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‘Não somos golpistas’, afirma ex-comandante que disse não a Bolsonaro

Samuel Azevedo by Samuel Azevedo
17/08/2026
in Brasil
Reading Time: 7 mins read
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As quase cinco décadas dedicadas ao serviço militar não foram suficientes para preparar Carlos de Almeida Baptista Júnior, 65 anos, para o que iria presenciar no governo de Jair Bolsonaro na condição de comandante da Força Aérea Brasileira. Após as eleições de 2022, o tenente-brigadeiro do ar se viu pressionado por aliados do ex-presidente a apoiar um golpe de Estado que impedisse a posse de Lula. BJ, como é conhecido, no entanto, se recusou a participar da trama golpista, em um ato fundamental para impedir uma escalada autoritária no país. Dois anos depois, ele voltaria a desempenhar um papel cabal na manutenção da democracia, ao prestar um depoimento no Supremo Tribunal Federal que ajudou a colocar atrás das grades o ex-presidente e alguns de seus colegas de farda. Passado o turbilhão, o oficial foi para a reserva e se isolou em sua casa em Brasília com o objetivo de colocar as memórias no papel, no livro “Eu disse não — Uma trincheira antigolpista”, (editora Autêntica, 240 págs.), que acaba de ser lançado. Na entrevista a seguir, ele conta alguns dos bastidores dessa história, reflete sobre os rumos do país, e garante: o povo não quer uma ditadura.

Qual foi o preço que o senhor pagou por ter se posicionado contra o golpe? O pior de tudo aconteceu no campo pessoal. Até hoje uma grande parte acha que me chamar de melancia — militar que usa uniforme verde por fora, mas é vermelho e, portanto, comunista por dentro — vai me afetar. Eu sou uma pessoa pública, consigo lidar com ataques, mas a minha família não deveria ser envolvida nisso. Passaram dos limites.

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Quem o atacou? O general Braga Netto, que tinha como um grande amigo, orquestrou uma campanha de difamação contra mim. Militares da reserva, principalmente mais antigos, que entraram nas Forças Armadas no período de governo militar de 1964, também me criticaram. Perdi amizades de 50 anos, mas nunca tive dúvidas sobre como me posicionar. Não sou herói por cumprir a lei. É uma obrigação que deveria ser seguida por todos.

Temeu pela vida naquele momento? Eu tinha medo e até hoje tomo cuidados quanto à minha segurança. Só saio de casa com algumas precauções e, em certas situações, posso requisitar escolta.

As polêmicas de Jair Bolsonaro na prisão domiciliar

Dizer não para o golpe foi o que impediu uma ruptura institucional? O fato de não haver unanimidade nas Forças Armadas foi crucial para impedir o golpe, mas é preciso considerar também o peso das instituições e os anseios populares. O povo não quer uma ditadura. Nós conhecemos os problemas e carências da nossa sociedade e uma parcela pode ter a impressão de que um atalho autoritário é o melhor caminho para transformar o país, mas não há atalhos na democracia. Quando criança, acompanhava meu pai em visitas aos amigos dele que foram cassados em 1964. O Brasil não quer repetir esse caminho.

Por que não denunciou Bolsonaro na reunião em que discutiram medidas golpistas? Há quem diga que cometi prevaricação, mas um comandante militar prender ou denunciar o presidente teria graves consequências por muitos anos. Um grande amigo me disse uma vez: “Quando você não consegue desarmar a bomba, atrasa o relógio”. A estratégia era evitar a ruptura e chegar a primeiro de janeiro sob a normalidade.

Em seu depoimento ao STF, o senhor disse que Freire Gomes, ex-comandante do Exército, chegou a dar voz de prisão ao então presidente, mas seu colega o desmentiu no Tribunal. Por quê? Precisa perguntar para ele. Talvez para quem escuta, a lembrança seja mais forte do que para quem falou, mas não é uma coisa que eu esqueceria facilmente. Reconheço ser uma situação difícil para um ex-comandante do Exército. Ele disse: “Se o senhor fizer isso, eu vou ter que lhe prender”, mas de forma educada e não brincando ou com ironia. Sigo sendo amigo de Freire Gomes, com quem me dou bem até hoje.

Qual foi a última vez que falou com Bolsonaro? Depois que deixei o comando da FAB, me mudei para um apartamento com vista para a praça dos Três Poderes. No dia 8, assisti toda confusão e, cerca de 15 dias depois, vi na televisão uma tarja que dizia algo do tipo: “Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, coloca a culpa de quase tudo o que deu errado no governo Bolsonaro nos militares”. Indignado, tirei uma foto da tela e mandei para o presidente, que estava nos Estados Unidos. Ele me ligou e eu disse: “o senhor deveria impedir esse tipo de reação”. Ele respondeu que não conseguia controlar o que os outros faziam. Foi nosso último contato.

Bolsonaro politizou as Forças Armadas? Não creio. As Forças Armadas são feitas de cidadãos com direitos políticos, o que ocorreu foi justamente o inverso: a militarização do governo. Quando Fernando Henrique assumiu, levou acadêmicos. O Lula, sindicalistas. Bolsonaro recorreu aos oficiais, que eram pessoas de confiança dele. Não acho um erro os militares terem participado do Executivo, pessoalmente, porém, considero que a presença de quem usa farda foi exagerada. É necessário acabar com a possibilidade de o militar da ativa ser cedido para trabalhar em órgãos públicos. Isso está sendo discutido no Congresso e deve ser repensado, principalmente para os cargos de primeiro e segundo escalão. Quando saí para trabalhar na iniciativa privada, tive que cumprir quarentena e defendo essa regra.

