Alerta: A reportagem abaixo trata de temas como suicídio e vício. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
A vida da advogada e auditora do Tribunal de Contas da Bahia, Juliana Prates, 43 anos, se divide entre antes e depois de 21 de dezembro de 2025. Naquele dia, Juliana encontrou seu irmão, Otacílio Prates, sem vida. Ele tinha 46 anos e deixou mulher e filha.
O choque foi duplo: além da cena dolorosa, Juliana se surpreendeu ao descobrir, no celular dele, várias plataformas de apostas online abertas (bets), com depósitos em Pix que somavam R$ 109 mil. Mais tarde, descobriria que as dívidas chegavam a R$ 1,5 milhão.
Ninguém da família desconfiava, segundo a advogada, que o irmão era viciado em bets, embora alguns sinais indicassem que algo não estava bem. “Ele vinha num processo de mudança de comportamento havia 10 meses. Meu irmão sempre foi alegre e presente, um superprofissional. Mas começou a ficar irritado, passando todo o tempo ao celular, e a pedir dinheiro para as pessoas, inclusive para mim”.
Otacílio, que também era auditor no tribunal, dizia ter feito aplicações financeiras malsucedidas. “Ele chegou a ter surto psicótico, foi internado. Começou um tratamento, porém, não para sua real condição, que era a ludopatia, mas para surto”, conta a advogada. Melhorou, voltou a trabalhar. Mas a rotina de pedir dinheiro emprestado se intensificou – de R$ 50 a valores maiores, chegando a pedir R$ 8 mil a um colega de trabalho.
“As pessoas começaram a me ligar, assustadas, porque nossa família sempre teve boa condição financeira. Pensou-se que ele estava envolvido com drogas pesadas. Tudo era muito estranho, mas ele nunca falou que apostava nas bets legalizadas”, conta ela.
No fim do ano passado, após Otacílio passar uma temporada com os pais em Almenara (MG) e retornar para Salvador, a mãe deles ligou para Juliana, estranhando o sumiço do filho. O celular não atendia.
“Fui procurá-lo primeiro na casa dos meus pais, onde ele ficava, pois não estava bem com a esposa. E acho uma carta. Nessa carta ele fala que a vida tinha perdido o sentido, que tinha perdido o dinheiro todo recebido no final de ano. Dizia que nos amava, que tínhamos feito tudo por ele, mas que a vida tinha perdido o sentido.”
Juliana não o encontrou, mas o telefone dele estava lá, e aberto. “Foi quando vi diversas plataformas abertas de bets e vários Pix realizados. Só ali deu mais de R$ 109 mil. Fiquei sem entender nada e ainda precisava encontrá-lo”, relata.
“Rodei Salvador até que meu marido sugeriu que o procurasse no terraço do próprio prédio dos meus pais.” Do local onde eles cresceram e brincavam, ela ligou de volta. “Achei meu irmão”. Ele havia se matado.
O choque foi tão grande que Juliana, logo após o enterro, sentiu necessidade de relatar a tragédia nas redes sociais para alertar outras famílias. “Não era possível isso ter acontecido sem que a gente percebesse nada. Sou auditora, trabalhava junto com meu irmão. Sempre fui estudiosa, estou terminando mestrado em Políticas Públicas e não sabia nada dessas apostas. Não identifiquei que ele estava em uma plataforma jogando.”
O Brasil tem enfrentado uma epidemia de viciados em apostas online. Após um período de popularização das bets, o governo tem criado restrições, como o veto para participantes do Bolsa Família e a criação de uma plataforma pública em que o cidadão pode pedir sua autoexclusão de qualquer site de apostas. Os dados mostram que o brasileiro já gasta mais com bets do que com arroz e feijão.
Juliana se surpreendeu com a quantidade de mensagens de pessoas viciadas em apostas online pedindo ajuda. “Isso é um problema de saúde pública. Não é possível que nos deparamos com um problema desses e ninguém está falando nada.”
Juliana iniciou então uma jornada em busca de informações e se tornou uma das principais ativistas do tema no País. Ela até propôs um projeto de lei para vetar a propaganda de bets durante as festividades de São João na Bahia. E conseguiu.
No dia 28 de maio, 6.ª Vara da Fazenda Pública de Salvador atendeu parcialmente a uma ação popular proposta por Juliana, que questionava as propagandas das marcas de apostas online durante as festas. Na ação, Juliana argumentou que, como o São João é uma festa aberta, inclusive para crianças, adolescentes e pessoas que recebem auxílio do governo, autorizar propaganda de bets sem regras é arriscado, pois apostas online podem viciar e prejudicar a saúde das pessoas, além de causar dívidas sem controle.
A Justiça determinou uma série de restrições à publicidade de apostas esportivas em festas juninas, como exibição só após as 22h, proibição em eventos infantis e familiares, assim como ações de abordagem direta ao público, distribuição de brindes e uso de QR Codes para apostas.
Ela costuma dizer que saiu do “luto para a luta”. E se emocionou ao dizer que o ativismo ajuda a manter Otacílio próximo, de alguma forma. “Cada pessoa que ajudo é mais luz para ele e uma forma de deixá-lo comigo. Muitas vezes paro para ver as fotos, os vídeos, e isso traz uma permanência.”
Recentemente, a família criou o Instituto OTA (Orientação, Transformação e Amparo) para promover ações de transformação social. “A gente ainda está organizando como fazer isso, porque o ludopata (viciado em jogos) é uma pessoa sem dinheiro. Meu irmão, por exemplo, deixava de pagar suas despesas, inclusive plano de saúde. Você deixa de cumprir com suas obrigações em razão dessa doença.”
Na avaliação de Juliana, o Brasil não se preparou para o impacto das bets. “O País não imaginava que essa atividade fosse tão danosa, que causaria esse estrago gigantesco. E os casos são cada vez mais chocantes.”
Onde buscar ajuda?
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Plataforma Pare de apostar
O governo federal criou uma plataforma de autoexclusão para usuários de casas de aposta online, além de não terem acesso à publicidade dessas plataformas.
O cadastro para realizar esse procedimento é feito pelo site. O usuário escolhe na ferramenta sobre o prazo que quer optar pela autoexclusão, que pode ser por tempo indeterminado ou de um, três, seis, nove ou 12 meses.
É um caminho de apoio terapêutico coletivo que oferece reuniões e aconselhamento nas maiores capitais do Brasil, com reuniões presenciais e online.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.
Mapa da Saúde Mental
O site Mapa da Saúde Mental mostra unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.
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