Como promotor de justiça, Alfredo Gaspar chegou ao topo da carreira ao chefiar o Ministério Público de Alagoas entre 2017 e 2020. Sua atuação contra o crime o levou à política logo ao deixar o cargo, quando foi ao segundo turno da disputa para a prefeitura de Maceió. Foi secretário da Segurança Pública do governador Renan Filho (MDB), com quem rompeu em 2022 ao migrar para o União Brasil e ser eleito deputado federal. Na Câmara, ganhou destaque ao ser escolhido relator da CPMI do INSS, que se debruçou sobre o esquema que roubou bilhões de reais de aposentados. Chamou ainda mais a atenção ao propor em seu relatório final a prisão de Fábio Luís Lula da Silva, filho de Lula, por envolvimento com investigados no esquema — o relatório foi rejeitado por pressão da base governista. A experiência em segurança pública, tema central da eleição, a atuação na CPMI, a ida para o PL e o fato de ser do Nordeste, reduto do PT, o alçaram a vice na chapa de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Em entrevista a VEJA, Gaspar afirma que Lula “não é mais um imperador” entre os nordestinos, diz que o presidente usa a PF para perseguir adversários e afirma que o ministro Alexandre de Moraes deve deixar o Supremo após as revelações sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. “Ele perdeu completamente a condição de permanecer ministro”, afirma.
O afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, do cargo pelo ministro André Mendonça foi acertado? Não estamos em tempos normais. A oposição está denunciando há algum tempo a instrumentalização da PF. Há uma perseguição sistemática a adversários políticos. Já as investigações contra o filho do presidente não andam. Demorou muito a decisão. Andrei e o ministro Alexandre de Moraes estão na mesma toada. E Moraes e Lula são duas faces da mesma moeda. O presidente vive dizendo que é a “sua PF”. Essa instrumentalização faz mal à democracia, à República e ao Brasil.
Como a campanha vê a atual crise do Supremo? Existe alguma saída? Flávio é um bolsonarista moderado. Nós respeitamos a instituição Supremo Tribunal Federal. Não concordamos é com alguns membros da Corte que estão rasgando a Constituição. Cada Poder tem que ocupar seu espaço sem se sobrepor ao outro. Flávio não é uma ameaça nem quer declarar guerra ao Supremo. O que não vamos admitir é que um magistrado como Alexandre de Moraes se ache o imperador do Brasil, queimando a Constituição para perseguir adversários. Ele perdeu completamente a condição de permanecer ministro.
“Nós respeitamos a instituição STF. Não concordamos com membros da Corte que estão rasgando a Constituição. Flávio não é uma ameaça nem quer declarar guerra ao Supremo”
O seu relatório final na CPMI do INSS pediu a prisão de Lulinha. O que há de concreto contra ele? Quando nós iniciamos a CPMI, não havia absolutamente nada. O alvo sempre foram os descontos por sindicatos e associações, que roubaram bilhões de reais. Depois chegamos a uma figura icônica, o Careca do INSS (o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, principal investigado no esquema) e descobrimos que ele tinha uma sociedade oculta com dois personagens: Roberta Luchsinger, que recebeu milhões de reais dele, e Lulinha. O Careca do INSS estava bancando o filho do presidente em viagens internacionais em classe executiva e hotéis de luxo. Lulinha e Roberta se associaram a ele na empresa World Cannabis e negociavam com o Ministério da Saúde quase 1 bilhão de reais em venda de canabidiol. Roberta recebia dinheiro do Careca do INSS e pagava as contas pessoais de Lulinha. Terminamos descobrindo uma organização criminosa e vimos o tráfico de influência praticado por Lulinha no governo do pai, além de corrupção.
Qual é o crime que o filho do presidente cometeu? Quando as portas estavam muito trancadas, quem as destrancava era Lulinha. Aconteceu isso no Ministério da Saúde e na Dataprev. Mas não tivemos tempo para investigar. Quando quebramos o sigilo de Lulinha, que movimentou 19 milhões de reais em cinco anos, o ministro Flávio Dino anulou o ato. Não sabíamos que o gabinete presidencial estava envolvido, que havia a participação do Marcola (Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-assessor de Lula). Mesmo com toda a instrumentalização, a PF, por ordem do Supremo, abriu três inquéritos contra Lulinha, provando que nossa investigação estava no caminho certo.
Na CPMI, o senhor foi acusado de mirar a gestão atual e poupar a de Jair Bolsonaro, quando o esquema começou. A comissão cumpriu seu papel? Em 1993 a lei começou a permitir o desconto associativo na conta do aposentado e pensionista. A safadeza começou aí. Só que a CPMI teve um escopo temporal definido: 2015. Não fomos além disso por conta do marco da prescrição punitiva. Não adianta investigar o passado se não ia resultar em uma prestação jurisdicional efetiva. Não foi no governo Bolsonaro que começou, isso vem desde 1994. No governo Lula isso explodiu, porque toda a estrutura hierárquica do Ministério da Previdência estava envolvida. O ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto permitiu que até entidades sem carta sindical pudessem descontar. Nunca foquei no governo Lula, foquei no dinheiro. E eu também pedi o indiciamento de José Carlos Oliveira, ex-ministro da Previdência de Jair Bolsonaro. Mas não posso tapar o sol com a peneira. Foi no governo Lula que o roubo se generalizou.
