No dia 17 de dezembro de 1994, na diplomação do presidente eleito Fernando Henrique Cardoso, o ministro Carlos Velloso, que assumira a chefia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) havia onze dias, fez um discurso histórico. Crítico do formato de votação vigente, à base de papel, que permitia violações de todo tipo, ele afirmou estar convencido de que “as fraudes serão banidas do processo eleitoral no momento em que eliminarmos as cédulas, informatizando o voto”. Velloso fez andar a intenção. Sua gestão foi responsável pela implantação das urnas eletrônicas, testadas nas 57 maiores cidades do país já no pleito de 1996. O sucesso do modelo, que nunca teve uma única fraude comprovada, foi incapaz, porém, de afastar o assédio daqueles que militam pelo retrocesso.

Nos últimos dias, o que seria a comemoração de um prodígio da tecnologia a serviço da democracia, um totem brasileiro a ser celebrado, virou alvo de inaceitáveis ataques. O flerte com tempos obscuros vai na contramão da realidade, de mãos dadas com as chamadas fake news. O modelo informatizado passou incólume por quinze eleições em trinta anos e virou referência de votação para o mundo. Um olhar para o passado dá ideia do avanço. Em 1994, a título de exemplo dos riscos que andavam à sombra, as eleições no estado do Rio de Janeiro foram anuladas depois de um festival de irregularidades que incluiu, segundo o TRE, urnas de pano que já vinham com votos em seu interior, seções com comparecimento superior a 100% dos eleitores, gente detida com comprovantes de votação de pessoas ausentes e cédulas em favor dos mesmos políticos preenchidas com igual caligrafia — ilegalidades que, destaque-se, não eram exclusividade fluminense.
O atual movimento, no avesso da sensatez, era esperado. Em maio, ao assumir a presidência do TSE, o ministro Kassio Nunes Marques citou a necessidade de “preservar, aperfeiçoar e fortalecer continuamente a confiança pública em torno das urnas eletrônicas”. Foi direto ao ponto: “O sistema de votação brasileiro constitui patrimônio institucional da nossa democracia. No tocante à recepção, à apuração e à divulgação dos votos, é o mais avançado do mundo”. Marques Nunes, insista-se, deu o nome certo ao problema: “ameaça à democracia”. A pregação negacionista, que não se perca o fio da meada, foi o que deu fôlego à trama do final de 2022, que visava barrar a posse de Lula e cujo delírio embalou a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.
Deu-se o alerta, agora, no último dia 21, quando Flávio Bolsonaro (PL), um dos líderes da corrida presidencial, reiniciou a cantilena. Diante de representantes de 42 países, afirmou que as urnas brasileiras são fabricadas pela venezuelana Smartmatic — não são — e que um relatório da CIA teria comprovado a participação da empresa numa sucessão de fraudes em 2012. Segundo o TSE, as mais de 1,4 milhão de urnas já usadas no Brasil foram montadas por quatro empresas brasileiras: Positivo Tecnologia, responsável pelos equipamentos mais recentes; Diebold; Unisys Brasil; e Procomp, que fez os modelos mais antigos. Todas contratadas por licitação.
O gesto de Flávio causou perplexidade, ao repetir o que havia feito seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que em julho de 2022, em busca da reeleição, reuniu diplomatas no Palácio da Alvorada para pôr em dúvida a credibilidade das máquinas — o episódio rendeu a ele uma das duas inelegibilidades a que foi condenado no TSE.

Para piorar, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro engrossou, dos Estados Unidos, o coro, valendo-se até de uma live com o marqueteiro argentino Fernando Cerimedo, que há quatro anos foi indiciado pela PF por desinformação, depois da postagem de um vídeo questionando o modelo brasileiro. Eduardo ainda divulgou gravação antiga do magnata Elon Musk dizendo não confiar em votação eletrônica porque tudo que é conectado à internet pode ser invadido. Detalhe: o sistema brasileiro é off-line (veja no quadro abaixo, com o sistema detalhado).
A peroração dos filhos do ex-presidente pode alavancar uma preocupante toada. Nas redes sociais, a desinformação eleitoral é crescente e os ataques miram cada vez mais o processo de votação. Entre 2016 e 2024, 73% das lorotas que viralizaram traziam falsidades sobre as urnas eletrônicas ou a Justiça Eleitoral, segundo a Agência Lupa. “A mentira se espalha rapidamente, enquanto a resposta exige investigação e sempre chega atrasada”, diz Maiquel Rosauro, da Lupa.

