Rússia avança no sul da Ucrânia enquanto intensifica os ataques na linha de frente
Outras cidades, na região nordeste de Kharkiv na Ucrânia, também testemunharam recentemente um aumento nos combates. Crédito: CENTER FOR INTERNATIONAL COMMUNICATIONS OF UKRAINE
Nessa terça-feira, o enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, está em Moscou, ao lado do genro do presidente americano, Jared Kushner, sob a justificativa de negociar os termos do fim da guerra na Ucrânia.
Na semana passada, a Bloomberg publicou transcrições de um telefonema vazado entre ele e Yuri Ushakov, conselheiro de política externa de Putin. A conversa, gravada em outubro, revelou que Witkoff orientou o Kremlin sobre como lidar com o governo americano nesse processo. Entre outras coisas, ele sugeriu a elaboração de uma “proposta de paz” – um plano genuinamente russo embalado como americano.
A postura gerou desconfiança sobre os seus vínculos com o país – que vão bem além do fato dele ser descendente de russos.
Afinal, o que há de documentado sobre a relação de Witkoff com a Rússia? A resposta parece passar por três camadas: o ambiente em que ele enriqueceu, os sócios que escolheu e a forma como fala de Moscou desde então.

O enviado do presidente russo Vladimir Putin, Kirill Dmitriev, conversa com o enviado do presidente americano Donald Trump, Steve Witkoff, em São Petesburgo Foto: Vyacheslav Prokofyev/AP
Até o início desse ano, Steve Witkoff jamais havia ocupado qualquer função oficial na diplomacia ou em qualquer instância do governo americano. A razão por que ele foi empossado “Enviado Especial para Missões de Paz”, no governo Trump, não tem relação com qualquer experiência profissional. Foi, antes, um gesto de confiança pessoal do presidente americano, fruto de uma lealdade cultivada ao longo de décadas de convivência entre os dois no mesmo ecossistema: o mercado imobiliário de Nova York.
Witkoff emergiu no setor num daqueles momentos transitórios da história: os anos 1980, quando, por trás dos novos arranha-céus de Manhattan, havia dinheiro novo na cidade – discretamente embalado por intermediários, passaportes e um colapso político a quase 8 mil quilômetros dos Estados Unidos.
Quando a União Soviética entrou em ruína, esse movimento abriu caminho para uma nova elite financeira; homens que, da noite para o dia, transformaram ativos do Estado em fortunas colossais. E muitos desses novos-ricos escolheram Nova York como destino para esse dinheiro. Parte disso porque comprar apartamentos na cidade não era apenas um símbolo de status, mas de segurança contra a instabilidade russa. Mas também porque a cidade oferecia excelentes condições para que esses oligarcas lavassem dinheiro em seus imóveis de luxo.
Foi nesse ambiente que Witkoff construiu a sua fortuna – primeiro como advogado imobiliário, e então investindo nos arranha-céus da cidade. Também foi nesse cenário que ele virou amigo de Donald Trump.

O enviado especial do governo Trump, Steve Witkoff, participa de uma reunião com uma delegação ucraniana em Genebra Foto: Martial Trezzini/ AP
Poucas figuras ilustram melhor esse período do que Len Blavatnik.
Nascido na União Soviética, Blavatnik se mudou para os Estados Unidos no final dos anos 1970, onde, no fim dos anos 1980, criou a holding Access Industries. Nos anos 1990, aproveitando a desintegração do Estado soviético, a Access comprou um volume enorme de ativos russos colocados à venda por valores irrisórios – de usinas de alumínio a empresas de energia.
Em parceria com outros magnatas, Blavatnik ajudou a formar a TNK-BP, uma gigante do petróleo que, em 2013, foi absorvida pela estatal russa Rosneft. Quando o negócio foi fechado, ele e os sócios embolsaram dezenas de bilhões de dólares. Mas parte importante desse dinheiro nunca chegou à Rússia porque a Access Industries virou uma máquina de aquisição de hotéis, torres residenciais e resorts, em diferentes cidades do mundo.
Nos Estados Unidos, essa expansão encontrou terreno fértil nas parcerias com o Witkoff Group, em empreendimentos como o One High Line, em Manhattan, o Banyan Cay, em West Palm Beach, e o Ocean Terrace, em Miami Beach.
Há um mês, Witkoff e o bilionário russo Kirill Dmitriev, enviado especial da Rússia, se reuniram no Faena Hotel, em Miami, sob a justificativa de discutir o fim da Guerra na Ucrânia. O hotel é controlado pela Access Industries.
Outro elo de conexão de Witkoff com a Rússia é o americano Stephen Schwarzman, o homem que transformou a Blackstone em um dos maiores impérios de private equity do mundo.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, cumprimenta o enviado especial do governo Trump, Steve Witkoff, em Moscou Foto: Gavriil Grigorov/AP
Em 2011, quando o Kremlin criou o Russian Direct Investment Fund (RDIF) para atrair capital estrangeiro sob a promessa de “modernizar” a economia do país, Schwarzman aceitou um assento no seu conselho consultivo. Kirill Dmitriev é o diretor-executivo do fundo.
Por anos, o RDIF vendeu ao mundo a imagem de uma Rússia aberta a negócios. Foi só em 2022, quando tanques russos avançaram sobre a Ucrânia, que o Tesouro dos Estados Unidos passou a descrever oficialmente o fundo como um “caixa-dois” de Vladimir Putin, uma fonte de corrupção que ajudou a tornar o presidente russo num dos chefes de Estado mais ricos do mundo.
A mesma Blackstone que um dia garantiu respeitabilidade ao fundo soberano russo reapareceu, em 2015, na vida de Witkoff, aprovando um empréstimo de US$ 320 milhões para refinanciar a ala de escritórios do Woolworth Building – o arranha-céu construído em 1913 que Steve Witkoff transformou numa peça central do seu portfólio imobiliário. Quando a dívida chegou ao vencimento, nesse ano, a Blackstone voltou a aparecer, oferecendo um novo financiamento de US$ 278,9 milhões para manter o edifício de pé, mesmo diante da crise no mercado de escritórios em Nova York.
Nas últimas décadas, Witkoff também se envolveu com personagens mais obscuros da economia subterrânea russa.
O caso mais emblemático veio a público em 2013, quando se descobriu que ele havia estendido a mão a uma figura que frequentava os círculos mais reservados da elite pós-soviética de Nova York: um homem chamado Anatoly Golubchik.

O enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, participa de um fórum em Miami Foto: Chandan Khanna/AFP
Em dezembro de 2010, Witkoff assinou uma carta, endereçada ao conselho de um dos condomínios mais exclusivos da Madison Avenue, apresentando Golubchik não apenas como um conhecido, mas como um “amigo” de caráter impecável – alguém digno de ocupar um apartamento de US$ 5 milhões entre vizinhos exigentes.
Dois anos depois, Golubchik foi indiciado por comandar uma estrutura milionária de jogos ilegais, lavagem de dinheiro e extorsão, operada sob o guarda-chuva do mafioso soviético Alimzhan Tokhtakhunov – mais conhecido como Taiwanchik (que chegou a ficar na 5ª posição na lista dos mais procurados do FBI).
Em abril de 2013, duas redes de jogos de azar que Taiwanchik dirigia foram descobertas pelo FBI no 63º andar da Trump Tower, em Nova York. O mafioso conseguiu fugir dos Estados Unidos a tempo para evitar ser processado.
Quando o caso veio à tona, as autoridades americanas confiscaram propriedades adquiridas com o dinheiro do esquema – não só o duplex da Madison Avenue, onde Witkoff havia apresentando Golubchik como um “amigo”, mas três unidades da rede de Trump em que a operação ocorria (duas em Nova York e uma em Sunny Isles Beach, na Flórida).
Nos últimos anos, Witkoff também chamou a atenção por defender a narrativa do Kremlin em diferentes ocasiões.

O enviado especial do governo Trump, Steve Witkoff, participa de uma reunião com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, em Washington Foto: Alex Brandon/AP
Em 2018, por exemplo, ele se posicionou publicamente contra as sanções americanas impostas à Rússia pela ocupação da Crimeia. E nos anos seguintes, chegou a sugerir que a invasão russa de 2022 “não foi necessariamente iniciada pela Rússia” – para Witkoff, foi a expansão da Otan a responsável por ter “provocado o conflito”. Ele também defendeu que “a maioria dos ucranianos do leste quer viver sob domínio russo”.
Witkoff também tem uma coleção de elogios públicos a Vladimir Putin – quem considera um “cara excelente” e “super inteligente”. Ele revelou que, após o atentado contra Trump na campanha presidencial de 2024, Putin disse ter “rezado por seu amigo Donald Trump”, e presenteado Trump, através dele, com um quadro.
É claro que nada disso significa que Steve Witkoff seja um agente russo infiltrado na Casa Branca. O que a sua trajetória mostra é que, ao longo de quatro décadas, Witkoff se moveu exatamente nos cruzamentos em que o dinheiro do Kremlin, os oligarcas pós-soviéticos, os operadores da economia subterrânea e a elite imobiliária americana se encontraram – e muitas vezes se confundiram.
Não é uma coincidência que, quando Moscou precisa de um interlocutor com Trump, ele aparece no telefone, em reuniões em hotéis de luxo e em viagens oficiais vendidas como missão de paz. Witkoff está no radar dos russos há muitos anos.
Quando alguém com esse histórico se senta à mesa, em Moscou, para “negociar o fim da guerra”, a pergunta óbvia deixa de ser se ele consegue arrancar concessões da Rússia, mas que tipo de paz exatamente ele está procurando.
Seja qual for a sua bandeira, ela é a mesma de Trump. A tentativa de vender o presidente americano como um “homem bem-intencionado cercado por alguns maus conselheiros” é apenas uma versão americana de algo que os russos conhecem há séculos como good tsar, bad boyars: quando toda decisão acertada é mérito do líder e todo desastre é culpa da elite administrativa.
Só acredita que Witkoff é diferente de Trump quem escolhe acreditar em propaganda. Diante da conversa vazada com o Kremlin, Trump não demonstrou o menor grau de irritação. Pelo contrário: saiu em defesa do enviado e o convocou a voltar a Moscou.
No fim, Witkoff age exatamente como fez para chegar ao cargo que ocupa – como um homem leal, antes de tudo, ao amigo que conhece há 40 anos.
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