A dor da ausência ainda ecoa em cada canto da casa da pequena Hannah Julia Romeiro Nolasco, de apenas 8 anos. Quase um mês após a morte da menina, a mãe, Sara Romeira, tenta encontrar forças para transformar o luto em luta por justiça.
Muito emocionada, ela lembrou para reportagem quem era a filha além dos corredores das unidades de saúde onde passou seus últimos dias: uma criança alegre, sonhadora e cheia de vida.
“Ela era a alegria da nossa casa, agora está vazia, sem cor. Meu mundo desabou”, desabafou Sara. Segundo a mãe, Hannah gostava de dançar, brincar, fazer estrelinha e sonhava em praticar ginástica. Também adorava pintar e passar o tempo jogando no tablet. “Ela queria ser policial comigo e médica com o pai dela”, contou emocionada.
A menina completaria 9 anos no último dia 13 de maio. Sara já preparava os presentes que a filha tanto queria, uma bicicleta e uma bebê reborn. “Ela tinha aprendido a andar de bicicleta aqui e queria muito uma”, relembrou.
Entre lágrimas, a mãe descreve o vazio deixado pela filha. “Metade de mim foi junto com ela. Procuro ela todos os dias, sinto o cheiro dela, ouço as risadas dela pela casa. É uma coisa que não sei explicar em palavras”, afirmou.
Sara também relembra uma frase repetida diariamente entre as duas. “Eu falava: ‘Te amo de coração, minha querida’. E ela respondia igualzinho. Ela sabia o quanto era amada”, disse.
A mãe acredita que, junto com a filha, também perdeu sonhos. “Naquele dia, naquela UPA, meus sonhos morreram junto com a minha pequena”, lamentou.
Relembre o caso
A morte de Hannah gerou revolta na família, que acusa unidades de saúde de Campo Grande de negligência médica. Segundo os relatos, a menina passou diversas vezes pelo CRS Coophavilla II e pela UPA Leblon sem receber um tratamento considerado adequado pelos pais.
Tudo começou no dia 24 de abril, quando Hannah apresentou febre alta e sintomas gripais. A mãe procurou atendimento no CRS Coophavilla II, onde a menina passou por consulta, fez exame de sangue e recebeu encaminhamento para medicação intravenosa. Porém, devido à lotação no setor de medicação, a família acabou retornando para casa após administrar dipirona com autorização médica.
Nos dias seguintes, Hannah apresentou melhora momentânea, mas voltou a piorar na segunda-feira (27), com tosse intensa e vômitos. Na UPA Leblon, conforme a família, um médico diagnosticou influenza e receitou medicamentos, orientando repouso domiciliar.
Na terça-feira (28), o estado da criança se agravou. Hannah passou a apresentar vômitos constantes, lábios arroxeados, palidez e dores pelo corpo. A mãe retornou à unidade de saúde, onde uma pediatra solicitou novos exames e medicação. Mesmo assim, após o atendimento, a menina foi liberada novamente.
Horas depois, durante a madrugada, a situação ficou ainda mais grave. Sara relata que Hannah reclamava de dores na nuca, braços e pernas, além de não conseguir dormir. Na terceira ida à UPA Leblon, segundo a mãe, a filha já estava extremamente debilitada.
A família afirma que houve demora no atendimento e dificuldade para conseguir medicação e vaga para observação. Em determinado momento, Hannah teria começado a sofrer falta de ar enquanto ainda aguardava atendimento adequado.
“Ela puxou o ar e não achou. Virou o olhinho e endureceu nos meus braços”, relembrou a mãe. A criança foi encaminhada para a emergência já em parada cardiorrespiratória, mas não resistiu.
O caso foi registrado inicialmente como morte natural. A família informou que busca responsabilização sobre o atendimento prestado à menina e já acionou um advogado.
Natural de Corumbá, Hannah morava há cerca de cinco meses em Campo Grande com os pais e a irmã.
A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande para comentar o caso, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.
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