Por que escolher um lado pode ser o pior negócio que o Brasil poderia fazer
Enquanto Washington eleva tarifas e Pequim assina novos contratos de infraestrutura, o Brasil se vê no centro de uma disputa silenciosa — mas cada vez mais barulhenta — entre as duas maiores economias do planeta. E, no meio de uma guerra no Oriente Médio que já mexe com o preço do petróleo e do frete, a pergunta que fica é: o Brasil deveria escolher um parceiro, ou apostar todas as fichas em não escolher nenhum?
O tabuleiro: por que EUA e China disputam o Brasil
O Brasil não é apenas mais um fornecedor de commodities. É a maior economia da América Latina, dono do maior rebanho bovino comercial do mundo, um dos principais celeiros agrícolas do planeta e um player relevante em energia, minério de ferro e, cada vez mais, em tecnologia verde. Isso faz do país uma peça valiosa demais para ficar de fora do jogo geopolítico travado entre Washington e Pequim.
Em 2025, as exportações brasileiras bateram recorde histórico, somando US$ 348,7 bilhões, impulsionadas justamente pela expansão das vendas para a China e para outros parceiros, mesmo com o tarifaço americano em vigor por parte do ano. O gráfico abaixo mostra a diferença de tamanho entre os dois mercados para o Brasil.

Fig. 1 — Exportações brasileiras por destino em 2025 (US$ bilhões). Fonte: MDIC.
O que os Estados Unidos oferecem ao Brasil
Pontos fortes
- Acesso a um mercado consumidor de altíssimo poder aquisitivo, especialmente para manufaturados e produtos de maior valor agregado.
- Parceria tecnológica e de investimento em setores como aviação, defesa, semicondutores e serviços financeiros.
- Sistema jurídico e financeiro mais previsível historicamente, com o dólar como moeda de referência global.
- Proximidade política e cultural, além de tratados de cooperação em áreas como segurança e ciência.
Pontos fracos
- Relação comercial mais instável nos últimos anos: o Brasil chegou a enfrentar tarifa de 50% em 2025, depois parcialmente revertida pela Suprema Corte americana, e agora uma nova tarifa de 25% em vigor desde 22 de julho de 2026.
- Uso do comércio como ferramenta de pressão política — a tarifa de 2025 foi associada publicamente ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
- Volume de compras bem menor que o da China: US$ 37,7 bilhões em 2025, menos da metade do que os chineses compraram do Brasil.
- Setores sensíveis como carne, café e peixe foram diretamente afetados nas rodadas de tarifação, embora parte tenha sido isentada depois por pressão inflacionária nos EUA.
O que a China oferece ao Brasil
Pontos fortes
- Maior comprador individual do Brasil, de longe: US$ 99,94 bilhões em compras em 2025, e recorde de US$ 58,32 bilhões só no primeiro semestre de 2026, alta de 21,9% no período.
- Investimentos diretos crescentes em infraestrutura, energia, logística e transição energética, para além da simples compra de commodities.
- Demanda estrutural por soja, minério de ferro, petróleo e proteína animal, dando estabilidade de longo prazo ao agronegócio e à mineração brasileira.
- Alternativa de pagamento e financiamento fora do sistema baseado no dólar, o que dá ao Brasil mais margem de manobra em momentos de tensão cambial.
Pontos fracos
- Relação concentrada em commodities de baixo valor agregado, o que reforça o papel do Brasil como exportador de matéria-prima e importador de manufaturados chineses.
- A China também usa barreiras comerciais quando lhe convém: desde janeiro de 2026, aplica cotas e sobretaxas à carne bovina brasileira, com um teto anual inicial de 1,1 milhão de toneladas.
- Concorrência direta da indústria chinesa com setores estratégicos brasileiros, especialmente em manufatura e tecnologia.
- Menor previsibilidade institucional e jurídica em comparação a parceiros ocidentais, o que pode pesar em disputas comerciais.
