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Guerra comercial preocupa membros do Brics

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
09/03/2025
in Economia
Reading Time: 5 mins read
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Em meio à guerra comercial impulsionada pela política de impor tarifas de importação por parte dos Estados Unidos, os países-membros do Brics acompanham a escalada de ameaças e tensões à procura de alternativas para o comércio exterior dentro e fora do bloco. Especialistas ouvidos pelo Correio apontam as alternativas para as nações driblarem as mudanças com o menor impacto possível.

O presidente dos EUA, Donald Trump, manifestou a vontade de sobretaxar as importações de países do Brics, caso o grupo leve à frente a ideia de lançar uma moeda única para as negociações entre os países-membros. O objetivo é valorizar o dólar. A nova moeda tem o apoio do Brasil e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — que reiterou o desejo de avançar com a proposta.

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“A presidência do Brasil dará continuidade aos esforços de cooperação para desenvolver instrumentos de pagamento locais que facilitem o comércio e o investimento, aproveitando sistemas de pagamento mais acessíveis, transparentes, seguros e inclusivos entre os membros do Brics. Além disso, medidas de facilitação de comércio, entre elas a cooperação regulatória, poderão contribuir para o aumento do intercâmbio comercial e de investimentos”, disse o Planalto, em nota divulgada em fevereiro.

Na semana passada, Trump voltou a ameaçar países do Brics. No primeiro discurso que fez ao parlamento, o norte-americano citou a China, a Índia e o Brasil, como parceiros do país que mais aplicam tarifas aos produtos dos EUA. Para a nação chinesa, o governo dos Estados decretou a imposição de mais 10% sobre os 10% já instituídos sobre a importação de qualquer produto proveniente do país asiático.

Reação

Em retaliação, a China anunciou que vai cobrar, a partir de segunda-feira, tarifas de 15% sobre carvão e gás natural liquefeito, além de uma taxa de 10% sobre petróleo, máquinas agrícolas, caminhonetes e alguns carros de luxo. A medida também impacta commodities, como milho, café, algodão e soja. A Embaixada do país nos EUA também ressaltou que está pronta para lutar em “qualquer tipo” de guerra.

Na avaliação da professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Regiane Bressan, os EUA devem manter as tarifas de importação para a China — o que pode fortalecer mais o Brics, com a abertura de novas possibilidades de negociação entre as nações. “Essa imposição de tarifas por parte dos Estados Unidos obrigou os países a reorganizarem as suas economias e a gente sabe que já está no horizonte dos países do Brics até pensar em uma moeda alternativa contra o dólar”, diz.

“Quando os Estados Unidos colocam barreiras a Canadá e México, ele rompe com uma lealdade em relação ao Canadá. Quando eles colocam barreiras para a China, a questão com a Ucrânia, que só fortalece a Rússia, então eu acho que, ao final das contas, quem sai fortalecido é o Brics, que surfam nas oportunidades dessas novas configurações, nas lacunas econômicas agora deixadas pelos Estados Unidos”, completa Bressan.

Para o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Caldas, a questão que envolve a guerra comercial não é tão simples. “Você sabe como é que ela começa, mas não sabe como é que acaba”. Ele ressalta que, nesse ritmo, com tarifas sendo anunciadas para Canadá, México e China, o Brasil e outros países do Brics podem entrar ser impactados futuramente, o que deve provocar impactos para todos lados envolvidos.

“É um jogo que não tem vencedor. Os Estados Unidos vão perder importações de vários países e, por sua vez, esses países vão proibir a entrada de produtos americanos, sobretaxando. Então, é preciso muita calma e muita prudência para, neste momento, não deixar que as emoções tomem conta da política externa brasileira e das relações internacionais. Porque podemos ter um prejuízo muito grande”, destaca o especialista.

Por outro lado, o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Mauro Rochlin não vê impacto maior da política comercial americana em relação ao Brics. “O Brics não é um acordo comercial entre países, eles não têm tratados de redução de tarifas alfandegárias, de facilitação de comércio exterior, portanto não vejo como a alta das tarifas imposta pelo presidente Trump pode afetar o grupo como um todo”, ressalta.

O lado do Brasil

Além de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, também integram o grupo desde o ano passado, Arábia Saudita, Egito, Irã, Indonésia, Emirados Árabes Unidos e Etiópia. Somados, o Brics representam 26% de todas as exportações e 22% das importações de bens em todo o planeta. Entre os serviços, a parcela de exportações chega a 14%, enquanto que a de importações, corresponde a 17% do mercado global. Os dados estão disponíveis no painel Comércio do Brics em números, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

Entre os principais produtos comercializados pelos membros do Brics, estão petróleo, gás natural, máquinas e equipamentos elétricos, além de cereais, carne e café. Já o comércio de serviços é concentrado nos setores de transporte, viagem, além de outros serviços empresariais. No caso do Brasil, a grande maioria das exportações de bens do país entre os representantes do Brics tem como destino a China, com 83%, seguido por Índia (4,5%), Emirados Árabes Unidos (2,2%), Arábia Saudita (2%) e Indonésia (1,9%).

Apesar de a China ser o maior parceiro comercial do Brasil há mais de 15 anos, os Estados Unidos ainda são o segundo colocado nessa lista. Somente em 2024, a corrente de comércio entre o Brasil e os EUA somou US$ 80,9 bilhões, o que representa um aumento de 8,2% na comparação com o ano anterior.

Na semana passada, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e o chanceler Mauro Vieira tiveram reuniões com representantes do Comércio norte-americano para negociar as políticas de tarifas entre os dois países, sobretudo com a possível taxação de aço e alumínio, que pode entrar em vigor nesta semana. Para o governo brasileiro, as conversas foram positivas, com os EUA decidindo manter as negociações.

A professora Regiane Bressan afirma que o Brasil possui um corpo diplomático preparado para as mudanças. Ela avalia a presença de Alckmin nas negociações como um trunfo para o país. “É uma pessoa com muita experiência no governo, não tenho dúvida que ele vai saber negociar bem, na medida em que a gente pode até amenizar essas barreiras ou qualquer chance de termos novas tarifas de importação que ocasionem transtornos econômicos ao Brasil”, aponta.

 

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