Criada em dezembro de 1972 e implementada em abril de 1973 para desenvolver tecnologias aplicáveis à agricultura nacional, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é considerada uma das principais responsáveis por transformar o Brasil de importador líquido de alimentos em uma das maiores potências globais no campo.
Tudo começou com a capacitação de pesquisadores nacionais. Em 1974, quando ela ainda se estruturava, havia 273 pesquisadores em cursos de mestrado em agricultura, sendo que 20 estavam no exterior. Por um período de 12 anos, a Embrapa promoveu o envio de mais de 2 mil pessoas para estudar nos melhores centros acadêmicos do exterior voltados a cultivos que precisavam ser desenvolvidos no Brasil.
“Havia uma demanda do País de garantir segurança alimentar e fazer com que as tecnologias chegassem ao campo, para que fosse possível ampliar a extensão rural. E, para isso, a gente precisava treinar pesquisadores para adaptar as tecnologias à nossa realidade de clima tropical”, afirma a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá.
Hoje, já são mais de 2,5 mil pessoas que passaram por essa formação externa, a cargo da empresa e de suas fontes financiadoras, como o próprio governo e mecanismos de fomento internacionais, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Quando eles começaram a voltar ao Brasil, ajudaram a revolucionar o campo, criando soluções para produzir no Cerrado e aproveitar melhor o solo nacional, além de aprimorar a criação de animais e a fruticultura. Tudo isso permitiu que o País virasse a maior potência global em soja.
Para realizar esse feito, foi necessário gerar ciência tropical de ponta, com a adaptação de sementes aos solos locais, que também sofreram correção e houve avanços para fixar o nitrogênio na terra. Este último avanço graças aos esforços da cientista Mariangela Hungria, que chegou a ser lembrada pela revista Time como uma das pessoas mais influentes do mundo. O trabalho dela permitiu que os agricultores economizassem custos ao não precisarem introduzir adubos sintéticos no solo para produzir soja.
Outro grande nome dentre os diversos pesquisadores marcantes da história da Embrapa está o do chamado “pai da soja tropical”, o apelido recebido pelo engenheiro agrônomo Romeu Afonso de Souza Kiihl. Hoje, com 84 anos, ele desenvolveu, durante 60 anos de profissão, mais de 150 variedades de sementes de soja adaptadas a várias regiões do País, em especial para o Cerrado.
“O sucesso da soja no Brasil central é a combinação de três coisas. A genética, que fez a soja com o período juvenil longo; os solos, que foram corrigidos por meio de calagem e fertilização; e o agricultor brasileiro”, afirmou Kiihl, no ano passado, ao Estadão. “Eu sou admirador do agricultor brasileiro porque a coragem que esse pessoal tem, eu acho incrível.”
Dessa forma, com as inovações da Embrapa, o agro pôde avançar além das suas áreas mais tradicionais no Sul e Sudeste do Brasil, desenvolvendo o Centro-Oeste e a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), e criou riquezas para se tornar o “celeiro do mundo”. Um dos pontos primordiais do projeto, inclusive, foi a distribuição das 43 unidades da Embrapa por meio de uma rede descentralizada, dividida em zonas ecológicas, o que permitiu espalhar as pesquisas de acordo com as culturas e desafios de cada região.
A expansão rural contou com uma geração de agricultores gaúchos que saiu do Rio Grande do Sul, rumando para o norte, se abrigando em lonas pretas amarradas no caminhão, com um cachorro e um trator, como costuma caracterizar o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.
“Bem no começo da minha vida, passei por um lugar chamado Chapadão dos Gaúchos. Era um posto de gasolina. Hoje é a cidade Chapadão do Sul, no norte de Mato Grosso do Sul. É uma cidade enorme, com grande progresso”, conta Kiihl. “Quando a soja entra numa região, leva muita coisa além dela: tecnologia, progresso e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) para a região. Pode pegar as cidades do Brasil Central, vai para Sinop (MT), vai para Lucas do Rio Verde (MT), Primavera do Leste (MT), Chapadão do Sul. É uma maravilha.”
Resultados para a economia ao longo dos anos
Esses importantes avanços deram o impulso que o agronegócio brasileiro precisava para continuar se desenvolvendo pelas décadas seguintes. De 2002 até 2019, a produtividade da economia brasileira cresceu 18,7%, um resultado que seria bastante pior se não fosse o agro. O setor promoveu um aumento de produtividade, nesse período, de 80,1%, contra apenas 10,3% dos serviços e 5,4% da indústria, segundo levantamento realizado pelos pesquisadores Alan Bueno e Diogo Ferraz, com base em informações oficiais.
Um outro estudo, de pesquisadores das universidades MIT, Princeton e Notre Dame, com o BID, concluiu que o investimento público em pesquisa agrária gerou retorno de R$ 17 para cada R$ 1 investido.
