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Bet do ‘maior grupo de apostas ilegais do mundo’ tem aval do governo Lula para operar no Brasil

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
17/05/2026
no Brasil, Capa
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Bet do ‘maior grupo de apostas ilegais do mundo’ tem aval do governo Lula para operar no Brasil
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BRASÍLIA E SÃO PAULO – Banido em vários países, o site 1xBet conseguiu autorização do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para funcionar enquanto atuava ilegalmente no Brasil, indicam processos judiciais. A outorga foi liberada pelo Ministério da Fazenda em julho e a bet, de origem russa, ainda responde na Justiça por bloquear prêmios de apostadores durante o período de ilegalidade no Brasil.

As bets que conseguiram o aval do governo estavam liberadas pela legislação para explorar o mercado de apostas regular a partir de 1º de janeiro de 2025. Sem obter a autorização nas primeiras levas de outorgas por inadequações no requerimento, a 1xBet manteve-se em funcionamento mesmo assim, arrecadando dinheiro de brasileiros de forma clandestina.

Procurado, o Ministério da Fazenda afirmou que a operadora da marca no Brasil foi autorizada depois de apresentar documentos que “permitiram avaliar sua estrutura societária até o nível de beneficiário final”, mas destacou que autorizações podem ser revistas “caso surjam fatos novos que descumpram as regulamentações impostas”.

A 1xBet disse que a operação da marca no Brasil é independente e segue os mais rígidos padrões globais de compliance, jogo responsável e governança corporativa. Também alegou que atua em conformidade com a legislação brasileira e de acordo com a autorização obtida na Fazenda.

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A atuação indevida está demonstrada em processos judiciais movidos por apostadores que relataram ter sido impedidos de sacar ganhos. Nas ações, a responsável pela 1xBet alegou não ter relação com o site que travou os pagamentos, mas o argumento não foi acolhido pela Justiça em ações que tramitam em Santa Catarina, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A marca 1xBet é explorada no Brasil pela Defy Ltda, uma empresa de Caxias do Sul (RS) em nome de Carlos Eduardo Ferreira e da Lutum Limited, uma firma registrada no Chipre, uma ilha no Mar Mediterrâneo – onde está a sede da operação da bet. Antes, a Defy chamava-se 1xBet Intermediação de Negócios LTDA e mudou o nome ao longo da tramitação de processos movidos por apostadores.

A Defy apresentou defesas quase idênticas em todos os processos analisados pela reportagem. Dizia que a semelhança de seu nome com a da bet questionada não passava de coincidência, que não tinha ingerência sobre o site acessado pelos apostadores lesados, o br.1xbet.com, e que a Justiça deveria se basear em uma informação que o próprio site apresentava sobre o controlador da página, uma empresa estrangeira registrada em Curaçao, paraíso fiscal do Caribe.

Contudo, uma análise de domínios virtuais anexada pela própria Defy mostrava que o link pertencia ao site 1x-bet.com – que a empresa de Carlos Ferreira também afirmava desconhecer. Hoje, este link redireciona o apostador para o site oficial da casa de apostas da Defy Ltda, autorizado pelo Ministério da Fazenda.

Enquanto no Judiciário Carlos Ferreira negava relação com a 1xBet, o empresário aparecia em fóruns da indústria de apostas como gerente nacional da bet.

“É muito importante para nossa empresa percorrer o globo nesses eventos mostrando nosso trabalho, nossa marca. E não seria diferente aqui no Brasil também. O Brasil é um mercado importante para 1xBet”, disse ao canal Games Magazine Brasil, em abril de 2024.

Dos processos analisados pela reportagem, dois são representativos. Em um deles, movido em outubro de 2024 por um apostador de Goiânia (GO), a Defy pagou, sem recorrer da sentença, os R$ 3,1 mil, cobrados de devolução e indenização perdidos na 1xBet na fase anterior à regulação.

O outro caso é o de uma apostadora de Joaçaba (SC). Ela relatou à Justiça que jogou na 1xBet no fim de janeiro de 2025 e acabou tendo R$ 5,2 mil bloqueados pela plataforma, que pedia novos aportes para liberar o dinheiro.

Ou seja, em paralelo ao processo de licença que corria na Fazenda, a casa de apostas funcionava sem ter a autorização, durante o período do mercado regulado, quando nenhuma bet sem o aval federal poderia oferecer apostas online.

Até 2024, as empresas de apostas exploravam uma “zona cinzenta” da legislação vigente à época e funcionavam livremente no País a partir de supostas sedes no exterior. As regras atuais passaram a valer em 2025. A Defy só ganhou a autorização oficial para explorar apostas com a 1xBet em 29 de julho, após ter pedidos negados desde o fim de 2024.

No processo da apostadora de Joaçaba, a Justiça determinou que a Defy faça a devolução do dinheiro travado, conforme uma decisão de novembro. A empresa que representa a 1xBet perdeu dois recursos. Um terceiro ainda será julgado.

O advogado da apostadora afirmou no processo que a bet faz “manobra para se furtar à responsabilidade jurídica frente aos consumidores” e que a empresa, como não havia sido autorizada, “passou a operar de forma ilegal no País por diversos domínios diferentes, e arrecadando mais dinheiro de diversos consumidores”.

Procurada para comentar os processos movidos por apostadores e o funcionamento irregular já em 2025, a casa de apostas não comentou.

