Por Alice Maciel e Paulo Motoryn
A Polícia Federal (PF) investiga se Lídia Maria Figueira Mazelli é “laranja” do advogado Willer Tomaz, um dos amigos mais próximos de Flávio Bolsonaro (PL), senador e candidato a presidente da República. Conforme revelou o Núcleo Investigativo do ICL Notícias e a newsletter Noites Húngaras, ela já dirigiu ao menos 14 empresas de Tomaz, apesar de levar uma vida distante do padrão normalmente associado a executivos.
Uma fonte da PF que acompanha a investigação disse à reportagem que “tudo indica” que Mazelli atue como “laranja” do advogado. Ou seja, embora tenha sido registrada formalmente como administradora e presidente dos negócios de Tomaz, a PF suspeita que ela nunca tenha exercido controle efetivo.
Amigo próximo do candidato à presidente Flávio Bolsonaro, Tomaz foi alvo da Operação Sem Desconto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro no esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. Ele foi apontado pelos investigadores da PF como “hub financeiro, patrimonial e logístico” dos beneficiários do esquema.
A PF também apura se o advogado teria lavado dinheiro por meio de apostas em bets. Ele apostou quase R$ 5 bilhões em 2025 em jogos on-line, como mostrou a coluna de Demétrio Vecchioli no site Metrópoles. De acordo com um processo que tramita na Justiça de São Paulo, Tomaz se diz ludopata (aquele que é viciado em jogos de azar) e pede ressarcimento de R$ 163 milhões a uma casa de apostas.
Em nota, a defesa de Lídia Mazelli e Willer Tomaz negou que ela tenha atuado como “laranja” em empresas ligadas ao advogado. Afirmou que Lídia é profissional da área de administração, registrada no Conselho Regional, e que exerceu efetivamente as funções para as quais foi contratada. Willer declarou desconhecer qualquer investigação oficial sobre o caso.

Lídia mudou de versão sobre sua relação com o advogado
No dia 24 de setembro a reportagem localizou Lídia Mazzelli em um prédio no Riacho Fundo, região administrativa do Distrito Federal, cerca de 20 quilômetros do centro do plano piloto de Brasília. O prédio de três andares está localizado em uma área comercial, e sobre uma loja de móveis.
Ao ser abordada, Mazzelli disse que trabalhava no local como doméstica, negou conhecer Willer Tomaz e afirmou não saber que seu nome aparece à frente das empresas do advogado. “Acho que teve alguma confusão aí. Eu nem trabalho lá. Eu sou doméstica aqui”, ressaltou.
Após a publicação da reportagem pelo ICL Notícias e pela Newsletter Noites Húngaras, Mazzelli mudou sua versão. Afirmou que nunca exerceu a profissão de empregada doméstica e afirmou que é graduada em administradora de empresas.
“Desde 2010, trabalho como gerente administrativa com carteira assinada em uma empresa de serviços e, depois, em escritórios de advocacia e empresas de consultoria e de aviação do grupo [de Willer Tomaz], onde fiquei até junho de 2026”, informou Mazelli por meio de nota.
Entre os negócios de Tomaz administrados por ela, estão uma mansão avaliada em R$ 10 milhões, em Angra dos Reis (RJ), que foi alvo de disputa judicial com o jogador Richarlison; uma ilha anunciada por R$ 17 milhões, também em Angra; um hangar de luxo em Brasília e a companhia responsável por processar os pagamentos das bets credenciadas pelo governo do Rio de Janeiro.

A fortuna de Tomaz e os elos com Flávio Bolsonaro
Além de todo patrimônio mantido por meio de suas empresas, Willer Tomaz declarou à Receita Federal ter recebido R$ 217,8 milhões em lucros e dividendos somente em 2024 e 2025 – valores que correspondem apenas aos bens e direitos declarados por ele como pessoa física.
A fortuna aparece em uma declaração de bens que reúne mansões em Brasília, investimentos no Brasil e no exterior, carros de luxo e R$ 1 milhão em espécie.
Dono de jatinho e muitos imóveis, Tomaz compartilha seus bens com o amigo e candidato à presidente, Flávio Bolsonaro. O advogado emprestou dois imóveis recentemente ao senador: uma casa em Angra dos Reis, onde Flávio comemorou o aniversário da filha em fevereiro, e um apartamento em São Paulo usado durante a campanha presidencial. Os imóveis também têm conexões com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, conforme revelaram o ICL Notícias e a revista Piauí.
A amizade entre Flávio e Willer é pública desde 2021. Durante a CPI da Covid, o senador saiu em defesa do advogado e se referiu a ele como “meu amigo Willer Tomaz”.
A relação se estreitou ainda mais nos anos seguintes. Segundo “O Globo”, a Polícia Federal identificou ao menos cinco viagens internacionais feitas pelos dois no primeiro semestre de 2025. Em janeiro, viajaram juntos à Flórida e retornaram a Brasília em um jatinho do banqueiro Daniel Vorcaro, que também tinha Tomaz como cotista, conforme revelado pela revista Piauí.
Apesar de negarem sociedade ou negócios em comum, Flávio e Willer assinam a defesa de um mesmo cliente em uma disputa de R$ 159 milhões no Superior Tribunal de Justiça. A ação começou em 2021, ano em que, Willer passou a se movimentar para assumir a mansão de Angra dos Reis, disputada com o jogador Richarlison, segundo o antigo proprietário do imóvel, Antônio Marcos da Silva.
Também em 2021, Flávio abriu seu escritório de advocacia em Brasília. Em entrevista à Agência Pública, Letícia Caetano dos Reis afirmou ter sido indicada por Willer para administrar o negócio do senador. O advogado negou a informação à época.
A indicação abre outro caminho nessa rede de relações. Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio de Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Alexandre também é dono da Voga Serviços Contábeis, responsável pela contabilidade das empresas de Flávio.
O ICL Notícias revelou que a Bravo Grafeno, fabricante de capacetes da qual o senador é sócio, divide uma sala em Brasília com pelo menos 16 empresas ligadas ao Careca do INSS. As companhias também usam o mesmo escritório de contabilidade.
Em declarações anteriores, o advogado afirmou que sua relação com o senador Flávio Bolsonaro “é estritamente pessoal, não havendo entre nós qualquer relação profissional ou empresarial”.
Contraponto
Procurado pela reportagem, Willer Tomaz enviou a seguinte manifestação:
É falsa a afirmação de que Lídia Mazelli atuaria como “laranja” em empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz.
Profissional da área de administração, com registro no respectivo Conselho Regional, Lídia exerceu efetivamente as atribuições para as quais foi contratada, em plena conformidade com sua formação e qualificação profissional.
Willer Tomaz desconhece a existência de qualquer investigação oficial relacionada aos fatos mencionados e não comenta especulações ou ilações sem respaldo factual.
O Instituto Conhecimento Liberta (ICL) já é alvo de medidas judiciais nas esferas cível e criminal em razão da divulgação de informações caluniosas e difamatórias sobre Lídia Mazelli e sua relação profissional com Willer Tomaz.
Há, inclusive, investigação criminal em andamento para apurar a conduta dos jornalistas Paulo Motoryn e Alice Maciel, vinculados ao ICL, diante de episódios da prática de perseguição reiterada (stalking) contra Lídia Mazelli.
O ICL informa que ainda não foi notificado acerca da existência de qualquer investigação ou processo.
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