“Hoje, a gente tem uma agricultura que é referência para o mundo todo. A gente gera esse incômodo todo, inclusive para os EUA, por ser um grande produtor de alimentos”, afirma Silvia. “A nossa visão hoje é de uma agricultura multifuncional. Além da produção de alimentos, temos fibras e energia. Podemos produzir biocombustíveis sem prejudicar a produção de alimentos, tendo duas ou três safras.” Dessa forma, a segurança alimentar não é mais um problema para o Brasil, como foi percebido por outros países durante a pandemia de covid-19.
Origens e protagonistas da Embrapa
Quem simplesmente acompanha os fluxos de comércio internacional e como o Brasil abastece diversas regiões do planeta com alimentos dificilmente sabe que, na década de 1970, o País precisava importar comida para alimentar a própria população, que na época ainda contava com apenas “90 milhões em ação”, como dizia a canção símbolo da seleção brasileira na Copa de 1970.
Foi nesse cenário que a estatal surgiu para promover mudanças necessárias. Mas a sua origem e o papel de cada personagem relevante para estabelecer o projeto eram pouco conhecidos até poucos anos.
A Embrapa, durante as suas cinco décadas de operação, tinha uma área de comunicação forte, dando prioridade a divulgar os conhecimentos gerados pelos pesquisadores da estatal, para que fossem aplicados, de fato, pelos agricultores. Ela abastecia o popular programa Globo Rural, da TV Globo, nas manhãs de domingo, com novidades para o plantio e a pecuária, fazendo com que chegassem aos produtores.
“Houve cidades do interior que precisaram mudar a hora da missa porque as pessoas queriam ver o Globo Rural”, diz Elisio Contini, que entrou como pesquisador da Embrapa em 1976, se especializando nos mecanismos de financiamento dos projetos e que já escreveu artigos e livros sobre a história da agricultura brasileira.
Os agricultores podiam nem saber que as inovações tinham saído da Embrapa, mas elas chegavam ao campo. E os governantes também sabiam o papel da estatal no sucesso do agronegócio, a ponto de evitarem interferir no trabalho técnico feito e fazerem indicações políticas para cargos na empresa, o que é tão comum em tantas estatais, sob risco de estragar o que funcionava.
A sociedade interessada só começou a conhecer nos últimos anos as contribuições de figuras como a do agrônomo Eliseu Alves, hoje unanimemente considerado o principal responsável pelo sucesso do projeto, e do economista José Pastore, reconhecido especialista em trabalho e colunista do Estadão, responsável pelo início dos estudos que mostravam a necessidade de criação da empresa. Também foram essenciais o primeiro presidente da instituição, José Irineu Cabral, os ministros da Agricultura, Luiz Fernando Cirne Lima e Alysson Paolinelli, que, respectivamente, deram início e depois permitiram que a estatal engrenasse, e até o ministro da Fazenda da época, Antonio Delfim Netto. Todos eles foram nomes importantes para que a estatal se estabelecesse nos primeiros anos e alcançasse os seus primeiros resultados relevantes.
“No início da década, com a industrialização avançando, o País passava por um processo de urbanização, e começava a ter problemas para abastecer a cidade”, diz Contini. “Enquanto as pessoas estavam no campo, tinha a agricultura de subsistência para prover seus alimentos. A partir do momento em que migraram para as cidades, o Brasil começou a precisar empregar tecnologia para aumentar a produção.”
Durante décadas, Pastore e Eliseu não quiseram fazer propaganda sobre como tiveram a ideia de criação da Embrapa. E muito da fama coube a Paolinelli, que assumiu o Ministério da Agricultura em 1974 e foi responsável por promover a abertura de diversas unidades da Embrapa. A história mais detalhada sobre o surgimento da estatal começou a ser contada a partir de livro-entrevista de 2018 com Eliseu, feito por Jorge Duarte e chamado “Prosa com Eliseu”.
Pastore também contou, por sua vez, para esta reportagem como tudo aconteceu. A semente da Embrapa começou na Abcar (Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural), que trabalhava com extensão rural e era sediada no Rio de Janeiro. O presidente da associação, Aloisio Campelo, convidou o economista, que havia retornado de estudos nos EUA, para prestar consultoria de como difundir melhor as tecnologias, e o apresentou a Eliseu, que fazia consultoria para uma afiliada mineira da Abcar.
Pastore aceitou prestar o serviço, com uma visita semanal à sede da associação, para não perder o trabalho a que se dedicava na Universidade de São Paulo (USP). “Ao chegar ao Rio, para começar o projeto, conheci pessoalmente o Eliseu, com quem falava apenas por telefone”, diz.