O sucesso brasileiro alimentou experiências globais. Dados do International IDEA, organização especializada em lisura de processos eleitorais, mostram que 34 dos 178 países analisados (19%) utilizam algum tipo de votação eletrônica. Outros 15% estudam ou testam a adoção dessas tecnologias. Desde 2016, o protótipo do Brasil passou a integrar o intercâmbio internacional de boas práticas. “O que o Brasil exporta não é o software da urna, mas a metodologia”, diz Ingrid Farias, que monitora eleições na América Latina e coordena a Coalizão Negra por Direitos. Segundo ela, países como México, Argentina, Paraguai e Equador já recorreram ao processo brasileiro para aperfeiçoar seus sistemas. Em 2024, representantes de nações africanas enviaram missões ao TSE para conhecer o processo. As urnas eletrônicas de gravação direta, como as do Brasil — conhecidas como DREs (Direct Recording Electronic) —, são usadas por metade dos países que adotam votação eletrônica.
A urna é fruto de um rigoroso padrão de qualidade. O equipamento é fabricado por encomenda, dentro dos parâmetros fixados pela Justiça Eleitoral. Das mais de 500 000 máquinas que serão usadas neste ano, 445 000 foram desenvolvidas entre 2020 e 2022 e fabricadas pela Positivo. Entre os equipamentos mais antigos, uma parte é modernizada, enquanto os obsoletos são destruídos — em 2025, o TSE descartou mais de 120 000 exemplares da série de 2009.

Dos galpões da Justiça Eleitoral à cabine de votação, as peças são submetidas a uma bateria intensa de provas de segurança. Os equipamentos passam por mais de dez etapas de fiscalização, garantindo que a engrenagem seja auditada antes, durante e depois das votações. Em um teste público, o TSE convida hackers a acessar o código-fonte em busca de vulnerabilidades. As falhas são corrigidas até que a versão final do código seja “trancada” por assinaturas digitais. As auditorias prosseguem até a última hora antes do pleito, quando ocorre o teste de autenticidade. O processo tem representantes do poder público, como PF e Ministério Público, e da sociedade civil, como universidades e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Os ministros Nunes Marques e seu vice no TSE André Mendonça, ambos nomeados por Jair Bolsonaro, tiveram postura correta e republicana ao defender as atuais urnas. Ressalte-se, contudo, não ostentarem o estilo expansivo de Alexandre de Moraes, chefe do TSE na eleição de 2022, que promovia busca ativa de publicações de tom antidemocrático nas redes. Com Moraes talvez não passasse incólume, sem a necessária condenação, o discurso de Flávio diante de diplomatas — agora, a representação movida pelo PT contra o senador não teve um despacho sequer de seu relator, Nunes Marques, apesar do pedido de urgência. Dois ministros da Corte disseram, sob anonimato, existir o temor de que a escalada dos ataques possa abrir caminho para algum alucinado pedido de intervenção dos Estados Unidos, ideia no campo da imaginação, da ficção científica. “Pensávamos que este tema estava superado. Agora ele volta, talvez com ingerência externa”, diz um deles. “O movimento tem crescido muito rapidamente de umas semanas para cá”, afirma outro. Há poucos dias, o Brasil negou vistos a dois funcionários da gestão Donald Trump que viriam ao país para produzir um relatório sobre as urnas eletrônicas (leia a reportagem na pág. 28). As campanhas também monitoram a questão. “Temos a obrigação de preservar as regras do jogo”, afirma o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de Lula em São Paulo.

A tentativa de lançar suspeitas sobre o resultado eleitoral não representa uma novidade histórica, mas ganhou uma função pragmática. Segundo Márcio Moretto, professor do Cebrap/USP e coordenador do grupo Monitor da Democracia, ao colocar sob suspeita o processo eleitoral antes mesmo da votação, lideranças conseguem preservar o discurso independentemente do que vier das urnas. Se vencem, mantêm a retórica de que enfrentaram as instituições. Se perdem, transformam a derrota em suposta comprovação de que o sistema estava manipulado desde o início. A pesquisadora Tainah Pereira, doutoranda em economia política internacional pela UFRJ e fellow do Centro de Democracia, Desenvolvimento e Estado de Direito da Universidade Stanford, identifica algo semelhante. “Não existe uma intenção real de convencimento. O que se quer é manter uma polêmica permanente para que as pessoas nunca se sintam completamente seguras de que as regras do jogo estão sendo respeitadas”, afirma.

O papel dos Estados Unidos nesse processo é relevante. Paulo Velasco, professor de política internacional da UERJ, entende que as eleições americanas de 2020, quando Trump foi derrotado por Joe Biden, representam um ponto de inflexão na disseminação do torto discurso. Embora questionamentos sobre resultados já tenham ocorrido em outras disputas — como na controvertida apuração do duelo entre George W. Bush e Al Gore, em 2000, cujo vencedor (Bush) demorou 37 dias para ser conhecido —, foi a ofensiva de Trump que transformou a contestação do modelo eleitoral em estratégia política permanente. Há poucos dias, o americano disse que o sistema de votação do país tem “vulnerabilidades chocantes” e voltou a dizer que venceu em 2020 — foi esse tipo de contestação que levou à invasão por trumpistas do Capitólio, o Congresso americano, em 2021, para impedir a posse de Joe Biden, movimento que seria replicado naquele janeiro de 2023 em Brasília.

A história política do Brasil tem erros, é claro. O país acumula percalços, incluindo uma ditadura que durou mais de duas décadas. Mas se temos alguma contribuição a dar, e temos, ela está na urna eletrônica, usada por 155 milhões de eleitores em 2024, no maior pleito informatizado da história mundial. Os arautos do retrocesso, ao patrocinar absurdas tentativas de ressuscitar o voto impresso, não estão interessados em eleições justas, mas em desestabilizar as instituições, tumultuar a democracia e tirar proveito político. Estão apertando a tecla errada.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006
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