A Polícia Federal extraiu do celular do banqueiro Daniel Vorcaro um período de aproximadamente três meses de conversas com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no qual há menções a seis encontros entre eles. O histórico das conversas mais antigas estava apagado.
O Estadão teve acesso aos detalhes da extração da conversa entre Flávio e Vorcaro obtida pela PF no celular do dono do Banco Master. Os registros mostram que Flávio tentou falar com Vorcaro nos quatro dias anteriores à prisão dele. A assessoria do senador foi procurada, mas não se manifestou.
A extração do diálogo mostra que o contato de Vorcaro com Flávio teve início no dia 16 de dezembro de 2024, quando o banqueiro adicionou o telefone do senador à sua lista de contatos. Naquele mesmo dia, o diálogo mostra uma ligação de WhatsApp perdida.
Em seguida, o aplicativo registrou que Flávio Bolsonaro usava uma função de apagar automaticamente as mensagens após 90 dias. Por causa disso, as conversas encontradas entre eles no celular de Vorcaro só abrangeram o período de 20 de agosto a 16 de novembro de 2025 – no dia seguinte, o banqueiro foi preso pela PF e teve seu celular apreendido.
Ao longo desse intervalo de três meses, as conversas registram menções a seis encontros entre eles. Não é possível saber se efetivamente ocorreram. Nesse período, Vorcaro tentava vender o Banco Master e passou a ser alvo de investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de crimes financeiros. Nos diálogos, Flávio cobrou pagamentos de Vorcaro ao filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que haviam sido acertados anteriormente com o banqueiro. O total repassado foi de cerca de R$ 60 milhões. As mensagens com as cobranças sobre o filme foram divulgadas em maio deste ano pelo site Intercept Brasil.
O primeiro encontro mencionado foi em 20 de agosto de 2025. O diálogo indica que ele efetivamente ocorreu. Nesse dia, Vorcaro enviou uma mensagem às 17h22: “21 pode ser”. “Blz”, respondeu Flávio. Às 21h47, ele disse a Vorcaro: “A caminho”. Quinze dias depois, o Banco Central reprovou o negócio entre o Master e o Banco Regional de Brasília (BRB) após pouco mais de cinco meses de análise.
Em 17 de setembro de 2025, Vorcaro fez contato para agendar mais um encontro. “Opa. 14h30?”, escreveu às 12h51. Flávio confirmou o horário: “Hop. Blz”.
No dia 24 de setembro, eles conversaram novamente para tentar marcar um encontro, mas houve incompatibilidade de agendas. “Irmao, Infelizmente vou precisar ficar em sp amanha. Poderiamos marcar terça final dia ou quarta qq hora?”, escreveu Vorcaro.
Apesar de não deixar claro, a conversa indica que Vorcaro tinha um encontro marcado com Flávio naquela semana e tenta remarcá-lo para a semana seguinte. “Fala mermao, veja o que for melhor pra vc. Vou estar aqui a semana toda”, respondeu Flávio. Eles conversaram, em seguida, por ligação de WhatsApp, que durou 1 minuto e 50 segundos.
Na semana seguinte, Vorcaro enviou mensagem no dia 1.º de outubro para marcar um encontro, um dia depois de a PF abrir inquérito para investigar crimes na gestão do Master e tentativa de compra pelo BRB. A conversa não registrou resposta de Flávio.
Em 22 de outubro, Flávio fez contato com Vorcaro para tentar marcar um jantar do banqueiro com a equipe do filme “Dark Horse”. “Topa jantar com o Jim Caviezel e o Cyrus em São Paulo no dia 2/Nov (segunda)? Totalmente reservado”, escreveu. Jim Caviezel e Cyrus Nowrasteh são, respectivamente, o ator principal, que interpreta Jair Bolsonaro, e o diretor da produção.
Vorcaro acena positivamente e lhe pergunta se gostaria de fazer o encontro em sua casa. “Eu tinha uma viagem. Vou me reorganizar aqui”, afirmou. Eles conversaram outras vezes nos dias seguintes para tentar viabilizar uma data, mas a conversa indica que esse encontro acabou não ocorrendo.
Nesse mesmo dia, 22 de outubro, Vorcaro chamou Flávio para um café. “Tá em Bsb?”, perguntou ao senador. Flávio respondeu: “Tô sim”. Vorcaro, então, sugeriu um encontro: “Tomar café amanhã?”. Flávio, porém, disse que não estaria em Brasília e tentou marcar o encontro para aquele mesmo dia. “Eu viajo amanhã de manhã e só volto na segunda à noite. Quer falar hj a noite?”, escreveu. “Hoje à noite não consigo, pena!”, respondeu Vorcaro.
‘Vc tá indo Dubai?’
Nessa mesma conversa, Vorcaro perguntou a Flávio se ele viajaria a Dubai. Naquele período, o Banco Central já sinalizava que poderia liquidar o Master e, por isso, Vorcaro buscava uma saída para vender o banco e mirava investidores dos Emirados Árabes Unidos.
Como mostrou o Estadão, Vorcaro montou uma ofensiva comercial nos Emiradores Árabes Unidos que envolveu até mesmo a participação do ex-presidente Michel Temer para uma série de reuniões com autoridades e empresários na tentativa de venda do seu banco. O banqueiro viajou para lá no início de novembro.
As mensagens indicam que Vorcaro também buscou a ajuda de Flávio Bolsonaro para essa operação. Pelo diálogo, não é possível saber se o senador fez alguma ação concreta para o banqueiro.
“Vc tá indo dubai?”, perguntou a Flávio, às 20h10 do dia 22 de outubro. “Não, acho que meu irmão tá indo”, respondeu o senador. Apesar de não tê-lo citado nominalmente, trata-se de uma referência ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que na época já estava morando nos Estados Unidos. Vorcaro replicou: “Fiquei sabendo por isso perguntei!”. Flávio, então, colocou-se à disposição para acionar a ajuda de seu irmão. “Tá precisando de algo lá? Peço pra ele te encontrar”, disse o senador.
Procurado, Eduardo Bolsonaro disse que nunca se encontrou Vorcaro. “De forma inequívoca: nunca me encontrei com Vorcaro, pessoalmente ou por videoconferência, e nunca falei com ele nem mesmo por WhatsApp. Exatamente por isso nenhuma conversa comigo foi encontrada em nenhum dos seus telefones. Mas, sendo honesto, naquele momento, não teria nenhum problema em me encontrar com qualquer investidor ou potencial investidor do filme, ainda mais um banqueiro renomado”, afirmou em nota.
Flávio Bolsonaro confirmou apenas um encontro presencial com Vorcaro. Ele admitiu que foi à casa do banqueiro no fim de 2025, após a primeira prisão do dono do Banco Master. Em pronunciamento à imprensa, ele afirmou que foi à residência do banqueiro em São Paulo para “pôr um ponto final nessa história”, em referência à negociação para o financiamento do filme sobre seu pai.
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