No dia 9 de abril de 2020, logo nas primeiras semanas da pandemia, publiquei no Spotniks um documentário sobre a Covid-19, com pouco mais de 1 hora de duração – um documento chamado “Como a China encobriu a pandemia de COVID-19”. Você pode assisti-lo aqui.
O documentário foi produzido com um único objetivo: seguir os primeiros passos da maior pandemia do século 21, construindo uma linha do tempo com centenas de informações fundamentais para entender como um surto de pneumonia supostamente inofensivo numa cidade chinesa havia se transformado numa ameaça à humanidade.
Ainda em março, dediquei centenas de horas à pesquisa, roteiro e produção desse conteúdo, com quase mil fontes consultadas. Tenho orgulho do que fiz. Ainda hoje, esse é um dos acervos mais ricos disponíveis em língua portuguesa sobre os primeiros dias da pandemia, construído com as escassas informações que estavam disponíveis nas primeiras semanas de pandemia.
Lá se vão mais de 6 anos dessa tragédia, mas desde então só aumentei as minhas apostas de que o SARS-CoV-2 escapou de um laboratório na China – apesar da estranha campanha política para associar essa tese ao universo das teorias da conspiração, desde o primeiro instante em que o dedo foi apontado para Wuhan.
Aqui embaixo, trouxe 10 razões para você entender os motivos:
1. O vírus apareceu a 1.600 quilômetros de onde vivem seus parentes mais próximos
Os coronavírus conhecidos geneticamente mais próximos do SARS-CoV-2 circulam em morcegos do sudoeste da China e do norte do Laos. Não foram encontrados vírus comparáveis nos morcegos que vivem ao redor de Wuhan.
E isso cria o primeiro problema para a hipótese de uma origem inteiramente natural. Quando um vírus de morcego passa a infectar seres humanos, o mais esperado é que os primeiros casos apareçam perto do lugar onde vivem esses animais – ou, pelo menos, ao longo de alguma cadeia identificável que ligue os morcegos às pessoas contaminadas.
Mas o SARS-CoV-2 surgiu em Wuhan, uma cidade de 11 milhões de habitantes localizada a 1.600 quilômetros da região onde circulam seus parentes conhecidos.
Para que o vírus tivesse chegado naturalmente até Wuhan, seria necessário imaginar algum percurso: um animal intermediário transportado para a cidade, pessoas infectadas durante o trajeto ou uma cadeia comercial ligando as duas regiões.
Até hoje esse caminho não apareceu.
Não foi identificado um surto anterior perto das cavernas. Não surgiram casos rurais formando uma trilha até a cidade. Não se encontrou um animal infectado que tivesse sido transportado por esses 1.600 quilômetros.
O vírus apareceu longe de seu reservatório natural conhecido, sem deixar rastros do percurso que teria feito até chegar ali.
2. O vírus apareceu justamente na cidade que mais concentrava pesquisas sobre coronavírus do tipo SARS
Wuhan não era uma cidade qualquer na pesquisa mundial sobre coronavírus.
Na cidade, funciona o Instituto de Virologia de Wuhan, que mantinha a maior coleção conhecida de coronavírus do tipo SARS. Durante mais de uma década, a equipe liderada pela virologista Shi Zhengli viajou por Yunnan e pelo sudeste asiático para procurar esses vírus em cavernas, coletar amostras e levá-las para Wuhan.
Em 2019, o banco de dados do instituto reunia mais de 22 mil amostras.
Parte desse trabalho passou por uma mina localizada em Mojiang, na província de Yunnan. Em 2012, seis homens que limpavam fezes de morcegos no local adoeceram com uma pneumonia incomum. Três morreram.
Pesquisadores do instituto realizaram diversas expedições à mina e coletaram amostras de coronavírus. De uma delas veio o RaTG13, vírus que compartilha 96,2% do genoma com o SARS-CoV-2 e permanece sendo um de seus parentes conhecidos mais próximos.
Uma semelhança de 96,2% não significa que os dois vírus sejam praticamente idênticos, nem que um possa ser transformado diretamente no outro com poucas mudanças. Significa que ambos pertencem a uma linhagem evolutiva muito próxima – e que o instituto de Wuhan estudava justamente a família de vírus da qual surgiria o causador da pandemia.
