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Fique atento aos riscos e aos desafios de investir na renda variável

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
19/01/2025
no Economia
Tempo de leitura:6 minutos de leitura
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Não há dúvidas de que 2024 foi um ano terrível para a Bolsa de Valores de São Paulo (B3). Levantamento realizado pela consultoria Elos Ayta mostra que o principal índice da B3, o IBovespa, teve o pior desempenho na rentabilidade em dólares, se comparado a outras 21 principais bolsas do mundo. Em valores baseados na divisa norte-americana, o IBovespa registrou perdas de 29,92% no ano, e, em reais, a queda foi de 10,36%.

Com isso, a Bolsa brasileira registrou a pior marca desde 2015. Neste início deste ano, o IBovespa tem apresentado bastante volatilidade, chegando a ficar abaixo de 120 mil pontos, mas acumula, até sexta-feira, alta de 1,72% no ano, a 122.350 pontos. Mas analistas admitem que o cenário é de incerteza para a Bolsa neste ano, pois os juros devem continuar elevados e a inflação continuará acima do teto da meta, de 4,50%, como ocorreu em 2024.

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No ano passado, a saída de investimento estrangeiro do IBovespa também bateu recorde, com um resultado líquido de queda de R$ 24,2 bilhões da Bolsa ao longo do ano. Foi apenas a terceira vez em nove anos que a saída superou a entrada de recursos do exterior no índice da B3.

Para o especialista e responsável pela mesa de renda variável da Convexa Investimentos, João Vítor Saccado, há, atualmente, uma preferência maior para investir em bolsas com rendimentos mais seguros, como a dos Estados Unidos. “E aí eu tenho um dólar mais forte e eu não estou vendo todo esse problema fiscal no Brasil e o investidor estrangeiro não quer correr esse risco em um país onde a dívida vem aumentando bastante”, afirma.

Na avaliação do especialista, diante de um contexto de crise fiscal e o mercado reforçando a desconfiança na condução das políticas econômicas do governo, na maioria das vezes, o investidor prefere evitar o investimento na Bolsa brasileira devido ao risco maior.

“Na teoria, quando eu tenho um diferencial de juros maior, acontece que a pessoa deixa de investir na renda fixa nos Estados Unidos para investir na renda fixa no Brasil, porque o CDI (Certificado de Depósito Interbancário), agora, está em 12,15% ao ano. Só que, por toda essa situação fiscal, muitas vezes o investidor acaba pesando muito mais para ele essa situação e aí acaba não vindo esse fluxo que, de certa forma, era esperado”, acrescenta. O CDI acompanha a taxa básica da economia (Selic), atualmente em 12,25% anuais.

Na análise da mestre em finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e sócia da Leroy Consulting, Bárbara Coelho, o movimento de saída de investidores do país reforça as incertezas em relação a sinais contraditórios do governo e ajuda a elevar ainda mais o dólar. Segundo ela, embora os juros no Brasil devam continuar subindo, o Banco Central não deve conseguir entregar tudo que o mercado está pedindo, ainda mesmo com a entrada de novos diretores e do novo presidente, Gabriel Galípolo.

“O pacote fiscal anunciado recentemente pelo governo não reduziu as preocupações — muito pelo contrário. Dessa forma, sem uma mudança na atuação fiscal do governo, mesmo com o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) cortando os juros, o movimento de saída de investidores estrangeiros deve se intensificar em 2025, pois os investidores estrangeiros provavelmente não aumentarão fluxos com o real se desvalorizando rapidamente”, comenta.

Galípolo terá difícil a missão de controlar a animosidade do mercado e a crise com o governo, enquanto cumpre as funções à frente da autoridade monetária independente. Para o especialista da Convexa, João Vítor Saccado, o câmbio pode estar entrando em ritmo de dominância fiscal, que ocorre quando o Banco Central não tem mais o controle de influenciar o valor do dólar, e sim, apenas o governo, que tem o controle da política fiscal. “Não chegamos nesse ponto ainda, mas já se escuta alguns economistas começarem a falar sobre isso”, considera.

Fora da curva

Em 2024, somente 15 das 86 ações listadas no Ibovespa encerraram o ano em alta. Alguns papéis registraram valorização superior a 100% ao longo do ano, como foi o caso da Embraer, de 150,96%, e da Marfrig, de 104,83%. As ações da Ambipar, as primeiras a serem reconhecidas como ações verdes pela B3, tiveram uma valorização de 730%.

