Um grupo de parlamentares, apelidado de ‘Bancada do Master’, é acusado de favorecer o Banco Master no Congresso, blindar políticos e pressionar a Polícia Federal e o Banco Central. O banco, envolvido em vendas fraudulentas de carteiras de crédito ao BRB, está sob investigação. Propostas para aumentar a cobertura do FGC e limitar a atuação da PF foram apresentadas. A criação de uma CPI enfrenta resistência, com líderes políticos tentando barrar a investigação. O caso envolve figuras como Ciro Nogueira e Claudio Cajado.
Um grupo de parlamentares agiu para aprovar propostas no Congresso Nacional que favoreciam o Banco Master, blindavam políticos, pressionavam a Polícia Federal e o Banco Central e agora tenta evitar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso.
Nos bastidores, as iniciativas têm sido atribuídas à chamada “Bancada do Master” no Congresso. A bancada deixou digitais enquanto o Master vendia carteiras “podres” para o Banco de Brasília (BRB), o banqueiro Daniel Vorcaro aumentava seu leque de relações políticas com festas e eventos patrocinados e o BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, tentava comprar o banco.
Em março do ano passado, o BRB tentou comprar o Master, mas a proposta foi rejeitada pelo Banco Central em setembro. Vorcaro foi preso em novembro, tendo sido solto depois, e o banco foi liquidado pelo BC. As datas coincidem com os movimentos de líderes no Congresso para aprovar propostas favoreciam o banco e blindavam políticos.
Ciro Nogueira apresentou emenda para aumentar valor coberto pelo FGC, vetor de negócios do Master
No dia 13 de agosto de 2024, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), apresentou uma emenda na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de autonomia financeira do Banco Central para aumentar o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil por CPF para R$ 1 milhão. A proposta foi identificada por políticos e integrantes do mercado financeiro como uma das primeiras “digitais” para favorecer o Master no Congresso.
Os títulos com cobertura do FGC formavam o principal vetor do Master nessa época. O banqueiro Daniel Vorcaro disse, em depoimento à Polícia Federal, que o modelo de negócio era “100% baseado no FGC”. O Master vendia CDBs (Certificados de Depósito Bancário) oferecendo rentabilidade bem acima da média dos grandes bancos para atrair investidores, mas demonstrou não ter capacidade para honrar esses pagamentos.
Como mostrou o Estadão, Ciro Nogueira é um dos políticos que se conectaram com Vorcaro, participando de eventos patrocinados pelo Master no exterior, apoiando as negociações com o BRB e defendendo interesses do banqueiro no Congresso. A emenda não foi acolhida pelo relator da PEC, senador Plínio Valério (PSDB-AM).
Em novembro de 2024, o deputado Filipe Barros (PL-PR) apresentou um projeto de lei idêntico à emenda proposta por Nogueira, mas o texto não avançou na Câmara e segue na gaveta do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Operadores do mercado bancário viram na iniciativa de Ciro Nogueira uma tentativa do Master de alargar a atuação que já estava sob crítica, como mostrou o Estadão. O argumento do senador, apresentado na exposição de motivos da emenda, era o de “incentivar maior competitividade” no setor bancário contra “o monopólio dos serviços para as instituições mais tradicionais e maiores”.
Procurado, Ciro Nogueira não quis comentar.
Líderes da Câmara tentaram dar poder para Congresso destituir diretores do BC
Dois antes de o Banco Central rejeitar a compra do Master pelo BRB, e com as investigações avançando, o deputado Claudio Cajado (PP-BA) apresentou um requerimento de urgência para acelerar a tramitação de um projeto de lei de 2021 que permite ao Congresso destituir presidentes e diretores do Banco Central.
Cajado é vice-presidente do PP e um dos aliados mais próximos a Ciro Nogueira. Ele chegou a presidir o partido provisoriamente na época em que Nogueira era ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL).
O requerimento ganhou apoio de seis líderes partidários e começou a tramitar no dia 2 de setembro: Isnaldo Bulhões (MDB-AL), Doutor Luizinho (PP-RJ), Pedro Lucas Fernando (União-MA), Pedro Campos (PSB-PE), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), e Gilberto Abramo (Republicanos-MG). Desses, apenas Pedro Campos e Sóstenes Cavalcante assinaram o pedido para criar uma CPI do Master no Congresso.
