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Nove anos depois, Trump volta a Pequim como o lado mais fraco

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
12/05/2026
in Opinião
Reading Time: 12 mins read
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Rússia e China vão entrar na guerra do Irã? Como os países foram atingidos pelas ações dos EUA?

Apesar das relações políticas e econômicas com Teerã, tanto Moscou quanto Pequim têm oferecido, até agora, apenas apoio retórico à República Islâmica. Crédito: Imagens: AFP

Donald Trump desembarcará em Pequim nesta semana para a primeira visita de Estado de um presidente americano à China em quase uma década. A viagem anterior havia sido feita por ele mesmo, em 2017, em seus primeiros dias no controle da Casa Branca.

Há 9 anos, Xi Jinping orquestrou para Trump uma visita pra lá de especial, com direito a um jantar privado na Cidade Proibida, um desfile pela Praça da Paz Celestial, uma cerimônia no Grande Salão do Povo e US$ 250 bilhões em acordos anunciados.

Agora, a relação parece ter se invertido. Xi recebe Trump convencido de que o Ocidente está em declínio.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumprimenta o presidente da China, Xi Jinping, em Busan, na Coreia do Sul Foto: Mark Schiefelbein/AP

Essa inversão é o ponto de chegada de um movimento que vinha sendo construído havia duas décadas.

Em setembro de 2005, Robert Zoellick, número 2 do Departamento de Estado do governo Bush, proferiu um discurso emblemático, que formularia a doutrina americana na China nos anos seguintes. Zoellick defendeu que a China havia emergido e se juntado ao mundo; e que era hora de empurrá-la a se tornar um “responsible stakeholder” do sistema internacional.

Havia três premissas otimistas para Washington:

1. o sistema era americano e permaneceria americano;

2. a China aceitaria operar dentro dele;

3. o crescimento econômico chinês acabaria produzindo liberalização política.

As três premissas falharam categoricamente. E o segundo mandato de Trump representa uma ruptura nessa trajetória.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumprimenta o presidente da China, Xi Jinping, em Busan, na Coreia do Sul Foto: Mark Schiefelbein/AP

A visita de Trump a Pequim, nesse momento, ocorre após o presidente americano atacar repetidamente o sistema internacional desenhado pelos próprios americanos.

No ano passado, Washington anunciou a retirada de diferentes agências da ONU e do seu Conselho de Direitos Humanos. Iniciou o desligamento da OMS, aprofundou a paralisia da OMC e abandonou, na nova Estratégia de Segurança Nacional, a expressão “ordem internacional baseada em regras”.

Há cinco meses, um memorando presidencial ampliou, em Washington, a retirada de tratados e convenções que, segundo o governo, contrariam os interesses americanos.

A isso precisamos acrescentar a sequência de movimentos contra aliados históricos – como canadenses, mexicanos e europeus – e o voto contra a resolução da ONU que condenava a invasão russa na Ucrânia.

Trump faz a presidência mais pró-Moscou da história americana – e a menos pró-União Europeia.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assina uma ordem executiva no Salão Oval da Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/AP

A cúpula dessa semana estava marcada para o início de abril. Foi adiada por causa da guerra no Oriente Médio. Em fevereiro deste ano – como acompanhamos nas páginas do Estadão – Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, matando o líder supremo do regime, Ali Khamenei. Teerã respondeu fechando, na prática, o Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos retaliaram bloqueando os portos iranianos. O resultado foi a maior interrupção da história do mercado global de petróleo.

O presidente da China, Xi Jinping, participa de uma reunião no Grande Salão do Povo, em Pequim Foto: Maxim Shemetov/AP

As terras raras são um grupo de minerais sem os quais simplesmente não se fabrica tecnologia militar moderna. Estão no caça F-35, nos submarinos americanos de propulsão nuclear, nos mísseis de cruzeiro, nos drones de combate, nos radares. A China extrai 60% das terras raras do mundo e, mais importante, refina mais de 90%. Os Estados Unidos importam 70% das suas terras raras da China. É uma dependência que ninguém reverterá no curto prazo.

Em outubro do ano passado, Pequim apertou o parafuso, editando novas regras de exportação – as mais severas até então – virando contra Washington uma manobra jurídica que os próprios americanos haviam criado, anos antes, para travar a venda de chips à China. Trump retaliou a decisão como sabe: com tarifa.

