“Se a gente está muito endividado? Menina, a gente só deve a duas pessoas: Deus e o mundo.” É dessa maneira que Cleide Jane Correia do Nascimento, de 36 anos de idade, define a situação financeira da família. Nascida na Bahia e moradora de Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo, ela foi e é beneficiária de vários programas sociais, mas vai votar em Flávio Bolsonaro (PL) no domingo, 25.
Motivo: sua vida ficou bem mais difícil nos últimos quatro anos, segundo afirma. “Se o Lula (PT) tivesse feito tanta coisa boa como diz, eu não precisaria ter deixado dois filhos no Nordeste”, diz ela. “Aliás, não precisaria nem ter saído do Nordeste.”
Daniela Costanzo, de 37 anos de idade, mora em uma região mais rica da capital paulista, no bairro de Perdizes, mas também teve uma trajetória difícil. Nascida em São Carlos, no interior de São Paulo, é filha de mãe solo que, num segundo casamento, teve mais dois filhos e um companheiro violento e sem ocupação fixa. Sua mãe era responsável pelo sustento da casa, com as dificuldades intrínsecas a essa situação.
Daniela também se beneficiou de várias políticas públicas e hoje faz pós-doutorado em Ciências Políticas na USP. Seu voto vai na direção oposta ao de Cleide. “Sou eleitora do PSOL mas, desde o impeachment de Dilma, optei pelo PT por preocupações com a democracia”, diz ela. “Mais recentemente, o maior medo é nos tornarmos um narcoestado, sob o domínio das milícias.”
Cleide e Daniela são retratos de dois grupos, com perfis econômicos e sociais bastante definidos, que foram às urnas no primeiro turno e ajudarão a escolher no domingo, 25, o próximo presidente. Levantamento do canal de notícias Meio, com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Censo e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostrou que, de maneira geral, os eleitores dos bairros mais ricos optaram por Lula. Flávio ganhou com maior força sobretudo em periferias de classe C.
O movimento é perceptível sobretudo em grandes capitais. No primeiro turno, Lula perdeu na cidade do Rio de Janeiro por quatro pontos de diferença em relação a Flávio. Porém, ganhou em toda a Zona Sul da capital fluminense, em bairros de elite como Ipanema, Copacabana e Leblon.
Na capital paulista, Lula venceu por 4,5 pontos de diferença em relação ao senador. Além da periferia, ganhou em bairros mais centrais, bem como em Pinheiros, Perdizes, Alto de Pinheiros, Jardim Paulista e Butantã. Nas urnas de Moema, Itaim e Campo Belo, também regiões de maior poder aquisitivo, mas menos próximas a polos universitários e vizinhas da Faria Lima, Flávio ganhou com mais de 50% dos votos. Isso mostra que até a divisão por renda também carrega as sutilezas da preferência do eleitor.
Em nível nacional, Flávio liderou no primeiro turno em todas as faixas de renda, menos a mais pobre. Lula só venceu na classe E, por 14,9 pontos de diferença de Flávio. São os eleitores mais dependentes dos programas sociais e que temem perder seus benefícios.
Flávio ganhou nas outras classes sociais, mas tem mais força junto ao eleitor de classe C, que representa 61% da população brasileira. Sua margem de diferença com esse eleitor foi de 18,4 pontos.
“Apesar de um cenário econômico de inflação e desemprego baixos, a sensação de perda de bem-estar cresceu com muita intensidade nos últimos anos, por conta do esgarçamento da política fiscal”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe e sócio da consultoria MB Associados. “Com os juros mais altos, a população se sente mais empobrecida pelo endividamento e pelas bets, e nem mesmo os anúncios recentes de auxílio têm funcionado para reverter o desalento dessa população mais pobre.”
Cleide, que faz bico como caixa em um açougue, dá um exemplo prático dessa situação. Ela e o marido, o pintor Sebastião Gomes da Silva Filho, de 49 anos, se organizaram recentemente para gastar R$ 600 no mercado. No fim da compra, a conta ficou em quase R$ 1 mil. “Você vai hoje e o leite está R$ 4,50, amanhã está R$ 5,40”, diz ela. “Para pagar a diferença do que a gente achou que ia gastar, o dinheiro sai ou do débito (e deixamos de pagar alguma outra conta que a gente já tinha programado) ou do limite do cartão de crédito.” É uma bola de neve.
“Houve uma oferta de crédito muito grande e muito mais fácil de conseguir, que chega pelo celular, pelos aplicativos dos sites de comércio eletrônico e dos bancos digitais”, afirma Maurício de Almeida Prado, sócio da Plano CDE, que faz pesquisas com as classes mais baixas. “As pessoas passaram a usar esse crédito para comprar comida e não conseguem mais sair dessa situação.” Para ele, o resultado é a percepção de piora no poder aquisitivo e de que a conta não está fechando.
Cleide diz também que, quando Jair Bolsonaro esteve na presidência, foi o período em que “não passou necessidade”. Durante a pandemia, o piso do Bolsa Família triplicou. “Minha bebê era pequena e eu consegui até reformar minha casinha”, diz ela. “Foi o Lula entrar e meu benefício foi cortado porque arrumei emprego de carteira assinada, com um salário que não dava para as despesas.” Mesmo assim, ela e o marido conseguiram comprar sua casa própria, carro e têm orgulho das conquistas do trabalho duro.
