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Dar dinheiro não resolve: cidades pagam até US$ 15 mil para quem se mudar, mas ainda falta morador

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
20/09/2026
in Mundo
Reading Time: 9 mins read
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No condado de Lincoln, Kansas, Kelly Gourley implementou em 2023 um programa para atrair trabalhadores remotos, oferecendo incentivos financeiros. A iniciativa, que inicialmente atraiu cinco pessoas, enfrenta desafios devido à falta de infraestrutura e empregos locais. Programas semelhantes nos EUA buscam revitalizar áreas rurais, mas enfrentam obstáculos como a falta de moradias e a competição por novos moradores. Gourley acredita que além do dinheiro, a integração comunitária é crucial para o sucesso do programa.

Depois de anos tentando reverter a queda da população do condado de Lincoln, no Estado norte-americano do Kansas, Kelly Gourley decidiu experimentar algo diferente. Uma fundação local estava distribuindo recursos para que os condados oferecessem incentivos à mudança de novos moradores — não para empresas, alvo tradicional desse tipo de ação, mas para trabalhadores.

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Gourley, diretora de desenvolvimento econômico local, colocou o programa em funcionamento em 2023. No primeiro ano, conseguiu atrair cinco pessoas: todas trabalhavam remotamente, algumas acompanhadas dos filhos. Parecia uma vitória e, talvez, o começo de algo capaz de devolver à região um pouco da vitalidade que os moradores mais antigos lembravam de décadas atrás.

“Por que concentrar todos os nossos esforços nas empresas se podemos simplesmente recrutar pessoas, buscar famílias?”, disse Gourley. “Elas vão trazer o emprego junto, o que significa renda vinda de outros lugares entrando no nosso condado.”

Pela primeira vez em muito tempo, o cenário está a seu favor. A pandemia de covid-19 mudou a disposição das pessoas sobre onde morar e desvinculou parte dos trabalhadores de escritório das sedes de suas empresas, enquanto o alto custo da moradia afastou moradores das grandes cidades.

Nos últimos cinco anos, condados rurais dos Estados Unidos voltaram a ganhar população depois de décadas de perdas, mostram dados do Census Bureau, o órgão de estatísticas do país.

Mas os esforços de Gourley para atrair moradores perderam força. No último ano, apenas uma pessoa se qualificou para um novo incentivo oferecido pelo Estado. E três dos trabalhadores remotos que ela havia recebido foram embora. “Assim como vêm fácil, vão fácil”, disse.

Incentivos, por si só, normalmente não mudam a trajetória de uma cidade. Dinheiro não resolve os problemas fundamentais que, em primeiro lugar, esvaziam áreas rurais: falta de empregos bem remunerados, moradias adequadas e serviços e opções de lazer.

Os incentivos mais recentes, porém, refletem o desejo de pequenas cidades de manter os moradores que as sustentam e atrair mais gente, em um momento em que fatores demográficos tornam o crescimento cada vez mais difícil. Quando acompanhados de investimentos na qualidade de vida local, esses programas sinalizam que a população quer mais vizinhos, na esperança de criar um ciclo de crescimento que se retroalimente.

“As comunidades estão começando a prestar atenção e a dizer: ‘Nossa, esse é um mercado competitivo’”, afirmou James Hoelscher, especialista em desenvolvimento econômico rural da University of Northern Iowa. “Para sermos competitivos, teremos de nos empenhar e fazer as coisas de maneira um pouco diferente do que fazíamos no passado.”

Um mercado por novos moradores

Os incentivos à mudança de residência surgiram na década de 2010 e, em geral, não em áreas rurais — nem necessariamente em lugares que perdiam população. Eram cidades menores tentando se recuperar da Grande Recessão e conquistar uma fatia do boom de startups que havia enriquecido grandes centros urbanos nas costas dos Estados Unidos na década anterior.

O Tulsa Remote, programa financiado por filantropia que começou em 2018 a oferecer US$ 10 mil a trabalhadores com empregos remotos, já atraiu 4 mil pessoas para a cidade. Estudos apontaram um retorno elevado sobre o investimento, estimulando iniciativas semelhantes.

