A Rússia e a Ucrânia intensificaram os ataques militares nesta quinta-feira (22), poucas horas depois de Moscou sinalizar disposição para retomar as negociações de paz mediadas pelos Estados Unidos. A nova escalada de violência atingiu áreas residenciais e instalações estratégicas dos dois países, evidenciando a distância entre os avanços diplomáticos e a realidade enfrentada pela população.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que os bombardeios russos demonstram que Moscou ainda não modificou sua postura em relação à guerra, iniciada em fevereiro de 2022.
A ofensiva ocorreu após uma reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o enviado especial americano Steve Witkoff, realizada na quarta-feira (21), em São Petersburgo. O encontro abriu caminho para uma possível retomada das conversas trilaterais envolvendo Rússia, Ucrânia e Estados Unidos.
Apesar da sinalização diplomática, os confrontos continuaram durante a madrugada, com ataques de grande intensidade de ambos os lados.
Ataques russos atingem Kiev e instalações de energia
Segundo autoridades ucranianas, a Rússia lançou 21 mísseis balísticos e mais de 200 drones contra diferentes regiões do país.
Os bombardeios atingiram a capital, Kiev, e outras localidades, provocando danos em instalações de energia e estruturas urbanas. De acordo com o balanço divulgado por Zelensky, pelo menos duas pessoas morreram e outras 34 ficaram feridas.
Na capital ucraniana, explosões também danificaram estruturas próximas à Ponte Sul, sobre o rio Dnipro, afetando a circulação de veículos e a infraestrutura do metrô.
A região de Kharkiv, no nordeste do país, também foi atingida. Segundo autoridades locais, uma mulher morreu e outras quatro pessoas ficaram feridas em um ataque russo.
Na região de Poltava, drones atingiram instalações energéticas próximas à cidade industrial de Kremenchuk, área que abriga importantes estruturas de produção e abastecimento.
Os ataques reforçam a preocupação com a vulnerabilidade da infraestrutura ucraniana, especialmente dos sistemas de energia, que têm sido alvos recorrentes desde o início da invasão russa.
Ucrânia lança centenas de drones contra território russo
Em resposta, a Ucrânia realizou uma das maiores ofensivas recentes com drones contra diferentes regiões da Rússia.
O Ministério da Defesa russo afirmou que seus sistemas de defesa aérea interceptaram 808 drones ucranianos durante a noite, em operações que abrangeram quase 20 regiões do país e a Crimeia, território ucraniano anexado por Moscou em 2014.
Autoridades russas também relataram ataques nas proximidades de Moscou, onde duas pessoas ficaram feridas.
Na cidade de Lipetsk, aproximadamente 400 quilômetros ao sul da capital russa, drones atingiram edifícios residenciais e uma instalação médica. Segundo o governador regional, Igor Artamonov, uma pessoa ficou ferida.
Os números apresentados pelos governos envolvidos são informações oficiais de cada lado e não puderam ser verificados de maneira independente.
A intensificação dos ataques evidencia a estratégia de ambos os países de manter a pressão militar enquanto discutem possíveis condições para encerrar o conflito.
Putin aceita discutir retomada das negociações
A nova onda de bombardeios aconteceu depois de Putin receber Steve Witkoff, representante do governo de Donald Trump, em São Petersburgo.
A reunião durou aproximadamente três horas e foi considerada uma etapa importante da tentativa americana de reabrir o diálogo entre Moscou e Kiev.
Segundo o assessor diplomático do Kremlin, Yuri Ushakov, a Rússia está disposta, em princípio, a participar de uma nova rodada de negociações trilaterais em novembro, após as eleições legislativas americanas.
As conversas poderão ocorrer em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e deverão envolver equipes técnicas dos três países.
Um dos principais temas será a construção de mecanismos de segurança para Rússia e Ucrânia após um eventual acordo de paz.
Entretanto, o Kremlin demonstrou reservas em relação às propostas apresentadas pelo enviado americano, especialmente às sugestões formuladas por Kiev e por governos europeus.
Antes de visitar a Rússia, Witkoff se reuniu com Zelensky e representantes europeus em Oslo, na Noruega, buscando identificar pontos de aproximação entre as partes.
Zelensky critica Moscou e defende participação da Ucrânia
Zelensky criticou a continuidade das ofensivas russas justamente no momento em que representantes internacionais tentam construir um novo caminho diplomático.
Para o presidente ucraniano, os ataques demonstram que a Rússia permanece comprometida com a pressão militar, apesar de manifestar disposição para negociar.
O governo de Kiev declarou apoio à retomada das conversas trilaterais, desde que a Ucrânia participe diretamente das decisões sobre seu território e suas condições de segurança.
Um dos principais obstáculos continua sendo a situação das regiões ocupadas pelas forças russas.
Moscou exige o controle integral de áreas estratégicas do Donbass, no leste ucraniano, enquanto Kiev rejeita a possibilidade de reconhecer formalmente a perda de seus territórios.
A divergência permanece entre os pontos mais difíceis de uma eventual negociação de paz.
Trump aposta em acordo, mas impasse continua
O presidente americano, Donald Trump, demonstrou otimismo após a reunião entre seu enviado e Putin, afirmando que as negociações estão próximas de produzir resultados.
A avaliação, entretanto, contrasta com a continuidade dos ataques e com as diferenças entre as exigências apresentadas pelos governos russo e ucraniano.
Trump assumiu seu atual mandato, em janeiro de 2025, prometendo buscar uma solução rápida para a guerra, mas os esforços diplomáticos ainda não produziram um acordo definitivo.
A possibilidade de novas negociações em novembro representa uma abertura no diálogo, interrompido há meses. Ainda assim, não existe um cessar-fogo anunciado nem compromisso formal de suspensão das operações militares.
Enquanto representantes dos três países discutem alternativas diplomáticas, a população civil continua exposta aos bombardeios e às consequências humanitárias de um conflito que já ultrapassou quatro anos.
Da IstoÉ
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