Uma investigação sobre o vício que esvazia contas, quebra famílias, invade empresas e chegou até o altar das igrejas — enquanto governo, clubes, jogadores e influenciadores lucram bilhões com a aposta
O país que virou cassino de bolso
Em menos de três anos, o Brasil deixou de ser apenas o país do futebol para se tornar, também, o país da aposta. Não é exagero retórico: são cerca de 40 milhões de brasileiros apostando em plataformas digitais nos últimos 12 meses, um contingente que se aproxima da população inteira da Argentina. O aplicativo que promete “dinheiro fácil” está no bolso do motorista de aplicativo, na tela do adolescente, no intervalo do expediente do bancário, na sacristia do fiel evangélico e no camarote do estádio. As bets — plataformas de apostas esportivas e de cassino online regulamentadas pela Lei nº 14.790/2023 — deixaram de ser um nicho de entretenimento para se tornar, segundo especialistas ouvidos por esta reportagem e por dezenas de estudos recentes, um fator macroeconômico e um problema de saúde pública.
Esta matéria reconstrói, com base em levantamentos de entidades como Serasa, CNC (Confederação Nacional do Comércio), FIA Business School/Ibevar, LENAD III (UNIFESP), IEPS, Ministério da Saúde, INSS e reportagens de veículos como Poder360, Meio&Mensagem e Agência Pública, o mapa completo desse fenômeno: o rombo nos orçamentos domésticos, a invasão do ambiente de trabalho, a chegada às igrejas, os casos de sofrimento psíquico e suicídio, e — do outro lado da mesa — os bilhões que o governo arrecada em impostos e os cachês milionários que clubes, jogadores e influenciadores embolsam para vender a aposta como estilo de vida.
1. A ferida nas famílias: o novo motor do endividamento brasileiro
Por décadas, juros altos e cartão de crédito foram os grandes vilões do endividamento das famílias brasileiras. Isso mudou. Um estudo que analisou dados de 2011 a 2025, usando modelos estatísticos para medir o peso de diferentes variáveis no orçamento doméstico, chegou a uma conclusão que reordena o debate econômico do país: o coeficiente associado ao gasto com apostas atingiu 0,2255 — muito acima do impacto dos juros ao consumidor (0,0709) e do volume de crédito sobre a renda (0,0440). Ou seja, hoje, apostar pesa mais no bolso das famílias do que o próprio crédito caro que sempre foi apontado como a causa clássica do endividamento no Brasil.
Os números da inadimplência confirmam o diagnóstico. Em fevereiro de 2026, o país bateu a marca de 81,7 milhões de CPFs negativados, segundo a Serasa. Uma pesquisa da própria Serasa mostrou que 44% dos endividados no Brasil já apostaram com a esperança de quitar suas dívidas — um ciclo perverso que só gera mais débito e mais corte no orçamento doméstico. Para o educador financeiro Ricardo Hiraki, CEO da Plano Fintech, o país “vive um momento preocupante” em que o endividamento não decorre apenas de crédito caro ou inflação, mas de uma mudança de comportamento financeiro impulsionada pelo vício em apostas online, hoje tratado por especialistas como problema de saúde pública.
Um levantamento da CNC, batizado de “Impactos das Apostas Online (Bets) no Endividamento e Inadimplência das Famílias Brasileiras”, é ainda mais contundente: estima que a inadimplência gerada pelos gastos com plataformas de apostas retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026 — um volume equivalente a duas temporadas inteiras de vendas de Natal. Segundo o mesmo estudo, as bets drenam cerca de R$ 30 bilhões por mês da economia brasileira e levam 270 mil famílias por mês à inadimplência. O documento foi citado na justificativa do Projeto de Lei nº 1.808/2026, protocolado por 67 parlamentares na Câmara dos Deputados.