Quando a covid começou, Shi Zhengli afirmou que a doença dos mineiros havia sido provocada por um fungo. A história da mina, dos trabalhadores e das coletas só ganhou atenção internacional depois que pesquisadores independentes localizaram teses acadêmicas chinesas que descreviam o episódio.
De fato, entre todas as cidades do mundo onde um novo coronavírus poderia emergir, a pandemia começou naquela que reunia a maior coleção de coronavírus do tipo SARS – levados até lá, durante anos, das regiões onde esses vírus circulavam naturalmente.
3. No ano anterior ao surto, pesquisadores propuseram, sem sucesso, criar um vírus com uma característica semelhante
Em março de 2018, a organização americana EcoHealth Alliance apresentou à Darpa — a agência do Pentágono responsável por projetos científicos avançados — uma proposta de pesquisa no valor de US$ 14,2 milhões.
O projeto recebeu o nome de Defuse.
Entre os parceiros estavam o Instituto de Virologia de Wuhan e Ralph Baric, da Universidade da Carolina do Norte, um dos maiores especialistas do mundo na manipulação experimental de coronavírus.
A proposta previa três etapas importantes.
Primeiro, os pesquisadores procurariam novos coronavírus do tipo SARS em morcegos.
Depois, reconstruiriam esses vírus em laboratório na forma de clones infecciosos – cópias capazes de se reproduzir e infectar células, usadas para estudar como um vírus funciona.
Por fim, pretendiam inserir em alguns desses vírus uma estrutura genética conhecida como sítio de clivagem de furina.
A Darpa recusou o financiamento. Entre as razões apresentadas estava a preocupação de que o projeto envolvesse pesquisa de ganho de função – expressão usada para experimentos que podem aumentar alguma capacidade de um agente infeccioso, como a sua facilidade de entrar em células, infectar animais ou se transmitir.
O documento só veio a público em setembro de 2021, depois de ser vazado para pesquisadores independentes. Seus autores nunca negaram que a proposta fosse autêntica.
Vinte e um meses depois do projeto ter sido escrito, um novo coronavírus do tipo SARS, dotado justamente de um sítio de clivagem de furina, começou a circular na cidade onde parte do trabalho seria realizada.
A proposta não prova que o SARS-CoV-2 tenha sido criado naquele projeto. Mas demonstra que pouco antes da pandemia, os pesquisadores envolvidos com o instituto de Wuhan planejavam realizar exatamente o tipo de intervenção genética que se tornaria central na discussão sobre a origem do novo vírus.
4. Entre centenas de vírus semelhantes, apenas o SARS-CoV-2 apresenta essa característica
Para entender por que o sítio de clivagem de furina se tornou tão importante, é preciso primeiro entender como um coronavírus invade uma célula.
Na superfície do vírus existem proteínas chamadas espículas – aquelas pontas que formam a sua aparência de coroa. As espículas funcionam como uma chave: ligam-se às células humanas e permitem que o vírus entre nelas.
Mas, para funcionar corretamente, a espícula precisa ser cortada em um ponto específico.
A furina é uma enzima produzida pelo corpo humano e encontrada em vários tecidos. Um sítio de clivagem de furina é uma pequena sequência de aminoácidos reconhecida por essa enzima. Quando a furina encontra a sequência, corta a espícula e ajuda a ativá-la.
Em outras palavras: o vírus carrega uma espécie de linha pontilhada indicando ao organismo humano onde sua própria ferramenta deve fazer o corte.
Essa característica pode facilitar a entrada do vírus em diferentes tipos de célula e contribuir para sua capacidade de infecção.
Sítios de clivagem de furina existem em outros grupos de coronavírus. O que chama atenção é sua ausência nos demais coronavírus conhecidos da mesma linhagem imediata do SARS-CoV-2.
Entre as centenas de vírus do tipo SARS catalogados, o vírus da covid é o único conhecido com essa estrutura específica naquele ponto da espícula. Os dados genéticos indicam que a característica surgiu relativamente pouco tempo antes do início da pandemia.
Há ainda um episódio que aumentou as suspeitas.
