Alerta: A reportagem abaixo trata de temas sensíveis, como suicídio. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
O empresário João (nome fictício) viveu 19 dos seu 38 anos em função do jogo. O que começou como curiosidade pelo pôquer online, no início da vida adulta, transformou-se em uma dependência que destruiu suas finanças, abalou seu casamento, o levou a contrair dívidas com agiotas e culminou em uma tentativa de suicídio. Ele contou ao Estadão que só não morreu porque sua mulher acordou no meio da madrugada e o impediu de tirar a própria vida.
Entre pausas forçadas e recaídas, ele hoje comemora: há dez meses sem apostar, está reconstruindo a vida ao lado da família. Ele sabe, porém, que não pode chegar perto de nenhum tipo de jogo de azar. “Nem bet, nem pôquer, nem bingo, nem rifa. Preciso viver um dia de cada vez.”
João revelou, em detalhes, situações dramáticas que vivenciou em quase duas décadas. Primeiro, no pôquer. ”Os meus salários iam todos para o jogo. Estava obcecado. Comecei a ter atitudes insanas. Com 19 anos, eu já tinha muitos problemas em função do jogo.”
Nessa época, ele apostou US$ 5 em um torneio e ganhou US$ 500. “Aquilo foi um gatilho. Achei que tinha encontrado um caminho para ganhar dinheiro. Foi ali que tudo começou.”
Mas logo a realidade veio. O comportamento compulsivo se agravou com o passar dos anos, assim como as dívidas. O empresário do interior de Minas Gerais passou a pegar escondido os cartões de crédito dos pais, faltava ao trabalho para jogar e escondia o problema de todos, inclusive da então namorada, que mais tarde se tornaria sua mulher.
As perdas aumentavam na mesma velocidade em que cresciam as mentiras. “Eu me envolvi com dezenas de agiotas. Pedia dinheiro emprestado para familiares e amigos. Sempre acreditava que conseguiria recuperar tudo na próxima aposta.”
Um dos momentos mais marcantes, segundo ele, foi quando já estava casado e a mulher, que tinha consciência do vício, o flagrou jogando. “Fiquei em desespero, entrei em surto. Só tinha R$ 400, entrei no carro, em menos de sete horas fui parar em São Paulo, desnorteado. Eu chorava desesperadamente.”
Com os R$ 200 que haviam sobrado, entrou em uma casa de pôquer. Perdeu todo o dinheiro. Quando saiu do local, sentia falta de ar de tão abalado. E encontrou o veículo arrombado e com os vidros quebrados.
“Passei um fim de semana dormindo no carro, completamente perdido. Minha família não sabia onde eu estava. Pensei que iria virar morador de rua.” O episódio ocorreu há cinco anos.
Algum tempo depois, na pandemia, João foi internado por dez dias com covid-19. Foi o maior período que conseguiu permanecer longe do jogo desde que havia começado a apostar. Ao receber alta, decidiu abandonar o pôquer. “Foi uma virada de chave, como um despertar espiritual. Nunca mais joguei pôquer. E pensei que estava tudo bem.”
A liberdade durou três meses. “Foram os três melhores meses da minha vida. Conseguia dormir em paz, me relacionar com as pessoas. Viver uma vida normal e aproveitar as coisas simples, além de evoluir profissionalmente”.
A tranquilidade acabou quando João conheceu as apostas esportivas, que mudaram completamente a dinâmica da compulsão. “As bets foram muito piores. Era tudo muito rápido. O cassino estava no meu bolso. Eu podia apostar a qualquer hora, em qualquer lugar.”
Com uma empresa já consolidada, passou a direcionar praticamente todo o dinheiro que entrava para plataformas de apostas. O ciclo de perdas, dívidas e empréstimos se repetiu. Mesmo após o nascimento do primeiro filho, não conseguiu interromper o comportamento compulsivo. “Eu fazia coisas absurdas, roubava, mentia, manipulava.”
As perdas foram muito maiores do que no pôquer. Em quase cinco anos, os prejuízos somavam R$ 3 milhões, conta o empresário.
A família tentou criar mecanismos de proteção. A mulher passou a monitorar seu celular e instalou aplicativos para bloquear sites de apostas. Mas ele recaiu. “Voltei compulsivamente, pior do que antes. Cheguei a manter cinco celulares para jogar. Comprava aparelhos, criava contas bancárias novas e apostava escondido.”
A situação chegou ao limite quando a mulher descobriu, pela quinta vez, que ele havia voltado a apostar. O filho mais velho tinha apenas dois meses. Naquele dia, desesperado, João tentou tirar a própria vida.
“Peguei uma corda no porta-malas do carro e tentei me enforcar. Por um milagre, não aconteceu nada porque minha mulher me salvou.” Era madrugada, de sexta para sábado.
Foi justamente após esse episódio que conheceu o grupo de apoio Jogadores Anônimos. Embora já soubesse da existência, foi somente naquele momento que decidiu aceitar ajuda. “Eu me apeguei.
Desde então, há pouco mais de dez meses, ele frequenta reuniões presenciais, faz acompanhamento psiquiátrico e psicológico e afirma compreender que a ludopatia é uma doença crônica.
A transformação foi além do abandono do jogo. João voltou a investir na empresa, passou a praticar atividade física diariamente e diz ter recuperado algo que havia perdido ao longo de quase duas décadas: a capacidade de viver momentos simples.
“Hoje consigo brincar com meus filhos, conversar com minha mulher, ouvir música, passear. Antes eu não vivia nada disso. Minha cabeça só pensava em apostar.”
A reconstrução da confiança dentro de casa aconteceu lentamente. Segundo ele, não foram promessas que convenceram a mulher a permanecer ao seu lado, mas as atitudes repetidas diariamente. “Ela voltou a acreditar em mim porque viu a mudança acontecendo. Hoje ela tem acesso a tudo. Não escondo mais nada.”
Ao olhar para trás, o empresário resume a recuperação em uma única mensagem para quem enfrenta o mesmo problema. “Sozinho ninguém consegue vencer essa doença. É preciso procurar ajuda, conversar com alguém, buscar tratamento e participar de grupos de apoio. Para quem continua apostando compulsivamente, normalmente existem apenas três destinos: a clínica de recuperação, a prisão ou a morte. Eu tive a oportunidade de escolher um caminho diferente.”
Onde buscar ajuda?
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato com o Canal Pode Falar pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.
Mapa da Saúde Mental
O site Mapa da Saúde Mental mostra unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.
