Esses são alguns dos motivos — intercalados com relatos sobre medo da violência — pelos quais ela diz preferir a mudança no comando do País. “Precisamos dar uma oportunidade para o Flávio”, afirma Cleide. “Se não der certo, daqui a quatro anos a gente muda de novo.”
É exatamente a crença de que a democracia será ameaçada com a volta da família Bolsonaro ao poder que levou Daniela a optar por Lula. Também a participar de um grupo no bairro, o Pompéia Sem Medo, que procura “virar votos” na vizinhança. “Nos organizamos em duplas para percorrer as casas e, com um discurso não partidarizado, falamos do perigo democrático”, diz ela.
Para Almeida Prado, essa preocupação está a anos-luz das classes C e D. “As questões de funcionamento da democracia são muito intangíveis e complexas”, diz ele. “O que é tangível é que o celular está sendo roubado, que o benefício social é pequeno, que a conta não fecha no fim do mês e que estão pagando um monte de juros.”
Vale concorda e vê uma mudança de posicionamento na elite intelectual nesta eleição. Os mais ricos optavam por votar à direita, com o raciocínio na linha defendida por anos pelo PSDB, de que a pauta do crescimento econômico acabaria também abraçando as demandas dos mais pobres. “Agora, esse grupo com perfil mais acadêmico entende que há um risco efetivo à democracia”, afirma Vale. “Essa ameaça é maior do que um eventual ganho econômico que o País possa ter com a vitória de um partido mais à direita.”
Tesouraço de Flávio é ameaça
Cortes orçamentários maiores também preocupam esse eleitor que entende a importância dos serviços prestados à sociedade pelo governo. Não em benefícios como o Bolsa Família, mas em políticas públicas em áreas essenciais.
Com a ajuda de tios, Daniela conseguiu mudar de São Carlos para São Paulo, onde cursou faculdade e avançou na carreira acadêmica, ao mesmo tempo em que se tornou pesquisadora da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
“Consegui ascender muito socialmente desde que comecei a estudar”, diz ela, que passou um ano com o marido, o também cientista político Rafael Marino, de 33 anos, num pós-doutorado em Paris. O casal não tem dívidas, mas também não tem casa própria nem carro.
Querem esperar um concurso público para se tornarem professores e, então, decidir onde comprarão um imóvel. Já a opção por não ter carro é uma decisão consciente, tomada após Daniela estudar mobilidade urbana. “Temos medo de nos endividar porque sabemos que nosso futuro depende do Estado”, diz Daniela. “No governo Bolsonaro, pesquisas e concursos foram suspensos e, hoje, há uma fila com muita gente boa com essa mesma perspectiva e ainda travada.”
Daniela também se preocupa com outras políticas públicas, que eventualmente perderão participação no Orçamento da União num governo Flávio. Sua mãe, por exemplo, já sofreu um infarto e depende tanto do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto da Farmácia Popular. A própria Daniela também tenta ser atendida num tratamento de fertilização in vitro pelo Hospital das Clínicas.
Por outro lado, ela diz ter perdido parte do preconceito com os empreendedores, um dos objetivos de vida dos eleitores de Flávio, como mostrou pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta, 21. Segundo esse levantamento, 62,3% dos eleitores de Flávio sonham em ter seu próprio negócio para melhorar de vida. Já 65,4% dos eleitores de Lula querem carteira assinada.
“Eu era crítica ao MEI (Microempreendedor Individual) por ser uma forma de pejotização, mas foi esse sistema que me permitiu trabalhar como pesquisadora e complementar minha renda”, diz Daniela. “Me possibilitou melhorar de vida.”
Cleide, que está fazendo curso técnico de enfermagem à noite, também sonha em ter seu próprio negócio. “Não nasci para ficar presa em uma empresa”, diz ela. “Se eu tivesse uma impressora, poderia ter um serviço de impressão e montar uma papelaria, para ter uma outra fonte de renda.”
Almeida Prado diz que a Plano CDE viu essa mudança no decorrer ao longo dos 18 anos de pesquisas. Se antes o empreendedor precisava de capital e uma rede de contatos para montar seu próprio negócio, a digitalização permitiu que uma série de oportunidades surgissem, sem que a pessoa precise sair de casa.
“A empreendedora pode fazer coxinha ou bolo, postar o vídeo nas redes, vender pelas plataformas e receber imediatamente”, diz ele. “Ou enviar um currículo, passar por um processo seletivo, ter de pegar ônibus para chegar num emprego CLT e receber o salário só no fim do outro mês.” Nesse sentido, o empreendedorismo é uma escolha meio natural.
Almeida Prado fala ainda de uma questão comportamental, que faz com que o voto em Flávio seja mais silencioso e ressentido com relação aos eleitores de Lula. O fato de os eleitores de esquerda chamarem os empreendedores da periferia de “pobres de direita” e “CEOs de MEI” cria uma espécie de rancor entre os que apoiam Flávio.
“Temos feito pesquisas que mostram que as pessoas estão felizes com a alternativa de trabalhar por conta própria num pequeno negócio”, diz ele. “E elas se sentem muito incomodadas com o olhar superior da elite intelectual, que os encara como manipuláveis e infantilizados. A classe C sabe o que prefere e está pagando para ver uma mudança.”
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