O retrato do novo endividado, traçado pelo Procon de São Paulo, tem contornos precisos: 39,7% dos apostadores se endividaram depois de começar a usar as plataformas. O perfil predominante é masculino (61,8%), jovem — 82,5% têm até 44 anos — e de baixa renda, com 38,6% ganhando até dois salários mínimos. Quase um terço dos jogadores (30%) gasta mais de R$ 1 mil por mês em bets — dinheiro que deixa de ir para alimentação, educação e lazer.
Uma pesquisa Datafolha expõe a dimensão humana por trás dos números: 46% dos usuários de bets apostam para obter renda extra e pagar contas. Não é um comportamento de consumo comum — é, segundo analistas, uma “ferida social aberta”, em que famílias pressionadas pelo custo de vida disputam comida, aluguel, remédio e luz com algoritmos programados para lucrar sobre a esperança alheia.
O caso emblemático: um servidor público identificado apenas como José começou apostando R$ 50, ganhou R$ 250 e passou a acreditar no “dinheiro fácil”. O comportamento se transformou em compulsão. Suas dívidas, que começaram em torno de R$ 30 mil, chegaram a valores entre R$ 600 mil e R$ 700 mil antes de ele reconhecer que sofria de uma doença.
2. Dentro das empresas: faltas, empréstimos, fraudes e demissões
O que começou como hábito individual atravessou a porta das empresas brasileiras — e o retrato que emerge é de deterioração silenciosa, mas mensurável, do ambiente corporativo.
Uma pesquisa da Creditas Benefícios em parceria com Wellz by Wellhub e Opinion Box, que ouviu 405 gestores e profissionais de RH, revela que 54% dos gestores dizem que colaboradores aproveitam o horário de descanso, como a pausa do almoço, para apostar. Sobre os efeitos percebidos: 66% apontam que o vício compromete a saúde mental e física dos funcionários, 59% relatam queda de produtividade, 21% apontam aumento de rotatividade e 16% dizem que a reputação da empresa piora.
Os dados oficiais do INSS tornam o quadro ainda mais concreto: os afastamentos por ludopatia cresceram 59,8% em 2025, passando de 425 para 679 benefícios concedidos em apenas um ano. A Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) confirma que departamentos de RH passaram a receber relatos frequentes de trabalhadores endividados, conflitos familiares e crises emocionais associadas às apostas — e o problema já chegou ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), que avalia se a dependência em apostas deve receber tratamento equivalente ao da dependência química nos processos de demissão por justa causa.
Especialistas em direito trabalhista descrevem três eixos de dano organizacional:
- Perda de produtividade e desídia — fadiga mental de noites acompanhando jogos, foco dividido, erros frequentes e atrasos em entregas.
- Degradação do clima organizacional — funcionários endividados recorrem a empréstimos recorrentes com colegas, gerando desconfiança, constrangimento e atritos interpessoais.
- Riscos de segurança e fraude — em casos extremos, o desespero financeiro empurra trabalhadores para condutas ilícitas: desvios de recursos da empresa e esquemas de corrupção interna.
Casos concretos já resultaram em demissão por justa causa confirmada judicialmente — como o de um colaborador em São Paulo cuja dispensa por acessar sites de apostas no computador da empresa foi mantida pela 6ª Vara do Trabalho. Empresários do setor de bares e restaurantes relatam funcionários que somem justamente nos dias de pagamento, com o salário inteiro consumido pelas apostas antes mesmo de chegar em casa. Diante do problema, companhias como Ypê, Gerdau e Whirlpool passaram a promover palestras de educação financeira e programas de acolhimento para colaboradores em situação de vício — um movimento defensivo que expõe o quanto o fenômeno já pesa na gestão de pessoas do país.
3. O vício que entrou pela porta da igreja
Talvez o dado mais revelador desta investigação seja o que mostra que o vício em apostas não poupou nem o espaço que, teoricamente, deveria funcionar como um dos maiores antídotos sociais contra ele: a igreja.
Uma pesquisa do PoderData, realizada entre 12 e 14 de outubro de 2024 com 2.500 entrevistados em 181 municípios, mostrou que o endividamento por apostas é maior entre evangélicos (21%) do que a média nacional (16%) e do que entre católicos (12%).
