Quase nove meses após a assinatura de um cessar-fogo entre Israel e Hamas, Gaza continua mergulhada em uma crise humanitária profunda. Mais de 1,9 milhão de pessoas permanecem deslocadas, milhares de corpos seguem sob os escombros e crianças são mordidas por ratos em acampamentos improvisados, segundo a rede CNN. Enquanto isso, negociações diplomáticas envolvendo Estados Unidos, Irã e outros atores regionais avançam sem incluir o futuro do enclave palestino, alimentando entre moradores a sensação de que Gaza foi esquecida pelo mundo.
— Todo mundo esqueceu Gaza e sua tragédia — lamenta Ahmed Jamali, palestino de 53 anos que vive em um campo de deslocados na cidade de Gaza.
Desde o conflito iniciado em 28 de fevereiro entre EUA, Israel e Irã, diz ele, a atenção internacional se voltou para outras frentes da crise no Oriente Médio.
— Israel faz o que quer: mata, destrói e ocupa Gaza, e ninguém no mundo move um dedo — afirma.
A guerra em Gaza começou após os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. A ofensiva israelense que se seguiu já deixou mais de 73 mil mortos, segundo o Ministério da Saúde do território palestino, controlado pelo Hamas. As estatísticas são consideradas confiáveis pela ONU.
Em 11 de outubro de 2025, Israel e Hamas assinaram um acordo de cessar-fogo em duas fases, após dois anos de guerra e bloqueio. O plano previa a retirada gradual das tropas israelenses, o desarmamento completo do Hamas, a criação de uma força internacional de segurança e a formação de uma nova autoridade palestina para governar a Faixa de Gaza.
Mais de oito meses depois, porém, poucas dessas medidas avançaram.
O acordo que não saiu do papel
Em maio, Nikolay Mladenov, ex-funcionário da ONU encarregado de acompanhar a implementação do acordo, alertou para um “status quo perigoso” em Gaza.
Na semana passada, a chamada Junta de Paz, criada para impulsionar o plano, anunciou dois dias de reuniões “altamente produtivas” no Chipre. Ainda assim, não há cronograma para a instalação de um comitê tecnocrático palestino que substituiria o Hamas na administração do território. A força internacional prevista no acordo também nunca foi criada.
Enquanto isso, Israel ampliou sua presença militar em Gaza. No mês passado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou ter ordenado que as Forças Armadas assumissem o controle de cerca de 70% do território e sugeriu que essa área poderia aumentar.
O Hamas, por sua vez, se reorganizou, recusou-se a entregar suas armas e manteve sua influência sobre o território.
O resultado é que a violência continua. Segundo o Ministério da Saúde palestino, ao menos 1.059 pessoas morreram e outras 3.429 ficaram feridas em ataques israelenses desde a assinatura do cessar-fogo.
Dados compilados pela CNN mostram que, em média, uma criança é morta por dia em Gaza desde outubro.
Em junho, uma comissão independente da ONU concluiu que Israel continua cometendo genocídio contra os palestinos ao atingir deliberadamente crianças em Gaza. O governo israelense rejeitou a acusação e classificou o relatório como “uma difamação política disfarçada de documento da ONU”.
Gaza fora das prioridades
A sensação de abandono entre os moradores é reforçada pelos recentes movimentos diplomáticos na região. Inicialmente, o Irã defendia que o acordo firmado com os EUA para encerrar a guerra entre os dois países incluísse todo o Oriente Médio. O memorando de entendimento assinado em junho entre Washington e Teerã contempla o fim das hostilidades entre Israel e o Hezbollah no Líbano — uma prioridade para o governo iraniano —, no entanto, não prevê qualquer mecanismo para resolver a crise palestina.
— Isso reflete uma perda do valor estratégico do Hamas aos olhos do Irã — afirma Hugh Lovatt, pesquisador do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR).
O especialista militar israelense Eado Hecht vai além.
— Os iranianos não estão realmente preocupados com Gaza. O Hamas era um aliado, não um peão do Irã, e os traiu. Eles não queriam uma guerra em 2023 — observa.
Um diplomata ocidental ouvido pela AFP avalia que o enclave foi deixado de lado não porque o conflito tenha terminado, mas porque ainda não existe uma solução política viável para o pós-guerra.
Enquanto isso, negociações discretas continuam ocorrendo em Cairo, com participação de representantes palestinos, integrantes da Junta de Paz apoiada pelo presidente americano, Donald Trump, e mediadores de países como Catar e Turquia.
Sob condição de anonimato, uma fonte envolvida nas negociações afirmou que “estão sendo feitos enormes esforços, visitas e tentativas para verificar se isso vai funcionar”.
Crianças mordidas por ratos
Enquanto líderes negociam, a realidade em Gaza continua marcada por condições extremas. Mais de 1,9 milhão de pessoas — praticamente toda a população do território — permanecem deslocadas, segundo a ONU. Muitas delas foram obrigadas a fugir diversas vezes.