Há um longo histórico de golpes militares no Brasil. Afinal, as Forças Armadas não veem problema nesse tipo de expediente? Não somos golpistas. Houve uma evolução do pensamento militar, sempre muito próximo à democracia. A interpretação de que as Forças Armadas poderiam funcionar como um poder moderador está quase que completamente superada, elas estão aqui para trabalhar em prol do Brasil e da defesa nacional.

Como fica a imagem dos militares após esse episódio? Quem está na ativa se preocupa com a queda da confiança na instituição. Quem desconfia das Forças Armadas deveria ser um pouco mais honesto e admitir que isso ocorre porque elas não apoiaram o rompimento da democracia. Tenho certeza, contudo, que as pessoas vão entender que as Forças não têm lado político e a credibilidade irá retornar aos níveis anteriores.

O senhor é favorável à anistia para quem participou dos atos de 8 de Janeiro? Sim. As pessoas que estavam na Praça dos Três Poderes não tinham como dar um golpe. Eu sinto muito que elas tenham sido levadas a passar dos limites, por uma operação de cunho psicológico. As penas foram excessivas em relação ao que cometeram, deveriam ser anistiadas ou, no mínimo, ter as sentenças revistas. Houve excessos no processo, não se pode ultrapassar os limites do estado democrático de direito e colocar todo mundo no mesmo pacote.

E o julgamento dos réus da ação penal da trama golpista, foi justo? Quem estava no núcleo do golpe acabou tendo penas muito altas por uma compreensão de que os crimes eram cumulativos. A tentativa de golpe de estado e a abolição do estado democrático de direito deveriam ser unificadas.

O senhor se alinha a quem faz severas críticas ao STF? Já completamos nove anos do inquérito 471, aquele das fake news em que os ministros adotaram uma interpretação ampliada do regimento interno. Em um jantar na minha casa, cheguei a comentar com o ministro Dias Toffoli: “Imagina se cada comandante de batalhão que for atacado na internet começar a abrir inquérito”. Isso favorece o esgarçamento institucional.

É o caso de uma reforma da corte? Os ministros têm muito poder, que precisa ser limitado pelo tempo. Deveria haver mandatos fixos, cabendo ao Congresso discutir se de oito, dez ou doze anos. Essa oxigenação seria positiva para o Tribunal, assim como um código de ética que abarque casos concretos de conflito de interesses e de apadrinhamento.

Como se define ideologicamente? Tenho dificuldade de me definir nestes termos. Em 2002, votei no Lula contra o Serra. Em 2018, optei por Bolsonaro por ele ser contra a reeleição, assim como eu. Eu e minha mulher vestimos até a camisa do Brasil. Acabei optando por Bolsonaro novamente em 2022 porque acho que a manobra jurídica de soltar o presidente Lula foi casuística. Em outubro, terei muita dificuldade em votar em qualquer candidato. Infelizmente, estamos nos acostumando a escolher aqueles pelos quais sentimos menos repulsa.

O que acha de Flávio reeditar o discurso do pai, colocando as urnas eletrônicas sob suspeita? A eleição está polarizada entre dois populistas, que são, antes de tudo, egoístas e precisam manter seus apoiadores mobilizados. Eu vejo com preocupação a postura do Flávio, assim como o fato de o presidente Lula se envolver em atritos com os Estados Unidos. São ferramentas de mobilização.

A soberania nacional está, de fato, ameaçada? Não acredito que os Estados Unidos vão invadir o Brasil, ou realizar qualquer interferência com tropa armada. Ninguém se lembra que essa discussão entre Lula e o presidente Donald Trump começou com as tarifas de importação adotadas pelo americano. Os dois países têm alinhamento secular, mas o governo brasileiro vem personificando a discussão, o que considero muito perigoso. O governo americano declarou as facções criminosas brasileiras como terroristas. O que achou da medida? É imprescindível discutirmos as consequências da expansão do narcotráfico no Brasil. Até agora ninguém perguntou o que a classificação acarreta, quais ações serão tomadas, ou se vamos ter acesso aos modernos centros de inteligência contra o terrorismo. É importante que essa conversa ocorra para a sociedade não sofrer mais do que já está sofrendo.

Por que militares, em geral, resistem ao PT? Se você estudar as Forças Armadas, elas têm uma característica mais conservadora do que o restante da sociedade. Por isso, nos Estados Unidos os militares são mais identificados com Republicanos do que com os Democratas. Seria interessante ver se isso é verdadeiro dentro de toda hierarquia, mas, de modo geral, as Forças Armadas são instituições conservadoras no mundo todo.

Acredita no fantasma da ameaça comunista? Eu não tenho medo de alguns fantasmas que ainda rondam as nossas discussões políticas e que tentam ligar o PT ao comunismo. O Brasil não vai ser comunista nunca. Não é da índole do nosso povo. Eu vejo os radicais de direita como reacionários e vejo radicais de esquerda como revolucionários. Acho que nenhum dos dois tem espaço no Brasil. Pensa em seguir uma carreira política? Nunca. Não quero cargo público nem eletivo.

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