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Charlie Kirk: Quando a mídia normaliza o extremismo

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
20/09/2025
no Opinião
Tempo de leitura:7 minutos de leitura
18
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Cobertura da grande imprensa brasileira, com seu desconhecimento sobre os EUA e sua recusa em nomear extremistas, normaliza a extrema direita

“Ativista conservador”, “fundador da organização conservadora”, “influenciador trumpista”, “líder da direita cristã pró-Trump”. É assim que a imprensa brasileira tem coberto a morte Charlie Kirk, um radical que fez carreira propagando ideias nazistas, racistas e violência extrema, como televisionar execuções sumárias para “fins educativos”.

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Mais de uma semana após o assassinato de Charlie Kirk, as manchetes até agora são reveladoras sobre a maneira como os principais grupos de mídia do país se esforçam para não rotular o extremista como extrema direita.

“Há um processo de normalização da extrema direita no caso do Charlie Kirk e, eu acredito que, de alguma forma, esse processo é condizente com o que acontece no Brasil”, avalia Afonso de Albuquerque, professor do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense.

“Charlie Kirk era um publicista extremamente racista, que elogiava atentados contra políticos de esquerda. Apelava para a violência como retórica e para o discurso de ódio o tempo todo. Ele cultivava valores e atitudes que alimentaram o seu próprio assassinato” disse ao Intercept João Feres Júnior, professor de ciência política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Quando não dão nomes aos bois, a cobertura do Globo, Folha e Estadão – os maiores jornais do país – se aproxima daqueles veículos que tem uma linha editorial clara de direita, como Brasil Paralelo, Gazeta do Povo e Jovem Pan. Isso, em nome de uma pretensa isenção – que não existe.

Albuquerque, da UFF, acredita que a cobertura do assassinato de Charlie Kirk expõe dois elementos cruciais que afetam em grande medida veículos tradicionais no país. Primeiro, é “pobre do ponto de vista de inteligência e análise”. Segundo, o fato de que, diante da morte, a grande mídia tende a adotar um conservadorismo de atitude. Então, o indivíduo que em vida era nazista vira ‘conservador’.

Nesse sentido, a mídia hegemônica no Brasil se aproxima da norte-americana. “A grande mídia, que eles chamam de legacy media, em inglês, tem suavizado a extrema direita, normalizado. Na verdade, tratado como uma contendora que joga no jogo da democracia. O que não é sempre o caso”, diz Feres.

E por que isso importa? Este tipo de cobertura – incompleta e rasa – contribui muito para um abrandamento do real perfil de Kirk e seu legado. A relutância em tratá-lo como um ator da extrema direita norte-americana normaliza o extremismo e dilui as fronteiras entre agentes políticos apenas conservadores e extremistas anti-democráticos.

O  que está em jogo é que a mídia brasileira, em um alinhamento automático às mídias norte-americanas, tem se posicionado na defesa de que o Kirk tinha o direito de dizer o que dizia a pretexto de uma pretensa liberdade de expressão. Mas essa liberdade, por não ser absoluta – pelo menos no Brasil – não dá o direito do indivíduo promover discursos de ódio e agressão.

Para Albuquerque, os grandes jornais brasileiros apenas reproduzem o ponto de vista predominante nos Estados Unidos, tratando esse país como uma espécie de sol e orbitando ao seu redor. Ele aponta como uma consequência direta da forma como esses veículos foram constituídos, tanto empresarial quanto historicamente, dentro de uma perspectiva que vê os Estados Unidos como modelo a ser seguido pelo Brasil.

Culpabilizar a “extrema esquerda”

Logo após o atentado contra Kirk começaram a circular vídeos destacando sua família, turbinados pelos algoritmos das redes sociais que privilegiam conteúdos que geram reações emocionais intensas.

O objetivo era claro: desconstruir sua figura política e culpabilizar a “extrema esquerda” pela morte de um “homem de família”, fomentando um discurso polarizante do “nós contra eles”. Mesmo discurso que vem sendo adotado por parlamentares e influencers de direita e extrema direita no Brasil.

À frente do Turning Point USA, organização que fundou, Kirk defendia uma visão nacionalista cristã, e branca, dos Estados Unidos que é um dos pilares de sustentação da base do ‘Make America Great Again’, o MAGA.