Meses após o cessar-fogo, milhares continuam vivendo em barracas improvisadas e sem ventilação adequada. No fim de maio, a ONU alertou para a rápida disseminação de erupções cutâneas e infecções parasitárias. Segundo relatório recente, esses problemas já afetam mais de 80% das áreas de deslocamento.
— Você pode ser bombardeado a qualquer momento e em qualquer lugar. Não existe um cessar-fogo de verdade aqui — afirma Sally Saleh, trabalhadora humanitária deslocada em Deir al-Balah e chefe de emergências da organização britânica Medical Aid for Palestinians (MAP) em Gaza.
Segundo ela, ratos, baratas e doninhas circulam livremente pelos acampamentos, rasgando lonas e atacando pessoas durante a noite.
— Conversamos com pais cujos filhos foram mordidos por ratos e que vivem aterrorizados com a possibilidade de isso acontecer novamente — relata.
Idosos e pessoas com deficiência estão entre os mais vulneráveis.
Em algumas áreas, moradores passaram a cavar fossas improvisadas devido à falta de instalações sanitárias, aumentando os riscos de contaminação do solo e da água.
Os ratos também perfuram embalagens de ajuda humanitária, obrigando famílias a descartar parte dos escassos estoques de arroz e farinha. Algumas pessoas passaram a pendurar recipientes de comida no teto das barracas para protegê-los.
Disputa sobre a ajuda humanitária
O governo israelense afirma que a situação está sob controle. No mês passado, anunciou uma campanha de combate a pragas em parceria com a ONU e informou, por meio do órgão responsável pela coordenação da ajuda humanitária em Gaza, que aproximadamente 600 caminhões entram diariamente no território — o mínimo previsto no acordo de cessar-fogo.
“A situação humanitária em Gaza é estável, sustentada por um fluxo contínuo e consistente de ajuda”, afirmou o órgão em publicação nas redes sociais.
Organizações humanitárias contestam essa avaliação. Segundo elas, restrições à entrada de geradores, peças de reposição e equipamentos essenciais continuam dificultando a reconstrução e o funcionamento de serviços básicos. Trabalhadores humanitários responsáveis pela distribuição de ajuda também seguem sendo mortos nos confrontos.
De acordo com Saleh, algumas organizações já precisaram reduzir operações fundamentais, incluindo o fornecimento de água potável.
Corpos ainda sob os escombros
A devastação também permanece visível nas ruas. A expansão das áreas controladas pelo Exército israelense continua provocando novas ondas de deslocamento. Em muitos locais, famílias encontram montanhas de lixo, esgoto a céu aberto e enormes áreas cobertas por destroços.
Somente em Gaza, cerca de 25 milhões de toneladas de escombros permanecem acumuladas, segundo autoridades locais.
A entrada limitada de equipamentos para remoção de resíduos dificulta a limpeza. Em alguns casos, trabalhadores humanitários recorrem a tratores e até carroças puxadas por burros para recolher lixo.
— Lavo meus sapatos todos os dias por causa do esgoto. Gaza agora é apenas um lugar onde nenhuma forma de vida consegue existir — afirma Saleh.
Mas o símbolo mais contundente da guerra permanece enterrado sob os escombros.
Desde a assinatura do cessar-fogo, autoridades palestinas recuperaram 784 corpos. Outros 7.500 desaparecidos continuam soterrados, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
— Os restos mortais precisam ser tratados com dignidade — ressalta Pat Griffiths, porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Jerusalém.
Segundo ele, quanto mais tempo os corpos permanecem enterrados, maior o risco de perda de evidências que poderiam permitir sua identificação, como impressões digitais, registros dentários, cicatrizes e marcas de nascença.
Uma geração marcada pela guerra
Em Deir al-Balah, Karam, de 14 anos, tenta manter alguma rotina enquanto conduz uma bola de futebol por um caminho cercado de destruição.
— Meu sonho era ser jogador de futebol. Eu costumava jogar com meus amigos na rua — conta.
Ao redor dele, antigas áreas agrícolas deram lugar a terras queimadas, pomares carbonizados e montanhas de concreto destruído.
— A vida antes da guerra era bonita. Mas agora não existe mais vida.
Os impactos da guerra vão além da destruição física. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de desemprego em Gaza chegou a 85,1% em maio. Antes do conflito, era de 45%.
Saleh afirma que os efeitos psicológicos são evidentes entre as crianças.
— Vi crianças simulando funerais e enterros durante as brincadeiras.
Para o escritor palestino Yahya Alhamarna, de 24 anos, deslocado em Gaza, preservar a memória tornou-se uma forma de resistir.
Ele cita como inspiração o professor e escritor palestino Refaat Alareer, morto em um ataque israelense em dezembro de 2023.
— Ele representava o pensamento, a cultura e o poder das palavras — diz.
Apesar da devastação, Alhamarna vê na persistência dos moradores uma forma de sobrevivência.
— As pessoas continuam escrevendo, falando e mantendo a esperança. E isso, por si só, já é uma forma de resistência.
(Com AFP)
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