Azedou! O investidor na Bolsa brasileira terminou o dia com um gosto terrível na boca: Ibovespa com queda ampla de 1,80%, aos 177.098,29 pontos, uma baixa de 3.244,04 pontos. É o sabor da derrota, da decepção, da frustração, da impotência.
Não só no IBOV: o real também tomou um tombo. O dólar comercial disparou 2,31%, a R$ 5,009, mas na máxima chegou a R$ 5,013. Os DIs (juros futuros) chegaram a subir mais de 2% por toda a curva e ficaram todos no positivo.
Notícia liga Flávio Bolsonaro a Vorcaro
A receita para um prato tão amargo veio de uma notícia veiculada na imprensa, já no final da tarde, de que Flavio Bolsonaro, candidato mais viável eleitoralmente, segundo as pesquisas, para desbancar o atual presidente e candidato a reeleição, Lula, tem ligações com Daniel Vorcaro, preso como cabeça do esquema bilionário do Banco Master.
A notícia apresenta áudio sobre o pedido de dinheiro para ajudar na produção do filme biográfico do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje também preso, mas por tramar e tentar um golpe de Estado, segundo o Supremo Tribunal Federal.
Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, explica a indigestão do mercado: “a queda da bolsa tem a ver com a notícia do áudio vazado do Flavio Bolsonaro, sem dúvidas. Isso também faz, inclusive, juros futuros e dólar subirem por conta da aversão ao risco. Hoje tivemos uma pesquisa eleitoral que mostrou uma recuperação de popularidade e das perspectivas de segundo turno do Lula, que voltou a estar a frente do Flávio, mas tudo dentro da margem de erro, no empate técnico”.
Ele seguiu: “o assunto Master é muito forte, muito ligado à percepção de corrupção no Brasil, atingiu praticamente todos os poderes e todas as esferas políticas e até agora não vinha sendo associada explicitamente à família Bolsonaro”, disse.
Mas, “sem dúvida, isso impacta na interpretação do mercado das chances do Flávio nas eleições. Não sei até que ponto isso vai se traduzir em perda de votos, mas reduz as chances do Flávio. Acredito que o mercado se ressente não por uma paixão pelo Flávio Bolsonaro, mas porque o mercado hoje tem uma preferência até bastante explícita por uma mudança de regime para uma candidatura de oposição que traga uma política econômica mais ortodoxa, uma política fiscal mais responsável, uma visão mais pragmática ali para as despesas públicas e para a dívida pública. Hoje o Flávio era o favorito, o que gera uma frustração grande. E quando você tem uma notícia tão ruim assim, é bastante ruim as chances dele no segundo turno. E isso deve ser muito explorado pela oposição”.
Wall Street mais positiva
O sabor fica pior quando se vê que no exterior, os mercados se comportaram de forma mais positiva. Em Wall Street, só o Dow Jones ficou negativo, com o Nasdaq disparando mais de 1%, com a visita de Donald Trump, presidente dos EUA, à China, para falar com o presidente local, Xi Jinping.
Em igualdade à mesa, os dois líderes prometem cozinhar um acordo de ganha-ganha que o mercado espera ser bem digestivo.
O encontro dos dois, inclusive, fez os europeus saborearem altas nos principais índices, mesmo que no Reino Unido o primeiro-ministro Keir Starmer esteja engasgado e pressionado por todos os lados.
Ajudou também o bom humor externo o fato do petróleo ter caído com certa amplitude. Ajudou porque o pensamento quase hegemônico é que se preços do petróleo seguirem altos até 2027, há risco de recessão global. O ouro, por sua vez, subiu, com demanda dos Bancos Centrais.
O bom humor evitou a indigestão com o PPI (índice de preços ao produtor) nos EUA, que em abril veio com a maior alta em quatro anos, o que reforça as preocupações com a inflação na maior potência do mundo.
Vale sobe, bancos caem
O amargor servido ao mercado doméstico hoje, com as notícias do ambiente político, não tirou ainda a fome do investidor pelo mercado brasileiro. Análise do Morgan Stanley projeta Ibovespa a 240 mil em 12 meses e potencial bilionário com novos fluxos. O Brasil se destaca pelo seu potencial de fluxo de capital local, que poderia adicionar demanda significativa por ações brasileiras, segundo o banco.
Hoje, diante da cozinha bagunçada politicamente, dos grandes pratos disponíveis no cardápio, apenas Vale (VALE3) se destacou positivamente, com alta consistente de 1,26%, a despeito do minério de ferro ter apenas oscilado do outro lado do mundo.
O resto não desceu bem no estômago do investidor. Petrobras (PETR4) caiu amplos 2,43%, na esteira do petróleo internacional em queda, tentando digerir a Medida Provisória do governo federal, que busca amenizar a alta da gasolina no Brasil. A boa notícia para a empresa é que a Petrobras foi a petroleira mais lucrativa do mundo no 1T26.
Os bancos também engasgaram no esôfago do investidor: BB (BBAS3) caiu 2,63%, Bradesco (BBDC4) desceu 1,73%, Itaú Unibanco (ITUB4) perdeu 0,60% e Santander (SANB11) cedeu 2,28%.
Pouca gente se salvou. Duas apetitosas exceções foram Braskem (BRKM5), com mais 2,86%, após a disparada de véspera; e Hapvida (HAPV3), com mais 1,92%, igualmente ampliando a alta deliciosa do dia anterior.
A quinta-feira será para se fartar, para quem procura entender melhor os rumos da política, com o caso Flavio Bolsonaro, e geopolítica, com o encontro Xi e Trump. O cardápio está posto. Vai pedir o quê? (Fernando Augusto Lopes)
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.



