A Defy informou à Receita Federal e ao Ministério da Fazenda funcionar em um prédio comercial no centro de Caxias do Sul (RS). Em um dos processos movidos por apostadores, um oficial de Justiça foi ao endereço levar uma intimação, em abril de 2025, e relatou ao juiz do caso ter sido informado de que a empresa deixou o local sem informar o novo endereço.

Ter sede no Brasil é uma das exigências para empresas de apostas serem liberadas pelo governo. A reportagem perguntou ao Ministério da Fazenda se a pasta tem informação oficial sobre a mudança de endereço. O órgão reforçou que não foram constadas irregularidades na época da solicitação de licenciamento, mas “caso surjam novos fatos que indiquem descumprimento das regulamentações vigentes”, haverá abertura de procedimento fiscalizatório que pode resultar em sanções.

Relatórios falam em esquema mundial ilegal

Criada por russos em 2007, a 1xBet está, hoje, em uma base no Chipre, país que fica em uma ilha no Mar Mediterrâneo. A empresa é banida em vários países da Europa por um histórico de funcionamento ilegal e conexão com crimes como lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Em fóruns especializados do exterior, a bet é conhecida como “Grupo Wagner das Apostas”, em referência à organização paramilitar de mercenários russos. O rótulo foi dado por Corentin Ségalen, coordenador da Autoridade Nacional de Jogos da França, entidade que atua contra a manipulação nos esportes, e ex-líder do Grupo Copenhagen.

A entidade é um braço da Convenção de Macolin, um conselho internacional dedicado a combater a manipulação de resultados esportivos. O Brasil aderiu a essa Convenção em setembro.

O histórico da casa de apostas veio à tona no mês passado com a divulgação de dois relatórios de análises financeiras sobre a Sportradar, empresa de monitoramento da integridade de apostas esportivas usada por entidades como Fifa, CBF e Conmebol. Os documentos dizem que a Sportradar tem profunda relação com operadores ilegais de apostas ao redor do mundo – e uma das principais parceiras dela no mercado ilegal seria a 1xBet.

O relatório da Callisto Research classifica a 1xBet como “provavelmente o maior esquema de apostas ilegais do mundo” em receitas. A bet movimenta estimadamente US$ 2 bilhões por ano no planeta, com exploração infantil, lavagem de dinheiro entre países e fabricação de eventos esportivos falsos para manipular apostas, segundo o documento divulgado no mês passado.

A Callisto se define como um grupo especializado em investigações globais focada em identificar “falhas” em empresas de capital aberto. Eles afirmam usar fontes públicas, pesquisa de campo e análises. Os relatórios costumam ter o passo a passo da investigação para permitir verificação pública.

O relatório cita uma reportagem do Bellingcat, um renomado site de jornalismo investigativo, que mostrou no ano passado que a 1xBet opera uma rede que produz e transmite até 1,2 mil eventos esportivos falsos por dia. São jogos de futebol e tênis de mesa amadores, por exemplo, de times com nomes como “Real”, “Arsenal” e “Barcelona”. Essas simulações, segundo a reportagem, usam até crianças e são filmadas em países como Ucrânia e Belarus, onde a 1xBet é proibida.

Já o levantamento divulgado pelo Muddy Waters Research, que se apresenta como uma firma de investigação independente sobre fraude financeira, salienta que a 1xBet pertence a um grupo de russos que são procurados por autoridades do próprio país justamente por organizar jogos de azar ilegais há anos.

Ambos os grupos admitem interesse financeiro nos impactos causados nas empresas que reportam. A divulgação dos dois relatórios, por exemplo, derrubou ações da Sportradar na Nasdaq.

Governo fez regulação, mas Lula sobe tom contra bets

A sanção da nova lei das bets, em 2023, e a liberação para empresas como a 1xBet foram decisões do governo do presidente Lula, que recentemente passou a subir o tom das críticas contra casas de apostas.

O presidente chegou a defender o fim das bets e disse que o setor é um responsáveis pelo endividamento da sociedade.

“Se as bets causam mal, porque não acabamos com elas?”, disse, em abril, em entrevista ao canal ICL, alinhado com o governo. “Não é possível continuar com essa jogatina desenfreada nesse País.”

Os representantes das casas de apostas avaliam a posição do presidente como contraditória porque o fim do mercado regulado não acabaria com a demanda e lançaria os apostadores brasileiros para jogos ilegais.

No último dia 4, Lula assinou lançou o Novo Desenrola Brasil, programa concebido para tentar diminuir o endividamento dos brasileiros. Quem aderir ao programa ficará proibido de fazer apostas bets por um ano. “Não pode continuar jogando em bets. Estamos proibindo, durante um ano, gastar um pouco dos recursos em jogo”, afirmou.

O setor de apostas criticou o veto às apostas nas adesões ao Desenrola Brasil. Uma das principais associações de defesa das empresas de apostas afirmou que a causa do endividamento é o juro elevado.

“Gastos com apostas estão longe de figurar entre os principais comprometedores do orçamento familiar. O endividamento dos brasileiros está fortemente associado aos altos juros praticados no País, especialmente no rotativo do cartão de crédito e no cheque especial — fatores que impactam diretamente o consumo em diversos setores”, afirmou em nota a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL).

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