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Como Trump está fazendo fortuna na presidência americana

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
14/10/2025
no Opinião
Tempo de leitura:16 minutos de leitura
21
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Trump diz que gostou da conversa com Lula ao telefone

Presidentes dos EUA e do Brasil tiveram diálogo nesta segunda. Crédito: Casa Branca

Ninguém jamais fez tanto dinheiro na presidência americana.

Segundo a Forbes, só nesses primeiros dez meses do segundo mandato, a fortuna combinada da família Trump praticamente dobrou, alcançando quase US$ 10 bilhões – um enriquecimento sem precedentes na história política dos Estados Unidos.

Diferentes membros da família – Donald, seus filhos Donald Jr, Eric e Barron, e o genro Jared Kushner – acumularam fortunas significativas no período, em uma série de negócios envolvidos em suspeitas.

O presidente viu a sua fortuna pessoal disparar desde a campanha. Nesse momento, segundo a Forbes, o seu patrimônio é estimado em US$ 7,3 bilhões, um salto de 70% em relação ao ano anterior à eleição. Trump nunca foi tão rico.

Esse crescimento meteórico se deve em grande parte à entrada da família no universo das criptomoedas, uma posição bastante incomum para o chefe de Estado de um país desenvolvido – sobretudo quando estamos falando de um chefe de Estado que já defendeu que o mercado cripto “parece scam”.

Em 2019, Trump chegou a tuitar que não era “fã de bitcoin e outras criptomoedas”, “cujo valor é altamente volátil e baseado no nada” e que “ativos cripto não regulados podem facilitar comportamentos ilícitos”.

Tudo mudou na campanha de 2024, sob influência dos filhos – sobretudo do caçula, Barron.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa no Salão Oval da Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/AP

Em setembro, poucas semanas antes da eleição, Trump promoveu com estardalhaço, numa live, a criação de uma empresa de criptomoedas chamada World Liberty Financial, lançada em sociedade com os filhos. A promessa da família era “libertar” os americanos do sistema bancário tradicional mediante uma estrutura de finanças descentralizadas (DeFi) com um token nativo – o $WLFI.

Se você não está acostumado com os jargões do meio, pense o seguinte: no sistema financeiro normal, tudo passa por intermediários – bancos, corretoras, governos. Quando você pega um empréstimo, alguém precisa aprovar, analisar o seu histórico, e cobrar juros. Quando investe, há instituições guardando e movimentando o seu dinheiro. Com uma estrutura de finanças descentralizadas, a promessa é que tudo isso aconteça sem intermediários, através de um ecossistema de aplicações financeiras construídas em blockchain.

Na prática, o modelo tenta imitar um banco, mas sem o banco. O blockchain substitui os gerentes, os contratos são automáticos e o “mercado” decide quem ganha, quem perde e quanto vale cada ativo. E nesse contexto, o token WLFI é uma espécie de “moeda” que move todo o ecossistema da World Liberty Financial.

A filha do presidente Donald Trump, Ivanka, participa de uma cúpula em Sharm el-Sheikh ao lado de seu marido, Jared Kushner Foto: Yoan Valat / AP

O problema é que esse tipo de sistema vive numa zona cinzenta entre a tecnologia e a especulação. Quando Trump anunciou a WLFI, o seu discurso era o da liberdade financeira, mas os incentivos do negócio são os mesmos que movem muitas das criptomoedas: a crença de que o valor de um token crescerá à medida que mais pessoas passarem a acreditar nele. Ou seja: é mais fé do que matemática financeira. E adivinha quem controla bilhões desses tokens? Pois é.

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Trump vendeu a WLFI como uma revolução – mas, no fundo, só digitalizou o que sempre fez: um império baseado na marca Trump e na promessa de que investir nele é apostar no futuro.

Com a vitória na eleição, investidores ligados à família e a grupos estrangeiros passaram a despejar milhões de dólares no token. E em março, com o líder do clã já ocupando a presidência, a WLFI anunciou uma nova ambição: lançar uma stablecoin chamada USD1. Foi nesse momento que a porteira que separa o interesse público e privado ficou escancarada.

Empresas ligadas a Abu Dhabi compraram US$ 2 bilhões em USD1 para operações em uma corretora de criptomoedas chamada Binance. O fundador da Tron, o chinês Justin Sun – investigado pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos por manipulação de mercado e uso de celebridades para promover criptomoedas suspeitas – apareceu como parceiro estratégico do projeto, pouco depois de ver as suas investigações serem congeladas pelo Departamento de Justiça.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caminha ao lado do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, e dos chanceleres de Bahrein e Emirados Árabes Unidos, em Washington Foto: Alex Brandon/AP

A coincidência é tão grotesca que ninguém nunca tentou parecer coincidência.