Lado a lado: o comparativo
| Critério | Estados Unidos | China |
| Volume comprado do Brasil (2025) | US$ 37,7 bilhões | US$ 99,94 bilhões |
| Tarifa atual sobre produtos brasileiros | 25% (desde 22/jul/2026, base Seção 301), após ter chegado a 50% em 2025 | Sobretaxas e cotas pontuais, como a de carne bovina desde jan/2026 |
| Tipo de relação | Comercial tradicional + tecnologia, defesa e capital financeiro | Investimentos diretos em infraestrutura, energia e logística |
| Principal risco para o Brasil | Instabilidade política e uso do comércio como instrumento de pressão | Dependência excessiva de commodities e concorrência industrial |
| Moeda e pagamentos | Dólar, sistema financeiro consolidado | Avanço de acordos em yuan e sistemas alternativos ao dólar |
A montanha-russa do tarifaço americano
Entender o tamanho do problema exige olhar a linha do tempo. O Brasil passou, em pouco mais de um ano, por quatro mudanças bruscas na tarifa cobrada pelos Estados Unidos — uma oscilação rara mesmo para os padrões da era Trump.

Fig. 2 — Evolução da tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros (2025–2026). Fonte: reportagens de imprensa e atos oficiais do USTR.
A tarifa de 50% aplicada em agosto de 2025 foi amplamente lida como um gesto político, ligado ao julgamento de Bolsonaro no Brasil, e baseada em uma lei de poderes de emergência (IEEPA). A Suprema Corte dos EUA considerou essa base jurídica inconstitucional no início de 2026, derrubando a maior parte da sobretaxa e abrindo espaço para uma tarifa global de 10%. Mas o alívio durou pouco: em julho de 2026, entrou em vigor uma nova tarifa de 25%, desta vez apoiada na Seção 301 da lei de comércio americana — um mecanismo mais sólido juridicamente, o que torna essa tarifação mais difícil de reverter na Justiça.
Do lado positivo, o governo americano isentou quase 700 produtos da tarifa original, e ampliou depois essa lista em mais de 2.100 itens, incluindo carne bovina, café, suco de laranja, petróleo, aeronaves, semicondutores e celulose — sinal de que a pressão inflacionária dentro dos próprios Estados Unidos também pesa nas decisões de Washington.
A China também aplica tarifas contra o Brasil?
Sim — e vale desmontar a ideia de que a China é uma parceira sem atrito algum. Desde janeiro de 2026, o governo chinês passou a aplicar cotas de importação e sobretaxas sobre a carne bovina brasileira, com um teto inicial de 1,1 milhão de toneladas por ano. É um lembrete de que nenhum parceiro comercial age apenas por afinidade: a China protege sua própria produção interna sempre que julga necessário, exatamente como os EUA fazem.
A diferença é de escala e de intenção. Especialistas em comércio bilateral avaliam que a China consegue absorver apenas uma fração das exportações brasileiras eventualmente deslocadas dos EUA pelo tarifaço, porque o perfil dos produtos comprados pelos dois países é diferente e a capacidade industrial chinesa tem limites para essa substituição. Ou seja: a China ajuda a amortecer o golpe americano, mas não é uma solução mágica e completa.

Fig. 3 — Variação das exportações brasileiras por destino, fevereiro de 2026 vs. fevereiro de 2025. Fonte: Trading Economics / MDIC.
Os números de fevereiro de 2026 ilustram bem esse redesenho de rotas: enquanto as vendas para os Estados Unidos caíram 20,3% na comparação anual, as exportações para a China saltaram 38,7% e para a União Europeia, 34,7%. O Brasil está, na prática, reorganizando suas cadeias de venda em tempo real.
E a guerra entre EUA, Israel e Irã? Isso afeta o Brasil?
Sim, e por mais de um caminho. O conflito, iniciado no fim de fevereiro de 2026 com ataques coordenados dos EUA e de Israel contra alvos estratégicos iranianos, provocou um choque imediato no preço do petróleo — o Brent chegou a acumular cerca de 14% de valorização em poucos dias, hostilizado pela ameaça iraniana de fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.
O lado positivo para o Brasil
- Como 9º maior produtor e exportador de petróleo do mundo, o Brasil pode se posicionar como fornecedor alternativo para países da Ásia e da Europa que buscam reduzir a dependência do Oriente Médio.
