma série de intervenções com o objetivo de frear a valorização da divisa norte-americana no país. Por meio de leilões à vista – quando a autoridade monetária vende quantias de sua própria reserva -, swap cambial – que, em resumo, é a comercialização da moeda no mercado futuro – e outros métodos conhecidos, o BC conseguiu promover quedas pontuais na taxa de câmbio, mas não obteve sucesso em reduzir o valor da moeda norte-americana para abaixo de R$ 6.

“O efeito (das intervenções) é pontual, durante o período do leilão. Depois disso, o dólar volta a subir, porque a credibilidade hoje está bem sensível. Não existe hoje uma confiança de que o governo vai, de fato, ter uma preocupação fiscal”, avalia Almeida.

Além das intervenções pontuais, o Comitê de Política Monetária do BC promoveu uma elevação histórica na taxa de juros na última reunião presidida por Roberto Campos Neto, aumentando em um ponto percentual a Selic em apenas uma reunião, a 12,25% ao ano. Como se não bastasse isso, ainda sinalizou em comunicado divulgado logo após a decisão que deve haver dois novos aumentos da mesma taxa nas primeiras duas reuniões deste ano.

Especialistas divergem sobre o patamar que a moeda deve se estabelecer neste ano. Para o professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo, o dólar deve permanecer próximo a R$ 6 nos próximos meses, se não houver nenhuma grande intercorrência na conjuntura macro. O economista avalia que as transações comerciais podem jogar a favor do Brasil neste ano, com uma expectativa de aumento do valor obtido com as exportações.

“Provavelmente, ele deve voltar um pouco abaixo desses R$ 6, ficando por volta de R$ 5,80, R$ 5,70, porque o Brasil tem reservas da ordem de US$ 372 bilhões, ele tem uma balança comercial muito forte que produz superavits em torno de US$ 80 bilhões, estão previstos, inclusive, US$ 95 bilhões para o próximo ano”, ressalta.

Economia

O dólar acima de R$ 6 deve gerar um aumento da inflação a curto prazo em determinados produtos, como explica o economista-chefe da RC Consultores, Marcel Caparoz. “Você vai ter impacto, por exemplo, no preço do petróleo em real. Porque você tem a cotação em dólares e, agora, em real fica mais caro. Então, aos poucos, isso vai sendo repassado no preço final para o consumidor”, avalia.

Também devem sentir o peso de um dólar mais forte, os produtos eletroeletrônicos, os remédios e cosméticos, além das passagens aéreas, impulsionado por um aumento no preço da Querosene de Aviação (QAV).

O superintendente de Economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Mário Sérgio Telles, afirma que, na avaliação da entidade, o dólar acima de R$ 6 não deve ser o novo patamar da taxa de câmbio. A projeção da CNI para dezembro de 2025 é de um câmbio em torno de R$ 5,60. “Com a aprovação do pacote fiscal, nós entendemos que essas preocupações fiscais vão se reduzir e, com isso, o dólar vai entrar em um processo de desvalorização ante o real e esse nível acima de R$ 6 não deve se manter”, diz.

Mesmo com os juros em alta e diante do cenário recente de desvalorização cambial, a CNI acredita em um avanço do crescimento econômico neste ano, com crescimento do PIB de 2,4% em relação a 2024. Segundo o representante da entidade, isso deve acontecer porque, apesar da alta dos juros, com o aumento da ocupação no mercado de trabalho. A confederação projetou um crescimento de 3,3% da massa de crescimento real neste ano.

 

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