Mas o problema não termina aí.

Cada vez que alguém compra um USD1, a empresa promete guardar um dólar “de verdade” num fundo seguro. Só que esse dinheiro guardado não fica parado – ele é investido em títulos do governo americano, que rendem juros.

O problema é que esses juros não vão para o cidadão que comprou o USD1. O lucro vai todo para a empresa que criou a moeda, a World Liberty Financial, e para a empresa parceira que cuida do dinheiro, chamada BitGo. Ou seja: você compra a moeda achando que está apenas trocando um dólar por outro, mas, na prática, está emprestando o seu dinheiro para eles lucrarem com os juros.

E por que isso importa? Porque a família Trump é dona majoritária da WLF. Eles têm direito à maior parte do lucro – cerca de 60% das ações e até 75% do dinheiro que entra com as vendas dos tokens. Isso quer dizer que, quanto mais gente comprar o “dólar do Trump”, mais dinheiro a família ganha.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa na Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/AP

O conflito nasce do fato que o presidente dos Estados Unidos é quem indica o chefe do Federal Reserve – o banco central que define a taxa de juros no país. Ou seja: a mesma pessoa que influencia o valor dos juros americanos tem a sua família lucrando diretamente com os rendimentos desses juros, por meio de uma moeda privada que se apresenta como um “novo dólar”.

O que significa que o presidente dos Estados Unidos criou um império financeiro paralelo protegido pelo seu próprio governo.

E a WLFI não foi o seu único empreendimento no ramo. Dias antes de tomar posse, em janeiro, Trump também lançou duas memecoins – os tokens $TRUMP e $MELANIA.

Uma memecoin é, em essência, uma moeda digital criada mais como uma piada, ou uma ação de marketing, do que um ativo com uma função financeira real. Essas “moedas” normalmente não têm lastro, nem utilidade. O valor delas vem quase inteiramente da fé coletiva de que outras pessoas desejarão comprá-las no futuro.

A primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, discursa na Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/AFP

Quando foram lançadas, as memecoins de Trump inicialmente dispararam – $TRUMP chegou a ser cotada a US$ 75 por unidade – e então caíram, para depois voltarem a subir assim que o presidente anunciou que os maiores compradores de $TRUMP ganhariam um jantar exclusivo com ele. Ou seja: Trump essencialmente leiloou acesso privilegiado à presidência dos Estados Unidos em troca de investimentos em sua criptomoeda.

Os 220 maiores investidores de $TRUMP foram premiados com convites para um banquete privado no clube de golfe dele, e os 20 maiores garantiram um encontro VIP com Trump.

Muitos desses grandes compradores usaram bolsas de criptomoedas no exterior (inacessíveis a usuários dos Estados Unidos), o que sugere que grande parte deles não eram americanos (só o chinês Justin Sun – citado anteriormente – foi identificado como dono de uma carteira com mais de US$ 18 milhões em $TRUMP).

Para mascarar o envolvimento direto do presidente, o token $TRUMP não foi emitido no nome dele, mas por duas empresas de fachada – a CIC Digital LLC (ligada à Trump Organization) e a Fight Fight Fight LLC – que detêm 80% de todo o estoque de $TRUMP.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, posa para uma foto ao lado do chanceler da Arábia Saudita, o príncipe Faisal bin Farhan Al Saud, em Shark el-Sheikh, no Egito Foto: Yoan Valat/AFP

Hoje, 40% do patrimônio de Trump é composto de participações em criptomoedas e empresas do ramo. Trump se transformou num dos maiores investidores individuais do segmento no planeta.

Desde que foi eleito, o seu governo vem flexibilizando significativamente o ambiente regulatório do setor. O Departamento de Justiça chegou a encerrar a sua unidade especial de combate a fraudes em cripto. Trump também indicou aliados pró-cripto para postos-chave, como um novo presidente da Comissão de Valores Mobiliários simpático às reivindicações do setor – nesses meses, a agência suspendeu investigações contra uma dúzia de empresas de criptomoedas.

Trump virou um presidente que não só opera centenas de milhões de dólares numa indústria em que exerce imensa influencia, como também regula o setor.

Diferentes episódios também indicam uma relação pouco republicana dele com governos estrangeiros. Por exemplo: nesse ano, a Casa Branca afrouxou as restrições na exportação de tecnologias avançadas de IA para os Emirados Árabes Unidos, uma decisão de segurança nacional bastante controversa.