Numa única sexta-feira, os mercados americanos perderam 2 trilhões de dólares. Até que o presidente americano recuou: aceitou reduzir as tarifas em troca da suspensão, por um ano, das restrições chinesas – suspensão que vai até o próximo mês de novembro.

Como ler esse momento? Os paralelos com a Guerra Fria, hoje dominantes no debate americano sobre a China, dão conta apenas de uma parte do que se passa. A ferramenta analítica mais útil vem, ironicamente, do mesmo homem que desenhou a abertura americana à China na década de 1970.

O presidente da China, Xi Jinping, acena ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, antes de uma cúpula em Busan, na Coreia do Sul Foto: Mark Schiefelbein/AP

Antes de se tornar estrategista da Casa Branca, Henry Kissinger defendeu em Harvard uma tese de doutorado sobre o Congresso de Viena de 1815 – a reunião em que as monarquias europeias, depois da derrota de Napoleão, tentaram reconstruir a ordem internacional que a Revolução Francesa havia abalado. O argumento que Kissinger desenvolveu no livro é uma das ferramentas mais úteis da teoria das relações internacionais.

Kissinger distingue dois tipos de estadista.

O primeiro aceita a ordem internacional existente como legítima e atua dentro dela. É o estadista que negocia, realiza concessões e busca o equilíbrio.

O segundo tipo rejeita essa legitimidade e atua para refundar o sistema. É Napoleão, no livro. E é, em outros lugares e momentos, qualquer líder que considere a ordem vigente uma armadura a ser quebrada.

A tese central de Kissinger é contraintuitiva. A estabilidade do sistema internacional, ele argumenta, não depende de paz. Depende de que as grandes potências aceitem a legitimidade do sistema. Quando uma potência se converte em revolucionária – quando passa a achar que a ordem é ilegítima e precisa ser substituída – o sistema entra em crise, mesmo quando não há uma guerra aberta.

O sintoma da estabilidade é a espontaneidade com que se opera dentro das regras; o sintoma da crise é a consciência aguda de que aquelas regras são apenas um arranjo, e um arranjo que inevitavelmente será desfeito.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com jornalistas no Salão Oval da Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/AP

Os critérios de Kissinger se aplicam a Trump com uma precisão cirúrgica. O que Trump deseja não é uma competição entre grandes potências. É um conluio entre grandes potências – um “concerto” parecido com aquele que governou a Europa do século 19, em que algumas poucas nações dividiam o mundo entre si e impunham as suas vontades ao resto. Um mundo administrado por homens fortes que trabalham juntos não para preservar regras, mas para impor uma visão compartilhada sobre os demais. A lei da selva.

Por isso, Trump é inegavelmente um revolucionário. Talvez o maior, desde a fundação desse país.

E Xi? Xi não ocupa um papel diferente.

Os dois são revolucionários: um pela negação do sistema, outro pela construção de uma arquitetura paralela que, no limite, tem grandes chances de substituí-lo.

A configuração desse momento é, portanto, inédita. Dois revolucionários sendo empurrados pela própria estrutura material do mundo – terras raras, semicondutores, petróleo, Ormuz – a co-administrar o sistema que ambos rejeitam.

Saiba mais

A cúpula dessa semana certamente produzirá acordos. Haverá anúncios sobre o tráfico de fentanil, sobre o ritmo das restrições às terras raras, talvez sobre a estabilização do Estreito de Ormuz. A coreografia chinesa será impecável. Trump voltará a Washington dizendo que foi a maior cúpula da história.

O paradoxo é que a estrutura material do mundo – a mesma que empurra Trump a Pequim e Xi a recebê-lo – impõe um regime de cooperação tática a dois projetos de fundo incompatíveis, enquanto os dois lados já trabalham, em paralelo, para tornar o outro dispensável.

Por isso, na China, nesta semana, não se enterrará apenas uma doutrina americana que pautou o século 21 até aqui. Será inaugurada a primeira tentativa de gerir conjuntamente um sistema internacional por dois líderes que não acreditam nele.

Eis um experimento sem precedente moderno.

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