Depois da pandemia, ex-executivos do site de recomendações de prestadores de serviços Angi viram uma oportunidade de ampliar esses programas para atender trabalhadores de escritório que haviam ganhado mais mobilidade. Eles criaram a MakeMyMove, uma plataforma nos moldes do Airbnb que conecta pessoas interessadas em se mudar a comunidades em busca de novos moradores — e perceberam quanto as administrações locais estavam dispostas a pagar.

A empresa estima que 1.500 pessoas se mudarão neste ano por meio da plataforma. É muito pouco diante dos cerca de 7,5 milhões de norte-americanos que trocaram de Estado em 2023. Mas Evan Hock, um dos fundadores, disse que o objetivo é aumentar a visibilidade de cidades que talvez nunca entrassem no radar de alguém procurando um novo lugar para viver, além de ajudar a superar o obstáculo financeiro de uma mudança.

A MakeMyMove conseguiu convencer alguns governos estaduais a financiar esses incentivos. Indiana destinou mais de US$ 7,8 milhões, e Wisconsin aprovou US$ 5 milhões.

Em alguns lugares, porém, a disposição para continuar já se esgotou. O Legislativo de Vermont encerrou em 2023 sua experiência de cinco anos com incentivos à mudança. Randy Maiers, CEO de uma fundação comunitária no condado de St. Clair, em Michigan, começou a conceder benefícios em 2016, mas desde então reduziu o programa.

“Você não consegue mudar significativamente a população com esse programa”, disse Maiers. Em vez de pagar para que as pessoas se mudem, ele passou a trabalhar na criação de espaços públicos que estimulem a convivência. “Coloque seu dinheiro em um lugar onde as pessoas queiram viver — é aí que estamos vendo mudança de verdade”, afirmou.

Algumas regiões concluíram que nem sequer precisavam de incentivos. O noroeste do Arkansas, que em 2020 começou a oferecer US$ 10 mil e uma bicicleta gratuita, encerrou o programa porque os gigantes empregadores da região — Walmart, Tyson Foods e J.B. Hunt, empresa de transporte rodoviário — já atraíam milhares de trabalhadores por conta própria.

Topeka, no Kansas, manteve o seu programa, iniciado em 2019 e financiado por um imposto local sobre vendas. A cidade não estava perdendo população, como áreas rurais mais a oeste, mas havia estagnado. Desde então, distribuiu 229 cheques de US$ 5 mil a US$ 15 mil para pessoas nascidas em Topeka que voltaram à cidade e também como benefício para funcionários que se mudam para o condado.

Cody Foster, fundador da Advisors Excel, de Topeka, empresa que oferece marketing e outros serviços para profissionais de gestão de patrimônio, usou o programa para levar à cidade funcionários que antes faziam diariamente o trajeto desde Kansas City. Para quem recrutou de outros lugares, conta ele, “é uma espécie de cereja do bolo”.

O dinheiro não foi decisivo para Kaustav Ghose, que deixou um cargo operacional na área de gestão de patrimônio no norte da Virgínia para assumir uma posição mais bem remunerada e com mais responsabilidades na Advisors Excel. “Para mim, os US$ 10 mil foram um incentivo extra, mas eu vim mesmo pela oportunidade”, afirmou.

Dinheiro não basta para atrair novos moradores

Comunidades que oferecem dinheiro a possíveis moradores precisam aceitar que não há como saber se os beneficiários teriam se mudado para lá de qualquer maneira. Uma forma de contornar o problema consiste em oferecer incentivos que também produzam um benefício concreto para os demais moradores.

Em Iowa, a cidade de Newton paga US$ 10 mil a qualquer pessoa que compre uma casa nova avaliada em mais de US$ 240 mil. Autoridades municipais atribuem ao programa o estímulo à construção de imóveis depois de um longo período de baixa atividade, embora metade dos 132 beneficiários até agora já morasse na cidade.

Depois de estudar o histórico dos incentivos à mudança, Detroit lançou na primavera um programa de US$ 500 mil, com o objetivo de conceder 313 benefícios. Assim como em Newton, o dinheiro de Detroit está disponível tanto para moradores atuais quanto para recém-chegados.

Hilary Doe, que dirige o MoveDetroit, disse que os benefícios foram direcionar a finalidades como imóveis residenciais e negócios que também gerassem ganhos para a cidade, em vez de simplesmente colocar dinheiro no bolso das pessoas. “Você pode garantir que os incentivos sejam direcionados a coisas que produzam impacto de qualquer forma”, disse.

