Hoje é possível conseguir com alguns poucos cliques na internet ferramentas que tiram a roupa de alguém numa imagem. Gente famosa ou anônima. Maior ou menor de idade. Geralmente mulheres. E o resultado dessa praga são os chamados deep nudes.
Funciona de maneira simples. A partir da imagem de uma mulher com roupa, por exemplo, se cria uma nova imagem da mesma mulher sem a camiseta, o biquíni ou qualquer outra peça. E logo esse deep nude passa a ser compartilhado em grupos e plataformas, causando violentos impactos para a vítima.
O primeiro aplicativo do tipo ficou famoso em 2019 justamente com o nome de DeepNude e logo viralizou. A tal ponto que o criador veio a público tempos depois dizer que ia parar de vendê-lo porque “o mundo ainda não estava preparado” para ele. Também advertia que o termo de uso do aplicativo proibia a quem o tinha adquirido de compartilhá-lo.

Casos de deep nude têm motivado cada vez mais ações na Justiça. Foto: Tadamichi/Adobe Stock
Claro que a advertência não serviu pra nada e ferramentas do tipo logo se multiplicaram em centenas de aplicativos e assistentes de IA, como o Grok, do X. Uma rápida busca oferece opções gratuitas com apelos do tipo “treinado em datasets do mundo real” e “refinado a partir de feedbacks de usuários”.
Numa coluna publicada há três anos, eu contei que no Brasil casos de deep nude já vinham motivando cada vez mais ações na Justiça. Uma delas foi a de uma mulher que começou a se relacionar com um homem que vivia terminando e voltando com a ex. Quando ele realmente resolveu ficar com a nova namorada, a ex não aceitou o fim definitivo da relação. E passou a criar perfis falsos em redes sociais e a fazer montagens com imagens da vítima e de seu filho menor de idade. Entre elas, um deep nude, enviado a todos os seus contatos.
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Outro caso envolveu uma jovem cujo ex não se conformava com o fim de um namoro de adolescência. Irritado, passou a ameaçá-la dizendo que divulgaria fotos suas nuas para toda a família. Todas as fotos eram fakes.
Um desafio nesses casos é que nem sempre recorrer à Justiça significará pôr fim ao problema. Ao contrário: as vítimas podem cair no chamado Efeito Streisand e ver seu problema amplificado.
Esse é o nome que se dá quando se tenta ocultar ou remover algum tipo de informação e se acaba, em vez disso, divulgando-a ainda mais.
O termo vem do sobrenome da atriz e cantora americana Barbra Streisand. Em 2003, ela processou um fotógrafo e um site que disponibilizava fotos aéreas da costa da Califórnia. Alegando preocupação com a privacidade, ela pediu que a imagem de sua casa fosse retirada. Mas o caso ficou tão popular que milhares de pessoas passaram a acessar o site só para ver a propriedade.
Os riscos também estão aumentando com o desenvolvimento rápido da inteligência artificial. Imaginem quando, além de deep nudes, criminosos passarem a criar e compartilhar em maior escala por exemplo vídeos fakes pornôs ultrarrealistas? Eles já existem, mas a rapidez com que a IA tem simplificado a tarefa de atormentar a vida das pessoas com alguns poucos cliques está aumentando. Falo mais sobre isso no vídeo que acompanha esta reportagem.
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