O Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo, caracterizado pela deterioração das funções cognitivas e da memória, pelo comprometimento das atividades cotidianas e por uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos e alterações comportamentais. Trata-se de um quadro cuja incidência deve aumentar no Brasil e em todo o mundo devido ao envelhecimento acelerado da população.
Segundo a Alzheimer’s Association, as mudanças cerebrais relacionadas à doença têm início anos antes dos primeiros sintomas aparecerem. A neurologista Letizia Borges, especialista em cognição e comportamento do Hospital Sírio-Libanês, conta que esse processo pode se desenvolver de forma silenciosa por até 25 anos antes de qualquer manifestação clínica.
Ainda de acordo com ela, depois de instalada, a doença pode ser dividida em três estágios: leve, moderado e avançado. Apesar disso, a médica pondera que os períodos não são muito bem divididos, já que uma fase vai se misturando com a outra.
Confira, a seguir, as principais características de cada etapa.

Uma das características mais conhecidas do Alzheimer é a perda progressiva de memória Foto: 1STunningART/Adobe Stock
Fase leve
Nesse estágio, explica Letizia, há uma dificuldade com a memória recente. “A pessoa começa a apresentar esquecimentos de fatos que acabaram de acontecer e apresenta uma certa confusão com datas e localização. Ela pode, por exemplo, se perder em um bairro conhecido, não se lembrar do que fez no último final de semana ou repetir várias vezes a mesma pergunta sem perceber.”
“Outra coisa comum é a dificuldade para encontrar palavras durante uma conversa, como se ‘desse um branco’. Além disso, a gente nota mudanças no comportamento: a pessoa pode ficar mais irritada, triste ou mais quieta, apática”, adiciona.
Mas são sinais sutis, que podem ser confundidos (inclusive por profissionais da saúde) com desatenção, cansaço e até comportamentos comuns do envelhecimento. Daí porque é tão difícil diagnosticar a doença de forma precoce.
Letizia reconhece que se esquecer das coisas é algo normal. O problema é quando os esquecimentos passam a ocorrer de forma frequente e começam a atrapalhar a rotina. “Nesses casos, o ideal é não esperar: vale procurar um médico o quanto antes para avaliar o que está acontecendo”, sugere a médica.
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Fase moderada
É geralmente a mais longa e pode durar muitos anos. “Na fase moderada, geralmente há alterações de humor, transtorno de ansiedade, depressão ou mudanças de comportamento”, descreve a neurologista. Também é nesse período que as tarefas cotidianas se tornam mais difíceis e até mesmo perigosas. O indivíduo pode ter dificuldade para realizar a higiene pessoal sozinho ou esquecer o fogão aceso, por exemplo. Por conta disso, a necessidade de supervisão tende a ser maior.
“Nessa fase, os principais desafios são a segurança”, afirma a neurologista Elise de França Resende, coordenadora do Departamento Científico de Cognição e Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). “A terapia ocupacional entra nessa fase para orientar os familiares sobre quais atividades o paciente pode fazer, até para não tirar totalmente a sua autonomia.”
Entre os problemas comuns nesse período estão a resistência do paciente em aceitar um cuidador e também o sentimento de culpa dos familiares ao precisar contratar alguém para essa função, como se a responsabilidade fosse exclusivamente deles. O cuidado, no entanto, é essencial.
“Além de acompanhamento médico com neurologista e outros médicos especialistas em Alzheimer, o cuidado envolve uma equipe maior: fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e apoio psicológico, principalmente para o cuidador. Tudo isso pode gerar custos elevados, o que pesa financeiramente para a família”, pontua Letizia.
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Fase avançada
Também chamada de fase grave, é uma etapa em que o indivíduo tende a ficar cada vez mais dependente para a realização de atividades básicas do dia a dia. “Por exemplo, o paciente já não vai mais ao banheiro sozinho, faz uso de fraldas, não consegue se alimentar, começa a ter engasgos. Às vezes, não consegue se locomover. A fala e a linguagem também ficam muito limitadas”, explica Elise.
Nesse momento, o foco do cuidado tende a ser garantir conforto e dignidade para o paciente. “É uma fase muito desafiadora e surgem decisões difíceis, como assumir a parte financeira e legal da vida do paciente. E isso pode gerar desgaste emocional e até conflitos entre os familiares”, cita Letizia.
“Por isso, o suporte à família é essencial, assim como conversar sobre decisões de fim de vida com antecedência, algo que ainda é um tabu no Brasil. No fim, o objetivo é cuidar do idoso com humanidade, com apoio emocional e espiritual, já que ele ainda está vivo e deve ter seus valores e crenças respeitados até o fim”, defende a neurologista do Sírio-Libanês.
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