Lideranças religiosas de peso confirmam o fenômeno. O apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo, relata casos que vão do trágico ao banal-revelador: um rapaz perdeu no aplicativo os R$ 90 que sobraram de um jantar e “ficou completamente desesperado”, recorrendo aos pais para socorrê-lo. Outra fiel da mesma igreja, uma vendedora de ar-condicionado de 48 anos, perdeu, por suas próprias contas, meio milhão de reais — o suficiente para colocar seu apartamento em leilão e para que ela perdesse “carro, todos os cartões de crédito, dignidade, caráter”. Segundo o relato, ela “por pouco não perdeu também a vida”.
Outro caso: uma fiel que começou apostando R$ 50 “no tigrinho” viu a situação descambar, em cinco meses, para um rombo de R$ 50 mil na conta bancária — precisou tirar a filha da creche particular, pedir empréstimo no banco e deixou de contribuir com o dízimo.
Por que o público evangélico é particularmente vulnerável? A resposta, segundo a jornalista Marília de Camargo Cesar, autora de “Feridos em Nome de Deus”, está no próprio marketing das plataformas. O slogan “profetizou, jogou, sacou”, amplamente usado por casas de apostas, apropria-se de um vocabulário espiritual — “profetizar” no sentido de manifestar algo no mundo espiritual — para dar às apostas uma aura de bênção. Cesar relaciona esse apelo ao crescimento da teologia da prosperidade, doutrina que associa conquistas materiais a bênçãos divinas: para o fiel já condicionado a crer que riqueza é sinal de graça, apostar e ganhar soa como uma extensão natural da fé, não como um vício a ser combatido.
O pastor e psicólogo Daniel Guanaes, da Aliança Cristã Evangélica Brasileira, descreve o mecanismo de negação: “Hoje a pessoa está com o celular na mão, com o encorajamento de influenciadores. […] A roupagem hoje aparenta ser mais inofensiva.” Segundo ele, muitos fiéis só percebem a gravidade da situação quando ela já comprometeu o casamento.
Pastores influentes reagiram publicamente. O pastor Silas Malafaia alertou os fiéis sobre o “perigo espiritual” das apostas, associando o vício ao “trabalho destrutivo do diabo” e recomendando oração e leitura bíblica como parte do processo de libertação. A Igreja Universal do Reino de Deus chegou a publicar um texto abordando o tema, citando inclusive o sorteio da túnica de Jesus pelos soldados romanos como referência bíblica ao jogo.
Há, porém, uma camada de crítica que vai além do consolo espiritual. Comentaristas apontam uma contradição estrutural: o mesmo fiel que ouve do púlpito que apostar é pecado é, muitas vezes, estimulado dentro da própria teologia da prosperidade a “semear” dinheiro na expectativa de retorno sobrenatural — uma lógica financeira e psicológica estruturalmente parecida com a da aposta. Em ambos os casos, alguém deposita uma quantia acreditando em multiplicação mágica; em ambos, quem geralmente sai mais pobre é o mesmo público vulnerável.
4. Saúde mental e o risco de morte: o que os números da ludopatia revelam
A Organização Mundial da Saúde reconhece a ludopatia — Transtorno do Jogo — como doença desde 1980, hoje classificada no CID-11 sob o código 6C50, como Transtorno Devido a Comportamentos Aditivos. E as evidências científicas sobre sua letalidade são alarmantes.
Um estudo norueguês publicado pela revista Lancet em março de 2025 apontou que o suicídio foi a principal causa de morte entre pessoas com transtornos ligados ao jogo. Pesquisas em diferentes países mostram uma proporção superior a 15% de tentativas de suicídio entre pessoas viciadas em jogos. Uma revisão de literatura brasileira relata que a ludopatia pode aumentar o risco de suicídio em até 20 vezes — e que, quando associada ao uso abusivo de substâncias psicoativas, esse risco pode ser exponencialmente amplificado.