Paralelo a isso, como já citado, autoridades emiratis investiram US$ 2 bilhões em USD1 por meio da empresa MGX. Dois altos funcionários de Trump ligados a essa decisão – David Sacks (o czar de cripto na Casa Branca) e Steve Witkoff (enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio) – tinham interesses financeiros diretos no acordo: Sacks gerencia um fundo de venture capital abastecido por dinheiro de Abu Dhabi que investe na infraestrutura do USD1; Witkoff (e seu filho) atuaram diretamente na costura do investimento e mantêm participação na WLF.

Trump também vem sendo acusado de usar informações privilegiadas para aumentar a fortuna da família.

Na última sexta-feira, ele anunciou uma tarifa extra de 100% sobre as importações chinesas, além de restrições a exportações de tecnologia sensível, mencionando explicitamente semicondutores e softwares de inteligência artificial.

Trump fez o anúncio depois do fechamento regular de Wall Street, por volta das 16h15 (no horário de Nova York). Como as bolsas americanas estavam fechadas, não havia válvula de escape disponível nos mercados tradicionais. Nenhum índice foi capaz de reagir, nenhuma ação pode ser vendida – o que fez do Bitcoin e do Ethereum os únicos ativos líquidos negociados globalmente naquele momento.

O enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, escuta o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Parlamento israelense, em Jerusalém Foto: Evan Vucci/AFP

Em minutos, investidores, aos montes, se desfizeram de cripto como proxy de risco. O preço do Bitcoin despencou fazendo US$ 19 bilhões evaporarem num estalar de dedos – a maior queda em dólar da história da criptomoeda.

O timing do anúncio parece ter sido planejado para atingir especificamente o setor.

Analistas notaram que, minutos antes do anúncio, algumas carteiras abriram posições vendidas (ou seja, apostando na queda do Bitcoin) bastante atípicas, com valores muito altos – e com esse movimento, esses investidores lucraram, em estimativas preliminares, entre US$ 80 e US$ 160 milhões. Há indícios de que uma dessas contas foi criada na própria sexta-feira, minutos antes do anúncio.

Por incrível que pareça, ao contrário de qualquer funcionário do governo, o presidente americano não está inteiramente sujeito às regras penais de um eventual crime de conflito de interesse. A legislação americana não foi pensada para um presidente com tantos negócios comerciais na Casa Branca.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chega a Casa Branca depois de uma passagem pelo Oriente Médio Foto: Mark Schiefelbein/AP

Por isso, o caminho está aberto para o enriquecimento acelerado da família. E ele está acontecendo à luz do dia, sem cerimônia.

Donald Trump Jr, o filho mais velho, viu o seu patrimônio saltar dos US$ 50 milhões, antes da eleição de 2024, para os atuais US$ 500 milhões. Ele foi peça-chave na fundação da World Liberty Financial.

Eric, o filho do meio, seguiu os mesmos passos. Em menos de um ano, ele saltou de um patrimônio de US$ 40 milhões para os atuais US$ 750 milhões. Entre as suas conquistas no período está cofundar, em março de 2025, a empresa American Bitcoin, uma operação de mineração de bitcoin em larga escala.

Barron, o caçula, sem qualquer histórico profissional prévio, já tem uma fortuna avaliada em US$ 150 milhões (maior que o patrimônio de sua mãe, Melania). O adolescente praticamente abriu as portas desse universo para o pai, e agora colhe os frutos ao lado dele e dos irmãos mais velhos.

Barron Trump, o filho mais novo do presidente americano Donald Trump, participa de um evento em Washington  Foto: Kenny Holston/AFP

É claro que os negócios da família não estão presos ao mercado cripto. Há outros conflitos de interesse gritantes em jogo na presidência americana, em diferentes setores – Trump transformou a Casa Branca no seu balcão de negócios, não apenas barganhando acordos públicos que melhoram o status da sua família, como produzindo comerciais para a tv e a internet anunciando os seus diversos produtos, e os produtos de seus familiares (inclusive os de seus netos).

Mas o mercado cripto, em especial, possibilitou um cenário sem precedentes de enriquecimento familiar a ele – e um capítulo inédito na história da Casa Branca. Nos últimos meses, cada membro da família Trump encontrou maneiras de transformar influência em fortuna, expondo um buraco imenso no arcabouço legal dos Estados Unidos.

E a verdade é que quanto mais rico fica Trump, mais pobres ficam as instituições americanas.

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