Em fevereiro de 2020, pesquisadores de Wuhan publicaram um dos primeiros artigos científicos descrevendo o novo vírus. O texto não destacava o sítio de clivagem de furina – embora aquela fosse uma das características mais incomuns do genoma e embora pesquisadores ligados ao instituto tivessem participado, dois anos antes, de uma proposta para inserir estruturas desse tipo em coronavírus.
Outros cientistas identificaram e chamaram atenção para o sítio de clivagem poucos dias depois.
Não se tratava de um detalhe secundário. Era uma das particularidades mais importantes do novo vírus – e uma característica diretamente relacionada ao tipo de experimento que havia sido proposto pouco antes da pandemia.
5. Parte do trabalho poderia ser realizada num nível de contenção insuficiente para esse vírus
Laboratórios que trabalham com agentes infecciosos são classificados em quatro níveis de biossegurança.
O nível 1 é destinado a organismos que representam pouco risco. O nível 2 é comum em laboratórios universitários e hospitalares, onde se manipulam agentes moderadamente perigosos. Os níveis 3 e 4 impõem barreiras muito mais rigorosas, como controle do fluxo de ar, equipamentos especiais, acesso restrito e procedimentos específicos para impedir que microrganismos escapem.
Nos Estados Unidos, o trabalho com coronavírus vivos do tipo SARS costuma exigir o nível 3.
Um rascunho do projeto Defuse previa, porém, que parte das experiências realizadas em Wuhan aconteceria no nível 2. O documento justificava essa escolha, entre outras razões, pelo custo mais baixo.
Ralph Baric registrou no próprio rascunho que pesquisadores americanos provavelmente reagiriam muito mal à proposta.
Depois do início da pandemia, Baric voltou ao assunto numa mensagem dirigida a Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance. Escreveu que a China tinha o direito de estabelecer as suas próprias normas, mas deixou claro que não considerava aquele nível de contenção adequado.
O risco se torna mais fácil de compreender quando se observam as características do SARS-CoV-2.
Ele se transmite pelo ar. Pode causar sintomas semelhantes aos de gripes e resfriados comuns. E uma pessoa infectada pode transmitir o vírus antes de perceber que está doente.
Isso significa que um trabalhador contaminado num laboratório de nível 2 poderia sair normalmente, circular pela cidade e infectar outras pessoas sem saber o que estava acontecendo.
Não seria necessário um acidente cinematográfico, com sirenes, vidros quebrados ou alarmes. Bastaria uma exposição aparentemente banal: uma gotícula, um aerossol, uma falha no equipamento ou um procedimento executado de maneira incorreta.
O pesquisador poderia interpretar os primeiros sintomas como uma doença respiratória qualquer. Quando alguém percebesse que um novo vírus estava circulando, a transmissão já poderia estar fora de controle.
6. Seis anos depois, nenhum animal foi encontrado infectado
Quando uma epidemia surge a partir de animais, costuma deixar um conjunto reconhecível de vestígios.
Os investigadores encontram animais infectados pelo vírus ou por uma variante muito próxima. Descobrem que os primeiros pacientes tiveram contato com esses animais. Detectam anticorpos em criadores, transportadores ou comerciantes expostos antes de a epidemia se tornar visível. Identificam versões ancestrais do vírus circulando nos bichos. E conseguem reconstruir a cadeia comercial que levou o animal do seu habitat até o local do surto.
Na epidemia de SARS, iniciada em 2002, esse tipo de evidência apareceu. Na MERS, identificada em 2012, também.
Na covid, não.
Não foi encontrado um único animal comprovadamente infectado com o SARS-CoV-2 no mercado de Huanan ou entre os fornecedores que abasteciam o local.
Também não se demonstrou que os primeiros pacientes conhecidos tivessem contato direto com um hospedeiro intermediário – o animal que teria recebido o vírus dos morcegos e depois o transmitido aos seres humanos.
Não surgiram evidências sorológicas de que criadores ou comerciantes de animais de Wuhan já estivessem sendo expostos ao vírus antes do surto. Nenhuma versão ancestral do SARS-CoV-2 foi localizada em animais.
E nunca se documentou uma cadeia de comércio que ligasse as regiões onde vivem os morcegos portadores dos vírus aparentados aos mercados de Wuhan.