Na avaliação do economista da ConfianceTec Julio Hegedus Netto, para 2025, é interessante apostar em bancos, empresas de infraestrutura e energia elétrica, que na avaliação do especialista, podem sentir menos os efeitos dos juros altos. “E aí têm algumas empresas que são um pouco resilientes a crises, que são aquelas voltadas ao agronegócio e alimentos. Essas têm mais musculatura porque a demanda nunca acaba. Sempre tem uma demanda por alimentos no mercado doméstico”, analisa.

Apesar disso, o economista frisa que o cenário ainda não é tão favorável para investimentos em ativos da Bolsa. “Não dá para ser muito otimista, já que no ano que vem se prenuncia o pior, com a taxa de juros que pode chegar a 15% a partir de março, e aí vem crédito elevado, e tudo mais. A inflação está em 4,5%. A taxa de juros real é imensa. E aí inviabiliza qualquer possibilidade para investimento em renda variável”, ressalta Hegedus Netto.

Já a especialista em investimentos e risco pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e em gestão de negócios pelo Ibmec, Merula Borges, considera que tudo indica para um ano difícil para a Bolsa de Valores e que exigirá cautela dos investidores não somente na escolha das ações, mas também, no prazo de retorno esperado.

“Mas para quem deseja um investimento de longo prazo é sempre uma boa opção comprar ações de boas empresas a bons preços e a lógica é focar em setores que costumam se beneficiar mais de taxas de juros e dólar mais altos, como bancos e exportadoras. Negócios mais robustos e mais preparados para uma crise também são uma boa pedida”, frisa.

Oportunidades em várias frentes

Apesar do pessimismo em curto prazo, alguns analistas enxergam o período de queda da bolsa como uma oportunidade para comprar ações a um preço mais barato, o que reforça a regra de “comprar na baixa, vender na alta”. Com base nisso, o sócio da Cash Wise Investimentos Victor Souza avalia que é mais vantajoso comprar ativos em renda variável do que os títulos de renda fixa, mesmo com a possibilidade concreta de a taxa Selic atingir o patamar de 15% neste ano.

“Uma coisa que é verdade é a seguinte: se a renda fixa está pagando muito ou está pagando bem, a renda variável vai estar pagando sempre mais. Quem comprar e aproveitar essas promoções que a gente vai ter em 2025 e está tendo até agora, neste momento, vai sair daqui a um tempo, quando a Selic cair, com excelentes ganhos, às vezes muito maiores do que esses 15% que a renda fixa está pagando”, diz.

O especialista acrescenta que é importante manter a carteira de investimentos diversificada. “Não adianta você investir só em renda fixa, porque a renda fixa está pagando bem, se o dólar também está desvalorizando. Você tem que ter uma carteira diversificada com renda variável, com renda fixa, com ativos dolarizados que te protejam em todas as situações. Se o Brasil continuar com essa crise fiscal, provavelmente a gente vai ter várias oportunidades na renda variável, e a renda variável vai ser uma excelente opção”, completa Souza.

Diferentemente do da Bolsa, alguns ativos de renda variável performaram bem no ano passado, a exemplo do Bitcoin. A criptomoeda criada em 2008 por Satoshi Nakamoto subiu 183,25%, em 2024, e ultrapassou pela primeira vez a barreira dos US$ 100 mil após a vitória de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos, em novembro. Outra aplicação que também surpreendeu no último ano foi o ouro, que registrou valorização de 26,55% no período.

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O investimento em índices estrangeiros também é uma opção interessante e, muitas vezes, vantajosa. Paula Zogbi, gerente de Research e head de conteúdo da Nomad, explica que, sob a ótica da diversificação e do investimento de longo prazo, faz sentido manter uma exposição relevante a ativos estrangeiros. “A economia americana tem tendência de crescimento no longo prazo e a diversificação apresentada pelos setores disponíveis na bolsa dos EUA pode ser um complemento importante para carteiras domésticas, muito concentradas em segmentos como commodities e financeiro”, destaca.

Segundo a especialista da Nomad, o cenário também parece favorável a ativos americanos em 2025. “O novo governo Trump promete diminuir impostos corporativos e aliviar regulações, o que também tende a estimular o mercado de capitais. Olhando para dentro de casa, a Bolsa brasileira tem sofrido com uma maior cautela em relação ao fiscal e com o ciclo de altas da Selic, podendo estimular mais saídas de capital para frente, e reforçando a importância de manter uma diversificação global na carteira”, conclui Zogbi. 

 

 

 

 

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