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No que Vorcaro investia ao investir no filme sobre Bolsonaro?

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
17/05/2026
in Opinião
Reading Time: 4 mins read
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“Flávio diz dinheiro privado, mas verba do Master vinha de operações do banco com dinheiro público”

Flávio Bolsonaro primeiro disse que era mentira, confrontado com a informação verídica de que pedira – e levara – dinheiros de Daniel Vorcaro para bancar o filme sobre Jair Bolsonaro. Depois, ante a exposição de suas mensagens pela reportagem do Intercept, teve de admitir a verdade; isso após seis meses de silêncio, omitindo e mentindo sobre suas relações com indivíduo miliciano comprador de burocratas e autoridades.

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Comportamento idêntico ao de Dias Toffoli, para que se compreenda a gravidade da pancada sobre o discurso bolsonarista num ano eleitoral em que o affair Master será o pauteiro dos humores: o ministro que, tendo sido sócio da rede vorcárica no tal hotel, ocultou a sociedade e permaneceu – durante meses – como relator do caso no STF.

A bateção de cabeça bolsonarista foi intensa e pública, com um espetáculo de contradições em redes sociais e a plantação de que não haveria grana de Vorcaro na parada, até que Flávio lançasse mão da versão que ora prospera – a do “contrato de confidencialidade”. Não podia falar sobre as relações com o banqueiro porque impedido formalmente; impedimento que o levaria a mentir, faz dois meses, declarando-se “sem nenhum contato pessoal” com o sujeito.

Um senador da República que subordina o contrato com a democracia representativa, o mandato, a um acordo obscuro entre privados; acordo que produzira o pagamento de cerca de US$ 10 milhões – por meio de empresa-fachada, de um laranja de Vorcaro, metida com suspeitas de lavagem dinheiro para PCC e máfia italiana – a um fundo nos EUA gerido pelo advogado imigratório de Eduardo Bolsonaro. Operação que deixaria imediatamente de ser fedida – sob a desconfiança de que haveria sobras de caixa – com a apresentação dos registros formais do fluxo de remessas-entradas da bufunfa toda, totalmente transferida à produtora do filme. Cadê? Cadê o contrato com Vorcaro? E qual afinal seria o papel dos filhos de Jair na produção?

Não se tratava – nunca se tratou – de filho pedindo dinheiro para produção sobre o pai. Experimentasse você, ferrado, pedir dinheiro a Vorcaro para bancar homenagem a papai. Era um senador da República, filho de ex-presidente e sempre cotado como candidato à Presidência, de qualquer modo alguém influente sobre essa escolha, líder da direita hegemônica; alguém a ser agradado. Vide Ciro Nogueira, de oposição como Flávio Bolsonaro, alguém cujo mandato foi, segundo a Polícia Federal, instrumentalizado a serviço dos interesses vorcáricos.

Estamos ante uma questão ainda – ainda – de natureza político-comunicacional, sob a qual a pergunta decisiva permanece a mesma, alterado apenas o cortejado. O que Vorcaro contratava, ao contratar o escritório de advocacia? O que comprava, ao comprar parte do resort?

Poderá, doravante, Flávio Bolsonaro fazer essas perguntas? Nunca pôde.

No que Vorcaro investia, ao investir no filme?

Existe – a milhão, a muitos milhões – o padrão vorcárico de estabelecimento de relações. Inexiste a hipótese de que alguém acreditasse – em novembro de 2025, à véspera da prisão do tipo, à antevéspera da liquidação do banco – em que o dinheiro “privado” de Vorcaro fosse limpo, proveniente que era de traficâncias com fundos de pensão e da venda de créditos fraudulentos. Todo mundo sabia.

Flávio Bolsonaro – repare – fala como se suas conversas com o cara fossem restritas a dezembro de 2024. Começaram em dezembro de 24; e se intensificaram – viraram íntimas – no curso de 2025, à medida que a situação do Master se degradava, chegando àqueles termos afetivos (“Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”) depois de as investigações sobre o banco se tornaram públicas, o que ocorrera entre agosto e setembro de 25.

Naquele momento, o senador da República deveria ter feito cessar o contrato-contato e revelado a existência do acordo e as razões por que o encerrava. Prevaleceu o homem de negócios e experiente gestor de gabinetes.

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