Flávio pediu milhões de reais a Daniel Vorcaro, dono do Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O senhor ficou satisfeito com as explicações dele até agora? É claro que causou um abalo na campanha antes de Flávio se explicar. Jair estava preso, limitado em seus direitos, com a imagem trucidada. Aí vem a ideia de se fazer um filme sobre a história dele, assim como teve um filme sobre Lula. Sem que Flávio conhecesse Vorcaro durante o governo do pai, alguém o indicou como uma pessoa disposta a patrocinar a produção. Na época não tinha investigação da PF ou do Ministério Público. Vorcaro estava patrocinando eventos com ministros do STF e com os presidentes das Casas Legislativas. Depois é que se descobriu quem era Vorcaro. Flávio não tinha bola de cristal. Se eu não acreditasse no propósito dele, na boa-fé, não teria aceitado compor a chapa.
O senhor, que é de Alagoas, e o senador Rogério Marinho, que é do Rio Grande do Norte, foram escalados para buscar apoio no Nordeste, reduto de Lula. Qual estratégia está sendo pensada? Em 2002 e 2006, Lula era um imperador na região porque vinha com uma mercadoria muito cara ao nordestino, que tem muita fé: ele vendia a esperança de uma vida melhor. Infelizmente, após vinte anos no poder, não conseguiu concretizar esse futuro. Nossa estratégia é falar a realidade, mostrar que Lula se transformou no caloteiro da esperança. Ele quer manter um bolsão de assistencialismo para ter a região como curral eleitoral. Flávio fala em manter o assistencialismo, mas com porta de saída. As pessoas querem oportunidades, coisa que o Lula não soube dar porque é preso ao passado. Nós queremos um futuro com prosperidade.
Um dos motivos para convidá-lo a ser vice de Flávio é sua atuação na segurança, um tema prioritário nestas eleições. O senhor é a favor de uma política criminal mais dura, como reduzir a maioridade penal? Hoje, o menor de 18 anos de idade pode matar, estuprar, praticar chacina, um ato de terrorismo, seja o que for, o tempo máximo de internação é de três anos. Eu sou a favor da redução. Se você pode votar com 16 anos de idade e escolher o destino do país, também pode responder penalmente pelos atos graves que cometer. Eu até propus uma legislação para permitir que a internação possa durar até os 25 anos de idade — hoje é, no máximo, até 21.
“Nossa estratégia no Nordeste é mostrar que Lula se transformou no caloteiro da esperança. As pessoas querem oportunidade, coisa que ele não soube dar porque é preso ao passado”
O que pensa sobre castração química para estupradores, defendida por Flávio? As mulheres nunca estiveram tão desprotegidas. O Brasil perdeu a mão no combate aos crimes sexuais. Muitos estupradores estão por aí, cumprem uma pequena parte da pena, vão para a rua e praticam outros crimes gravíssimos contra mulheres, contra menores, às vezes até contra pessoas idosas. Propus na Câmara a castração química para que o criminoso não alcance a liberdade sem antes ter esse tratamento para acabar ou restringir o desejo sexual descontrolado. Foi aprovado e está no Senado.
O senhor apoia enquadrar facções como grupos terroristas, como fez os EUA? O governo Lula é contra a medida. A gente precisa prender mais, ter tolerância zero com essa bandidagem grave. A política penal que o Brasil precisa é aquela que traga soberania ao país dentro do nosso território. Cinquenta milhões de brasileiros só têm internet, água, coleta de lixo, transporte e liberdade de andar na rua se as facções criminosas permitirem. Isso não pode continuar. O Brasil precisa ser devolvido aos brasileiros, e não dá para devolver com flores.
Flávio disse que pretende subir a rampa do Palácio do Planalto ao lado do pai. Como esperam colocar o ex-presidente em liberdade? Simbolicamente, Flávio cita Jair Bolsonaro, mas ele está falando de todos os injustiçados pelo 8 de Janeiro. Quem foi o grande salvador dessa democracia? Alexandre de Moraes. E ele foi desmascarado. Essa suposta salvação serviu para enriquecimento ilícito. Os atos praticados como vingança contra o povo brasileiro, contra quem não coaduna com o PT, com Lula e com Moraes, serão anulados mais cedo ou mais tarde. Não tenho dúvida de que o Supremo vai rever essas condenações.
O senhor confia nas urnas eletrônicas? Eu fui eleito deputado federal pelas urnas eletrônicas. Não estamos mais fazendo essa discussão. É tecnologia. E a tecnologia tem que ser sempre transparente, vigiada, auditada. Disso não resta a menor dúvida.
Na CPMI o senhor foi acusado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) de estupro de vulnerável. O que vai fazer com essa acusação? Foi uma fake news criminosa, dita na hora em que eu estava lendo um relatório de mais de 4 000 páginas pedindo o indiciamento de 216 personagens, entre eles o filho do presidente da República, que hoje a PF está investigando. Na mesma hora eu repeli, porque foi uma acusação infame, gravíssima. Usaram um grito falso de uma vítima que não existe. Representei na PF, no Supremo e na Procuradoria-Geral da República. Só há duas alternativas. Se for verdade — e não é —, eu vou preso. Se for mentira, quero a prisão de Lindbergh e Soraya, que são dois criminosos. Foi tudo armado, uma cortina de fumaça para abafar o pedido de prisão de Lulinha.
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012
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