- A Petrobras tende a se beneficiar diretamente da alta nos preços internacionais do petróleo.
- Também pode crescer a demanda por commodities agrícolas brasileiras, como soja e milho, por parte de países que buscam diversificar fornecedores em um cenário de instabilidade.
O lado negativo para o Brasil
- O choque de petróleo se soma às tarifas comerciais já existentes, criando um terreno fértil para a chamada estagflação: crescimento fraco combinado com inflação persistente.
- A alta do barril tende a encarecer o diesel e, por consequência, o frete rodoviário — que é a espinha dorsal da logística brasileira, majoritariamente feita por caminhões.
- Uma eventual recessão global, caso o conflito se prolongue, reduziria a demanda mundial por commodities, justamente o carro-chefe das exportações brasileiras.
- O cenário pode levar o Banco Central a rever o ritmo de corte de juros e adotar uma comunicação mais cautelosa ao longo de 2026.
Analistas consultados por veículos de economia avaliam que, historicamente, choques do Oriente Médio costumam ter impacto agudo, porém curto — de seis a oito semanas —, com o petróleo devolvendo parte dos ganhos depois do susto inicial. O ponto de atenção em 2026 é que esse choque energético não vem sozinho: ele se soma a um ambiente já tarifário e protecionista, o que amplia o risco de um efeito mais duradouro sobre preços e juros no Brasil.
O trunfo brasileiro: não colocar todos os ovos na mesma cesta
É exatamente nesse cenário de instabilidade dupla — tarifaço americano de um lado, guerra e choque de petróleo do outro — que a estratégia brasileira de multiplicar parceiros comerciais mostra seu valor. Ao vender para os Estados Unidos, para a China, para a União Europeia e para outros blocos ao mesmo tempo, o Brasil reduz sua exposição a qualquer decisão unilateral de um único parceiro.
- Redução de risco político: se um país usa tarifas como instrumento de pressão diplomática, o impacto sobre a economia brasileira como um todo fica diluído.
- Poder de barganha maior: ter opções de venda fortalece a posição do Brasil em qualquer mesa de negociação, seja com Washington, seja com Pequim.
- Resiliência em crises: o recorde de exportações em 2025, mesmo em meio ao tarifaço, só foi possível porque o Brasil conseguiu redirecionar parte das vendas para outros destinos.
- Acesso a diferentes tipos de capital e tecnologia: os EUA trazem know-how financeiro e tecnológico; a China, capacidade de investimento em infraestrutura pesada; a União Europeia, acesso a um mercado regulado e de alto padrão.
- Menor dependência cambial: diversificar parceiros também significa diversificar moedas de pagamento e reduzir a vulnerabilidade a oscilações do dólar.
O avanço nas negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia — que pode elevar em 5,1% o comércio do Brasil com o bloco europeu — é outro exemplo de que o país tem buscado, ativamente, não ficar refém de nenhum parceiro único. Café, carne bovina, biodiesel e frutas tropicais brasileiros ganhariam acesso preferencial a um dos mercados mais ricos do mundo.
Conclusão: equilíbrio como estratégia de sobrevivência
A disputa entre Estados Unidos e China pelo mercado brasileiro não é uma novidade passageira — é o retrato de uma nova ordem econômica mundial, mais fragmentada e mais imprevisível. Nesse contexto, abraçar um único parceiro comercial seria como apostar todo o patrimônio em uma única ação: pode dar certo por um tempo, mas expõe o país a riscos desnecessários diante da primeira turbulência.
A guerra no Oriente Médio deixou ainda mais evidente essa lição: em um mundo onde um conflito a milhares de quilômetros de distância consegue mexer no preço do diesel em uma estrada brasileira, a diversificação deixou de ser apenas uma boa prática de comércio exterior — tornou-se uma questão de segurança econômica nacional.
Enquanto EUA e China continuam disputando espaço no país, o Brasil segue com a carta mais valiosa nas mãos: a de não precisar escolher um só lado da mesa.
Fontes: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Trading Economics, Bloomberg, Poder360, g1, CartaCapital, Gazeta do Povo e Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB). Dados de tarifas e comércio exterior atualizados até 22 de julho de 2026.
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