No Brasil, o diretor de saúde mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, afirma que a crise das bets tem potencial de ampliar o número de suicídios especialmente entre populações já vulneráveis — moradores de periferias, população negra e pessoas em situação de desemprego —, já que o ambiente digital das apostas potencializa desigualdades preexistentes.
Os números de custo social calculados pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em parceria com a Frente Parlamentar da Saúde Mental e a Umane (relatório “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”, dezembro de 2025), são de arrepiar:
- R$ 38,8 bilhões por ano é o custo total estimado do jogo compulsivo para a sociedade brasileira;
- Desse total, R$ 17 bilhões estão relacionados a mortes por suicídio;
- R$ 13,4 bilhões são atribuídos a quadros de depressão;
- R$ 3 bilhões vão para tratamentos médicos diretos.
Em contraste brutal, apenas 1% da arrecadação tributária das bets — cerca de R$ 32 milhões até agosto de 2025 — foi destinado ao Ministério da Saúde para lidar com esses efeitos.
O sistema público de saúde já sente o peso: entre janeiro de 2018 e maio de 2025, o SUS registrou 10.553 atendimentos relacionados a jogo patológico e mania de jogo e aposta — sendo 4.316 ambulatoriais (incluindo CAPS) e 6.237 na Atenção Primária. O próprio Ministério da Saúde reconhece que o número real é maior, dada a subnotificação ligada ao estigma. Estima-se que até 4% da população brasileira — cerca de 8,5 milhões de pessoas — possa ter transtorno do jogo, mas os atendimentos nos CAPS ficaram abaixo de 6,5 mil em 2025: uma lacuna gigantesca entre necessidade e oferta de tratamento.
O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), da UNIFESP, entrevistou 16.608 brasileiros e traçou o retrato mais completo já produzido sobre apostas no país: 25,9% da população já apostou em algum momento da vida, e 17,6% apostaram nos últimos 12 meses — equivalente a mais de 28 milhões de brasileiros. Do total de apostadores, 64,8% são homens.
5. Quem lucra: o Estado, os clubes, os jogadores e os influenciadores
Enquanto famílias se endividam, empresas perdem produtividade e igrejas veem fiéis trocarem o dízimo pela aposta, um conjunto restrito de atores colhe bilhões com esse mercado. Entender quem ganha — e quanto — é essencial para captar por que a regulação avança tão devagar.
O que o governo arrecada
Desde a regulamentação das apostas de quota fixa pela Lei nº 14.790/2023, o governo federal passou a tributar tanto as empresas de apostas quanto os ganhos dos apostadores. A alíquota sobre a receita bruta das casas de apostas subiu de 12% para 15% com o novo pacote fiscal, e os apostadores pagam 15% de imposto de renda sobre prêmios acima de R$ 2.112.
Os números da arrecadação cresceram rapidamente:
- Em 2025, a arrecadação com o “imposto das bets” alcançou R$ 9,95 bilhões;
- Somente entre janeiro e fevereiro de 2026, o país já havia arrecadado cerca de R$ 364 milhões;
- Somados a outros ajustes fiscais do setor, o governo projeta um incremento de arrecadação federal de até R$ 20,9 bilhões em 2026.
O paradoxo é evidente: o mesmo Estado que se beneficia fiscalmente da expansão das bets é chamado a arcar com os custos sociais do vício que elas provocam — custos que, como visto, somam R$ 38,8 bilhões anuais, mais de quatro vezes o valor arrecadado em impostos sobre o setor em um ano recorde.
O que os clubes de futebol ganham
O futebol brasileiro se tornou, nos últimos três anos, o principal palco publicitário das casas de apostas. Em 2023, bets patrocinavam 12 dos 20 clubes da Série A como patrocinadoras máster; em 2025, chegaram a 18 dos 20 clubes — só ficaram de fora o Red Bull Bragantino e o Mirassol. O valor total desses contratos saltou de R$ 496 milhões em 2023 para R$ 1,1 bilhão em 2025, um crescimento de 125% em dois anos.