As autoridades chinesas testaram dezenas de milhares de amostras animais. Encontrar o hospedeiro intermediário teria sido a maneira mais direta de sustentar a origem natural e encerrar boa parte da controvérsia.
Ainda assim, nenhum animal infectado foi apresentado.
É possível que um hospedeiro exista e simplesmente não tenha sido encontrado. Mas, seis anos depois, a hipótese natural continua sem a peça mais básica de uma transmissão zoonótica: o animal que passou o vírus aos seres humanos.
7. O que aconteceu em Wuhan no segundo semestre de 2019
No dia 12 de setembro de 2019, o Instituto de Virologia de Wuhan retirou da internet seu banco de dados, que reunia informações sobre aproximadamente 22 mil amostras.
O banco nunca voltou a ficar disponível.
Depois que a pandemia começou, aquele acervo teria se tornado um dos recursos científicos mais valiosos do mundo. Ele poderia mostrar quais vírus haviam sido coletados, onde foram encontrados, que sequências genéticas possuíam e quais experimentos estavam sendo realizados.
Mesmo assim, o conteúdo não foi compartilhado nem com colaboradores americanos do instituto. A explicação oficial foi que o sistema havia sido alvo de tentativas de invasão digital.
Há também o episódio dos pesquisadores que teriam adoecido antes de o surto se tornar público.
Segundo informações de inteligência divulgadas pelo Wall Street Journal e posteriormente reconhecidas por autoridades americanas, integrantes da equipe de Shi Zhengli apresentaram, em novembro de 2019, sintomas compatíveis com a covid.
Um deles seria o pesquisador indicado na proposta Defuse como responsável pelo trabalho de descoberta de novos vírus.
Os cientistas envolvidos negam que tenham adoecido de covid.
Em dezembro, os casos de pneumonia em Wuhan começaram a se multiplicar e o surto finalmente se tornou visível.
A sequência chama atenção: o banco de dados sai do ar em setembro; pesquisadores teriam adoecido em novembro; a epidemia aparece publicamente em dezembro.
Nenhum desses acontecimentos, isoladamente, prova um vazamento. Mas, reunidos, formam uma cronologia que exige explicações mais completas do que as apresentadas até hoje.
8. A China destruiu amostras e não entregou os dados necessários para esclarecer a origem
No dia 3 de janeiro de 2020, autoridades chinesas ordenaram que laboratórios destruíssem amostras de pacientes, sob a justificativa de proteger a biossegurança.
Informações completas sobre dezenas de pessoas que adoeceram em novembro e dezembro de 2019 continuam inacessíveis.
Esses primeiros casos são decisivos porque poderiam revelar quando o vírus começou a circular, quais pacientes estavam ligados ao mercado, quais não estavam e que versões iniciais do genoma existiam antes da epidemia se espalhar.
Em 2021, uma missão conjunta da Organização Mundial da Saúde visitou Wuhan para investigar a origem da pandemia.
Entre os seus integrantes estava Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance – organização que financiava pesquisas com coronavírus no Instituto de Virologia de Wuhan. Apesar desse vínculo direto com uma das instituições investigadas, Daszak participou da equipe que classificou a hipótese de acidente laboratorial como “extremamente improvável”.
Poucos dias depois, o próprio diretor-geral da OMS afirmou que essa possibilidade havia sido descartada cedo demais e que seria necessário investigá-la melhor.
Em junho de 2025, o grupo consultivo da OMS responsável por estudar a origem de novos patógenos publicou o seu relatório final.
O documento registrou que as autoridades chinesas não haviam fornecido informações essenciais: as sequências genéticas dos primeiros pacientes, os dados sobre as fazendas que abasteciam os mercados de Wuhan e os registros de biossegurança dos laboratórios da cidade.
Sem esse material, o grupo concluiu que nenhuma hipótese poderia ser definitivamente encerrada – inclusive a de um acidente relacionado à pesquisa.
A China possuía os dados capazes de esclarecer pontos centrais da investigação. Teve anos para apresentá-los. Não apresentou.
A ausência desses documentos não prova que o vírus tenha escapado de um laboratório. Mas impede que a hipótese seja descartada e transforma a falta de transparência chinesa em parte central do próprio caso.
9. Em público, cientistas descartaram uma hipótese que ainda consideravam possível em privado
Em março de 2020, a revista Nature Medicine publicou o artigo “A origem proximal do SARS-CoV-2”.
