Calendário eleitoral 2026: veja as principais datas e etapas da eleição
Prazo para regularizar o título, convenções partidárias, início da campanha e dia da votação; entenda o cronograma completo. Crédito: Estadão
BRASÍLIA – “Você sabia o que o meu mandato se tornou campeão nacional de emendas para a causa animal? Destinamos mais de R$ 16 milhões para a realização de castrações de cães e gatos”, disse o deputado federal Bruno Ganem (Podemos-SP), em publicação no Instagram.
Ganem é o deputado que mais gastou dinheiro da cota de janeiro a junho de 2026, acompanhando uma tendência dos seus outros 512 colegas de Câmara – parlamentares gastaram R$ 2,1 milhões da cota parlamentar em 2026 para impulsionar anúncios políticos na plataforma Meta, responsável pelo Facebook e Instagram, em ano em que disputam nova eleição.

Gasto dos parlamentares com impulsionamento de conteúdos na Meta segue crescente desde nova legislatura, começada em 2023. Foto: Luis Macedo/Agência Câmara
Esse número é quase quatro vezes maior do que o gasto na última eleição federal, de janeiro a junho de 2022, quando os deputados desembolsaram, no total, R$ 572 mil, em valores nominais, para aumentar ao alcance de suas publicações nas redes sociais no mesmo período.
“Hoje, a maior parte das pessoas recebe informação pelo celular. A notícia, o vídeo, a prestação de contas e até o diálogo com o parlamentar acontecem na palma da mão”, disse Ganem, que gastou R$ 155 mil da cota parlamentar.
Os parlamentares podem usar o dinheiro da cota para divulgar a atividade parlamentar, inclusive para impulsionar anúncios políticos no Facebook. Em anos eleitorais, porém, isso só pode ser feito até o dia 4 de junho.
Até o momento, a Meta é a empresa que mais recebeu dinheiro da cota parlamentar neste ano. Especialistas ouvidos pela reportagem mencionam que a crescente nos gastos com impulsionamento no Facebook e Instagram é reflexo do maior consumo das redes sociais pelo brasileiros e consolidação do “monopólio” que a Meta tem no campo dos anúncios políticos nas redes.
Isso porque em 2024, o Google proibiu o impulsionamento de propagandas políticas em todas as suas plataformas. Outras redes sociais como o X, TikTok e Kwai acompanharam a gigante que também é dona do YouTube. Hoje, só é possível impulsionar conteúdos pela Meta.
“A Meta, que tem a principal plataforma usada por políticos, o Instagram, hoje tem uma espécie de monopólio nesse mercado”, disse Maria Carolina Lopes, doutora em Comunicação pela Universidade Pompeu Fabra, na Espanha, que vê no impulsionamento de conteúdos uma forma dos candidatos serem notados pelos seus eleitores. “Antes os candidatos tinham que pagar panfletos e pedir para as gráficas os imprimirem para a informação chegar até as pessoas. E a forma que eles conseguem isso hoje nas redes é com um bom conteúdo, boa entrega e impulsionamento.”
Ganem concorda. “O impulsionamento é uma ferramenta que ajuda justamente a ampliar esse alcance e fazer com que essas informações cheguem a mais pessoas”, disse.
Com o recurso da cota parlamentar, o deputado impulsiona conteúdos como o que mobilizou um abaixo-assinados para aprovar lei para prender em regime fechado que maltrata animais, denunciar crimes contra pets e divulgar feitos da própria campanha.
O parlamentar, que tem atuação voltada em especial para a causa animal, é um dos que surfaram no caso da morte do cão comunitário Orelha, que morreu em janeiro deste ano na Praia Brava, em Florianópolis.
Informações preliminares da polícia apontavam que quatro adolescentes teriam agredido Orelha e Caramelo, outro cão comunitário, na capital catarinense. O Ministério Público do Estado concluiu, em maio, que Orelha não foi vítima de agressões por parte de adolescentes e que o animal já sofria de uma doença grave.
“O caso do cão Orelha não pode ter sido em vão, ele precisa gerar uma mudança real na lei, e é exatamente isso que estamos fazendo”, disse Ganem, em uma das publicidades impulsionadas, que disse ter apresentado uma “Lei Cão Orelha”, para responsabilizar adolescentes que cometem maus-tratos contra animais. Essa publicação foi feita em fevereiro, enquanto o assunto dominava as redes, antes do parecer do MP-SC.
Patrícia Rossini, professora em Comunicação Política na universidade de Glasgow, analisa que o impulsionamento de conteúdo político, especialmente fora do período eleitoral, pode causar complicações, como no caso de políticos que impulsionaram conteúdos aproveitando a onda do caso Orelha.
“A legislação é muito menos clara sobre o que pode e o que não pode, e é possível que atores políticos paguem para impulsionar conteúdos potencialmente nocivos ou problemáticos, que podem acabar confundindo ou enganando a população”, disse a pesquisadora.
Desde o começo desta legislatura, em 2023, os gastos seguem uma crescente. Em 2023, deputados gastaram R$ 1,8 milhão; em 2024, R$ 2,1 milhões; e em 2025, R$ 3,2 milhões. Desde agosto 2020, data em que se tem registro de publicidades políticas na Meta, Ganem já gastou R$ 740,9 mil com impulsionamento de conteúdos. Em parte desse período (entre 2020 e 2021),ele não era deputado, e, portanto, não tinha cota parlamentar para custear esses impulsionamentos.
“Quem não aparece não é lembrado. A nova ágora da política é as redes sociais”, diz Erick Sá, especialista em estratégia eleitoral e marketing político, fundador da Insight Político. “O parlamentar ele tende a usar o anúncio não necessariamente para pedir voto, mas para construir reputação. Não apenas numa linha de prestação de contas, mas efetivamente para a divulgação de suas causas.”
Para veicular conteúdos de teor político do Brasil, o usuário precisa confirmar sua identidade, residência no País, assim como disponibilizar um número de telefone, endereço de email e um website. Após confirmar a identidade, o conteúdo receberá um rótulo informado como o anúncio foi pago e com informações sobre os endereços de contato.
Segundo as regras da Meta, um anúncio é considerado político quando “for preparado por, encomendado em nome de ou relacionado a um candidato atual ou ex-candidato a um cargo público, a uma figura política, a um partido político ou que defende o resultado de uma eleição a um cargo público” ou se for “sobre eleições, referendos ou iniciativas de votação, incluindo campanhas de incentivo ao voto ou eleitorais”.
Procurada, a Meta não se manifestou.
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