Os maiores contratos individuais, segundo levantamentos de 2026:
| Clube | Casa de apostas | Valor anual estimado |
|---|---|---|
| Flamengo | Betano | R$ 268 milhões (o maior patrocínio máster da história do futebol brasileiro) |
| Corinthians | Esportes da Sorte | R$ 103 milhões |
| Palmeiras | Sportingbet | R$ 100 milhões (contrato de 3 anos podendo chegar a R$ 300 milhões no total) |
| São Paulo | Superbet | R$ 78–113 milhões (renovado até 2030, podendo ultrapassar R$ 1 bilhão no total) |
| Atlético-MG | H2Bet | R$ 60–200 milhões, com bônus |
| Botafogo | Vbet | R$ 55 milhões |
| Fluminense | Superbet | R$ 52 milhões |
| Cruzeiro | Betfair | mais de R$ 40 milhões |
O contrato do Flamengo com a Betano colocou o clube na 10ª posição do ranking mundial de patrocínios máster no futebol, ao lado de gigantes como Real Madrid (Emirates, €70 milhões), PSG (Qatar Airways, €65 milhões) e Barcelona (Spotify, €57,5 milhões) — um sinal de que o dinheiro das apostas movimenta o futebol brasileiro na mesma escala das maiores potências financeiras do esporte mundial.
Vale notar que, em 2026, o número total de clubes patrocinados por bets recuou para 12, uma queda de 33% em relação a 2025 — reflexo, segundo analistas do setor, do aumento da tributação e de um processo de consolidação em que menos empresas concentram investimentos maiores, e não necessariamente de um recuo do interesse do setor pelo futebol.
O que jogadores e ex-atletas recebem
Além dos patrocínios de clube, jogadores em atividade e ex-atletas aparecem individualmente em campanhas publicitárias de casas de apostas — parte de uma estratégia que dobrou a presença de marcas de apostas nos painéis publicitários do Brasileirão entre 2019 e 2024, saltando de seis em cada dez propagandas para uma média de 7,4 anúncios de bets por transmissão.
O que os influenciadores faturam — e o preço que os seguidores pagam
Se os clubes emprestam a camisa, os influenciadores digitais emprestam a confiança pessoal que construíram com milhões de seguidores — e é justamente essa proximidade que torna sua publicidade tão eficaz e tão perigosa. Nomes como Virginia Fonseca, Carlinhos Maia, Deolane Bezerra e Gkay protagonizaram contratos milionários com plataformas de apostas, promovendo-as para públicos de dezenas de milhões de seguidores.
A publicitária e criadora de conteúdo Carolline Sardá compara a estratégia à publicidade histórica do cigarro: “Os publicitários sabiam que o cigarro matava, e mesmo assim sentaram à mesa para pensar em como esconder isso. A mesma coisa aconteceu com as plataformas de apostas. Em sites piratas, as pessoas não confiam. Mas quando veem um influenciador que seguem, que acompanham, que se parece com elas, aí confiam.”
A CPI das Bets, no Senado, investigou o papel desses agentes. O relatório final da relatora Soraya Thronicke, apresentado em junho de 2025, chegou a propor o indiciamento de 16 pessoas, incluindo influenciadores, por estelionato, propaganda enganosa e lavagem de dinheiro — mas o relatório foi rejeitado por 4 votos a 3, encerrando a CPI sem qualquer conclusão formal, algo inédito no Senado em dez anos. Segundo a senadora, parte do suposto estelionato envolvia o uso de “contas de demonstração”, em que influenciadores fazem apostas com dinheiro fornecido pelas próprias plataformas — sem correr risco algum —, transmitindo aos seguidores a falsa impressão de que estão jogando (e ganhando) com seu próprio dinheiro, em condições idênticas às do apostador comum.