A questão do ovo e da galinha

Muitos condados rurais do Kansas encolhem desde a década de 1970, quando a produção de petróleo e gás atingiu o auge e a mecanização eliminou empregos no campo. Para as gerações que presenciaram essa mudança, ter sucesso passou a significar ir embora.

O pai de Malorie Elliott deixou o condado de Lincoln na década de 1980 e foi para o Texas. Ela própria começou a carreira como enfermeira em Midland. Elliott queria voltar para as terras da família em Lincoln, mas a avó insistia que não havia oportunidades na zona rural do Kansas.

A pandemia mudou o cenário. O marido de Elliott podia trabalhar remotamente em seu emprego no setor de serviços de petróleo e gás. Com a ajuda de um benefício de US$ 5 mil, a família voltou para o Kansas e começou a construir uma casa nas terras da família.

No ano passado, o Estado reservou US$ 3 milhões para incentivos à mudança ao longo de dois anos e distribuiu os recursos entre 12 administrações locais. Algumas tiveram bons resultados: a cidade de Ottawa, com quase 13 mil habitantes, disse estar perto de atingir a meta de atrair dez famílias. Salina, cuja rua principal foi revitalizada e hoje reúne cafés e restaurantes, está adiantada em seu plano de atrair 20 famílias em dois anos.

Várias localidades menores, entretanto, não conseguiram distribuir todo o dinheiro disponível para os incentivos, agora que o prazo do primeiro ano está se aproximando. A concorrência é forte e os critérios são mais difíceis de cumprir do que em outros programas, sobretudo a exigência de salário mínimo anual de US$ 55 mil, valor que nem professores de escolas de áreas rurais ganham.

Outro obstáculo diz respeito à moradia. Ottawa ofereceu terrenos gratuitos para quem quisesse construir uma casa, mas não encontrou interessados. Recursos estaduais financiaram a construção de quatro residências nesses lotes, que foram rapidamente compradas por pessoas que já moravam no Kansas.

Neodesha, cidade de cerca de 2.500 habitantes a leste de Wichita, ainda não conseguiu conceder nenhum incentivo. Chris Bauman, diretor de desenvolvimento comunitário local, disse que a falta de apartamentos impediu a mudança de pessoas interessadas que chegaram a procurar o programa de lugares tão distantes quanto Nova York.

“Para convencer alguém a se mudar de tão longe, será que essa pessoa quer logo fazer o investimento de comprar uma casa?”, disse Bauman. “Não. Ela quer testar como é viver aqui. E ficou claro que realmente precisávamos de imóveis para aluguel para permitir a entrada e a saída de novos moradores da comunidade.”

Lugares como Neodesha devem enfrentar anos mais difíceis pela frente. Uma forte redução da imigração sob o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, significará menos pessoas disponíveis para serem atraídas no futuro.

Embora pequenas cidades tenham mais sucesso em trazer de volta pessoas que cresceram ali e saíram para estudar ou trabalhar, esses chamados “migrantes de retorno” representam apenas uma pequena parcela da população, segundo análise do Federal Reserve (Fed) de Cleveland, braço regional do banco central do país.

Além disso, os norte-americanos estão se mudando menos do que no passado, mesmo depois do aumento da mobilidade provocado pela pandemia. “A tendência de longo prazo de uma desaceleração acentuada no ritmo com que os norte-americanos se mudam continua valendo”, afirmou Kenan Fikri, pesquisador sênior do Economic Innovation Group. “Isso significa apenas que as comunidades ficam mais à mercê de tendências demográficas e populacionais mais amplas.”

Gourley, do início da reportagem, conhece os obstáculos. Ainda assim, acredita que o condado de Lincoln não tem alternativa a não ser recrutar pessoas interessadas no que a região pode oferecer: uma comunidade unida e grandes espaços abertos. “Estamos competindo com o mundo inteiro”, contou.

Além do dinheiro, o programa de Gourley na MakeMyMove oferecia ovos frescos de fazenda durante um ano e voluntários — normalmente integrantes do time local de futebol americano — para descarregar os caminhões de mudança. Ela ajuda os novos moradores a fazer amizades e a encontrar formas de participar de organizações locais, de modo a integrá-los à comunidade.

“Acho que o incentivo em dinheiro é a isca”, disse Gourley. “Chama a atenção das pessoas, mas provavelmente é o que acontece depois que mais importa.”

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