O Southern Poverty Law Center, ONG dos EUA que atua contra grupos supremacistas, descreveu a organização como uma instituição que “manipula sentimentos de insegurança e ansiedade para gerar indignação e mobilizar apoio com o objetivo de restaurar e preservar uma ordem social cristã, branca e patriarcal.” Ou seja, descreveu o conceito de nacionalismo cristão supremacista.

Embora tenha iniciado sua trajetória no setor mais moderado do conservadorismo, Kirk foi adotando posições cada vez mais radicais à medida que sua influência crescia, sobretudo entre jovens universitários. Após sua morte, setores da extrema direita chegaram a interpretar o episódio como o início de uma guerra.

No rastro do atentado, muitos exaltaram a herança política deixada por Kirk, frequentemente destacando sua habilidade estratégica, mas sem considerar de forma crítica os efeitos políticos de seu discurso. Sua atuação é considerada central na ascensão de jovens nacionalistas brancos e cristãos, uma peça importante no crescimento do extremismo.

Kirk ficou conhecido por participar de debates em campi universitários, estratégia que lhe dava visibilidade e autoridade, com pessoas jovens e em formação. Mas seu compromisso principal estava no projeto político trumpista de restringir a participação democrática de pessoas que não fossem brancas, cristãs e seguissem sua estrita agenda.

Criminalização da esquerda: a onda de violência política nos EUA

A ativista extremista Laura Loomer, por exemplo, chegou a convocar abertamente ataques contra qualquer pessoa ou grupo identificado como de esquerda. Estudantes negros começaram a receber ameaças imediatamente após o assassinato. Isso, antes de saberem que o assassino é de família religiosa, branco e criado em família republicana e apoiadora de Trump.

A narrativa ganhou fôlego com declarações de Trump, que associou o episódio a “terrorismo” e divulgou um vídeo prometendo que sua futura administração miraria a chamada “esquerda radical” e as organizações a ela ligadas.

A realidade diz o contrário e o governo Trump sabe disso. Não por acaso, o departamento de Justiça dos EUA apagou o estudo que concluiu que extremistas de direita mataram seis vezes mais americanos do que outros grupos terroristas nacionais.

Analistas alertam que esse movimento representa um momento de grande perigo, sinalizando a possibilidade de uma nova onda de repressão política legitimada por lideranças da direita trumpista.  

Isso ecoa no Brasil. Jornais brasileiros como Gazeta do Povo vem chamando de “extremistas” quem fez piada com a morte do verdadeiro extremista, em alinhamento com políticos de extrema direita. Não é muito diferente na cobertura de jornais com mais prestígio, como o Estadão, que repercutiu acriticamente em um texto copiado do New York Times, que “assassino de Charlie Kirk seguia ideologia ‘esquerdista’ e havia se ‘radicalizado’”, repetindo palavras do governador de Utah, estado onde Kirk foi morto. O mesmo texto diz que o governador “não ofereceu detalhes que fundamentassem sua avaliação das opiniões do suspeito”.

O deputado federal Nikolas Ferreira, do PL mineiro, postou no X: “seja a extrema-direita que eles tanto tem medo”, em uma imagem que usa a estética extremista, com a ilustração do “clown pepe“, uma variante do cartoon Pepe the Frog, adotado como identidade de comunicação pelos chamados Groypers, uma dissidência dentro da alt-right, que, entre outras alegações nega o Holocausto e prega a supremacia do homem branco estadounidense.

O professor Afonso de Albuquerque avalia que o que está em curso hoje é uma lógica de análise por comparação ao extremo absoluto. Assim, quase todos parecem moderados. É um engano perigoso, que desloca o debate público para a direita e rebaixa os limites do que é aceitável.

Diante deste cenário, a imprensa não pode usar eufemismos para descrever os fatos. As pessoas que defendem extermínio de opositores e endossam ideias nazistas e violentas não podem ser renomeadas de “influenciadores” ou meros “ativistas”. Cabe aos jornalistas não servirem de ferramenta para a reembalagem de mensagens extremistas e totalitárias – que pregam, inclusive, seu fim.

Por Cecília Oliveira e Vinicius Madureira

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