Do ponto de vista jurídico, especialistas em direito do consumidor sustentam que influenciadores podem ser enquadrados como “fornecedores equiparados” quando atuam como intermediários entre a casa de apostas e o consumidor final — o que abre caminho para responsabilização civil por publicidade enganosa quando prometem “renda garantida” ou omitem os riscos do jogo. Projetos de lei em tramitação no Congresso (PL 3563/2024, PL 3405/2023, PL 3915/2023, entre outros) tentam justamente atribuir obrigações claras e responsabilidade legal e financeira a influenciadores que promovem apostas.
6. Uma indústria que se acelera: o efeito Copa do Mundo
Se havia dúvida sobre a escala que esse mercado pode atingir, a Copa do Mundo de 2026 serviu de teste em tempo real. Com a expansão do torneio para 48 seleções e 104 partidas, o evento se tornou epicentro de uma estratégia agressiva de marketing das bets. Segundo a multinacional Softswiss, a edição atual tem potencial para elevar o volume global de apostas em pelo menos 50% em comparação a 2022, com o montante movimentado saltando de US$ 35 bilhões para cerca de US$ 52 bilhões — e o Brasil respondendo por aproximadamente 10% desse volume global.
O monitoramento da plataforma Placar das Bets, usando dados de Open Finance, mostrou que, entre 9 e 25 de junho de 2026, brasileiros destinaram cerca de R$ 530,21 milhões às casas de apostas — com o gasto médio por apostador subindo de R$ 188 para R$ 242 no período, evidenciando uma aceleração do comportamento de risco à medida que a competição avançava para as fases decisivas. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) chegou a emitir alerta público sobre como a paixão nacional pelo futebol estava sendo usada para ampliar a exposição da população — inclusive de apostadores ocasionais em situação de vulnerabilidade — a esses jogos.
7. O que está em jogo no Congresso
A pressão social crescente já se traduz em movimento político. Em abril de 2026, o deputado Pedro Uczai (PT-SC), líder da bancada do PT na Câmara, protocolou o PL 1.808/2026 com a assinatura de 67 parlamentares, citando diretamente o estudo da CNC sobre o rombo de R$ 143 bilhões causado pela inadimplência ligada às bets. O presidente Lula também elevou publicamente o alerta sobre o tema, defendendo medidas mais duras contra o que críticos chamam de “avanço desenfreado das bets” — com destaque para a proposta de restringir severamente, e em muitos casos proibir, a publicidade de apostas, especialmente aquela dirigida a adolescentes por meio de transmissões esportivas e redes sociais.
Até o Judiciário já é acionado pelos efeitos colaterais do fenômeno: o Tribunal de Justiça de São Paulo já julgou disputas sobre penhora de créditos em contas de apostas, e o Tribunal Superior do Trabalho avalia se a dependência em jogo deve ser tratada, para fins de demissão, como uma doença — nos mesmos moldes da dependência química — e não como simples falta de caráter.
Onde buscar ajuda
A ludopatia é reconhecida como doença pela Organização Mundial da Saúde e pode ser tratada. Especialistas recomendam buscar ajuda ao primeiro sinal de perda de controle sobre o hábito de apostar, comprometimento de renda essencial ou conflitos familiares e financeiros recorrentes.
- CVV (Centro de Valorização da Vida): 188, gratuito, 24h, também por chat e e-mail — apoio emocional e prevenção ao suicídio.
- CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) da sua cidade, pelo SUS — tratamento gratuito para transtorno do jogo.
- Disque Saúde: 136.
Se você ou alguém próximo está enfrentando uma crise emocional grave ou pensamentos de suicídio, procure imediatamente uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou ligue para o CVV.
Esta reportagem reúne dados públicos de Serasa, CNC, Receita Federal, Ministério da Saúde, INSS, LENAD III/UNIFESP, IEPS, PoderData, Datafolha, Procon-SP, ABRH, além de apuração publicada por veículos como Poder360, Meio&Mensagem, Agência Pública, Consultor Jurídico, Revista Fórum e Extra Classe, entre outros, referentes ao período de 2024 a 2026.
Fonte: O Editor com iA
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