“Começamos a trabalhar, mas logo o Eliseu saiu com uma que foi genial: ‘Estamos aqui trabalhando para difundir tecnologia. Mas o problema não é este. O problema é que não existe tecnologia adequada para o Brasil. Estamos trabalhando no problema errado. Precisamos trabalhar do lado da pesquisa, para gerar a tecnologia, para depois o pessoal difundir para o campo’.”
Essa conclusão foi levada a Campelo, que concordou e decidiu apresentar os dois ao ministro Cirne Lima. “Ele virou para mim à queima-roupa e perguntou o que precisava para ter um sistema eficiente de pesquisa no Brasil, e eu respondi também à queima-roupa: você precisa ter bons pesquisadores e mais nada”, conta Pastore.
O País historicamente era um grande exportador de café, cana-de-açúcar e algodão. E os pesquisadores da época gostavam de estudar essas culturas, já que os resultados interessavam às universidades internacionais e davam mais visibilidade a eles. Mas poucos se dedicavam à mandioca ou ao feijão. Assim, o Brasil precisava importar produtos que fazem parte da mesa do brasileiro, como também o arroz, milho, frutas, carnes e trigo.
Eliseu, então, sugeriu ao ministro mandar pesquisadores para as melhores universidades do mundo para estudarem as coisas básicas, como genética, semente especializada e solo, e depois pesquisarem esses produtos.
Pastore e Eliseu receberam um jetom simbólico para desenvolver um projeto que Cirne Lima apresentou ao presidente Emílio Garrastazu Médici. O trabalho indicava que seria necessário treinar 1 mil pessoas no exterior, a partir de uma empresa pública ligada ao Ministério da Agricultura, que daria mais segurança financeira e agilidade ao projeto, do que se fosse por meio de uma fundação ou associação.
Médici aceitou sem mexer no projeto ou fazer sugestões. Apenas tentou demover Cirne Lima de treinar tanta gente e pediu para enxugar o projeto. O ministro, no entanto, o convenceu de que o número era importante para trazer resultados concretos. A única observação para se criar a Embrapa era de que Pastore e Eliseu deveriam fazer contato com instituições de financiamento internacionais para garantir recursos ao plano.
Depois de colocada de pé a estatal, Pastore e Eliseu queriam voltar a seus projetos anteriores. Pastore, por estar mais ligado à economia e ciências sociais, conseguiu retornar à USP para se preparar para se tornar professor titular. Eliseu queria voltar a Minas Gerais, mas recebeu a sugestão, conforme conta em entrevista a seu livro, de que isso desagradaria os militares e que não conseguiria mais trabalho no País. Então, aceitou o cargo de diretor de recursos humanos e depois se tornou presidente da Embrapa nos anos 1980.
Mas, só depois de ter o seu nome limpo entre os militares, já que o agrônomo conta que era visto como um “criptocomunista”. Ou seja, “quem parecia ser uma pessoa comum, mas escondia uma ideologia”.
“Segundo eles, eu protegia estudantes que, para se subtraírem da perseguição do regime, pediam para fazer doutorado”, contou Eliseu. Isso acontecia por evitar fazer demissões pedidas por militares que observavam as instituições e lutar contra indicações políticas para cargos.
O político contrariado buscava, então, denegrir a sua imagem junto a esferas do governo e do comando militar. Enquanto isso, para proteger o projeto da Embrapa, Eliseu recorria a ministros que o apoiavam, como Delfim e os ministros da agricultura, ou até mesmo ao presidente João Figueiredo. Era a forma de preservar o caráter radicalmente meritocrático e técnico da Embrapa.
Quando a estatal completou 50 anos de atividade em 2023, Eliseu, Pastore e Cirne Lima participaram de comemoração em Brasília. Do palco, o presidente da Embrapa se dirigiu a eles, conforme conta Pastore: “Estamos aqui porque esses caras bolaram esta empresa. Eles sugeriram treinarmos 2 mil brasileiros nas melhores universidades do mundo. Agora, vou dar uma notícia para eles que vão se espantar. Treinamos 2,5 mil brasileiros.”
“Eu e o Cirne nos espantamos mesmo. O Eliseu não, porque ele manteve contato com a Embrapa”, diz Pastore. “Nós festejamos isso.” A Embrapa ainda continua treinando pessoas. Os primeiros estão se aposentando e uma nova geração vem chegando.
Agora, com novos desafios, segundo conta a atual presidente, Silvia Massruhá. Diversos problemas já foram solucionados e alguns campos de estudos desenvolvidos pela Embrapa foram assumidos pela iniciativa privada nos últimos anos. Agora, o foco de criação de conhecimento vem se voltando para áreas que envolvem mudanças climáticas, como o fenômeno do El Niño, recuperações de pastagens, restauração florestal, integração lavoura e pecuária, análise biológica do solo e uma transição global para uma agricultura mais sustentável para o meio ambiente.
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.

