O texto se tornou uma das principais referências científicas usadas para afastar a hipótese de que o vírus tivesse sido criado ou manipulado em laboratório. Foi citado milhares de vezes e influenciou jornais, redes sociais e agências de checagem.
A partir dali, a possibilidade de um acidente laboratorial passou a ser frequentemente tratada não como uma hipótese em investigação, mas como uma teoria conspiratória já desmentida pela ciência.
Mensagens internas dos autores, tornadas públicas posteriormente por uma comissão do Senado americano, mostram uma situação mais complexa.
Poucas semanas antes da publicação, alguns dos cientistas ainda atribuíam probabilidades consideráveis a uma origem laboratorial. Eles discutiam entre si características do vírus – especialmente o sítio de clivagem de furina – que enfraqueciam sua confiança numa explicação exclusivamente natural.
Em privado, havia dúvida. Em público, o artigo transmitiu uma conclusão muito mais categórica.
Outro episódio ocorreu na revista Lancet.
Em fevereiro de 2020, um grupo de cientistas publicou uma carta condenando como conspiratórias as sugestões de que a covid pudesse ter uma origem não natural. A carta ajudou a estabelecer, logo no início da pandemia, os limites do debate considerado aceitável.
Mais tarde, descobriu-se que o texto havia sido organizado por Peter Daszak.
Esse conflito de interesse não foi informado aos leitores na publicação original. A Lancet só corrigiu a omissão em junho de 2021 – dezesseis meses depois, quando a carta já havia sido usada repetidamente para desacreditar a hipótese laboratorial.
O problema não é que cientistas tenham mudado de opinião. A ciência funciona por revisão, debate e mudança de posição.
O problema é outro: a distância entre a incerteza registrada nas conversas privadas e a segurança apresentada ao público – somada à omissão de vínculos institucionais diretamente relevantes.
10. Serviços de inteligência de países diferentes chegaram à mesma conclusão
Em fevereiro de 2023, o Departamento de Energia dos Estados Unidos passou a considerar a origem laboratorial a explicação mais provável para a pandemia.
O FBI já havia chegado à mesma conclusão, classificando a sua avaliação com confiança moderada.
Em janeiro de 2025, a CIA também passou a considerar mais provável uma origem relacionada à pesquisa.
Em março de 2025, jornais alemães revelaram que o BND – o serviço de inteligência da Alemanha – havia produzido ainda em 2020 uma avaliação encomendada pelo governo Merkel. Segundo a reportagem, o órgão estimou entre 80% e 95% a probabilidade de uma origem laboratorial. Dois governos alemães sucessivos teriam decidido não tornar essa avaliação pública.
Serviços de inteligência não substituem evidências científicas nem podem, sozinhos, resolver a origem de uma pandemia. Parte das informações usadas por eles permanece secreta, o que impede que o público examine diretamente todos os fundamentos de suas conclusões.
Ainda assim, existe um dado político e institucional importante. Órgãos diferentes, de países diferentes, subordinados a governos diferentes e trabalhando com informações próprias chegaram, separadamente, à avaliação de que um acidente ligado à pesquisa é a explicação mais provável.
A hipótese laboratorial não depende apenas de uma coincidência geográfica, de uma característica genética ou da falta de transparência chinesa.
Ela se apoia na combinação de todos esses elementos:
um vírus que surge longe de seus parentes naturais conhecidos; na cidade que concentrava a maior coleção mundial desses vírus; pouco depois de pesquisadores proporem experiências com uma característica semelhante à encontrada no patógeno; em laboratórios que realizavam parte do trabalho sob níveis controversos de contenção; sem que, anos depois, aparecesse o animal responsável pela transmissão; e diante da recusa persistente da China em entregar os dados capazes de esclarecer o que ocorreu.
Nenhum desses pontos, isoladamente, encerra a questão.
Juntos, porém, tornam impossível tratar a hipótese de um acidente laboratorial como fantasia, conspiração ou suspeita marginal.
Ela é uma explicação coerente com uma parte substancial dos fatos conhecidos – e continua em aberto porque as provas que poderiam confirmá-la ou descartá-la permanecem escondidas.
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