A proposta foi criticada por autoridades e ex-diretores do Banco Central, como o ex-presidente da autarquia e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles e o ministro da Fazenda do governo Lula, Fernando Haddad, por ameaçar diretores do Banco Central com demissão no momento em que a autoridade monetária conduzia uma investigação sobre o Master e uma análise sobre a proposta de compra do banco de Vorcaro pelo BRB.
Após a apresentação do requerimento de urgência, a deputada Lídice da Mata (PSB-BA), uma das autores do projeto, pediu a retirada de tramitação da proposta na Câmara. A bancada do PSB não concordou com o resgate do texto no meio do Caso Master.
O líder do partido na Casa, Pedro Campos (PE) disse ao Estadão que, como representante da bancada, assinou todas as urgências de projetos do partido e que o PSB foi um dos primeiros a denunciar as irregularidades da compra do Banco Master e a propor uma CPI sobre o tema. Ele foi um dos deputados que assinaram a CPI.
Câmara aprovou PEC que blindava e dava foro especial para dirigentes partidários
No dia 16 de setembro de 2025, Claudio Cajado apresentou o parecer da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Blindagem, dando foro privilegiado para dirigentes de partidos políticos com representação no Congresso, que passariam a ser julgados pelo STF em crimes comuns. A PEC foi aprovada na Câmara, sob forte reação e manifestação popular nas ruas, e não andou no Senado.
A iniciativa foi patrocinada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e apoiada pelos principais líderes da Casa. Nessa época, o Master já estava sendo investigado e o Banco Central havia rejeitado há duas semanas a compra do banco de Daniel Vorcaro pelo BRB.
O presidente do PP, Ciro Nogueira, e o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, agiram juntos para oferecer uma aliança e apoiar a campanha do atual governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), ao Senado em 2026, após o emedebista atuar para o BRB comprar o Master, como o Estadão mostrou.
O União Brasil, presidido por Rueda, controla o RioPrevidência, o fundo de previdência dos servidores do Estado do Rio, que aplicou aproximadamente R$ 1 bilhão no Master. O fundo foi alvo de uma operação da Polícia Federal por suspeita de irregularidades na operação, incompatível com a finalidade do instituto de previdência e com risco elevado.
O presidente do RioPrevidência, Deivis Marcon Antunes, sabia da possibilidade de ser alvo de uma operação da PF e saiu do País no dia 15 de janeiro. Ele deixou o cargo após a operação. Não há informação sobre presidentes de partidos investigados no caso Master. Nos bastidores, porém, a iniciativa foi atribuída às apurações envolvendo a instituição.
Claudio Cajado negou que a proposta pudesse estar relacionada ao Caso Master. “Desculpe, mas você está fazendo uma tremenda ilação inadequada e sem sentido ao relacionar a PEC das Prerrogativas ao Banco Master. Nada a ver foro privilegiado dos presidentes dos partidos nacionais a Vorcaro ou ao Banco Master”, disse ele à reportagem. “Você deveria ter mais cuidado com suas reportagens e perguntas, em especial a mim.” O parlamentar não quis comentar sobre o projeto de destituição de diretores do Banco Central.
Relator de PL Antifacção tentou limitar atuação da Polícia Federal após prisão de Vorcaro
Em novembro, ao analisar o projeto de lei antifacção, enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Câmara fez alterações na proposta. O relator do texto na Casa, Guilherme Derrite (PP-SP), apresentou diferentes versões do parecer com propostas que, na visão do governo e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, limitavam a atuação da instituição.
A proposta determinava que a Polícia Federal só poderia entrar em investigações de organizações criminosas quando os fatos tivessem repercussão interestadual ou transnacional e mediante pedido dos governadores. Além disso, dividia recursos que hoje ficam com a PF para os Estados.
A proposta entrou na pauta da Câmara um dia depois de a Polícia Federal prender Daniel Vorcaro. Após críticas do governo, o relator voltou atrás em alguns pontos, mas manteve a retirada de recursos da PF, que foi revertida pelo Senado. Segundo líderes da Câmara, essa foi mais uma iniciativa que tumultuou as discussões do projeto enquanto o órgão investigava o Master.
Derrite afirmou em nota que “a tentativa de associar o PL Antifacção aos fatos envolvendo o Banco Master é juridicamente incorreta e politicamente oportunista.” Segundo ele, “a narrativa” de que o projeto mexe competências da Polícia Federal é “absolutamente falaciosa”. O deputado ressaltou que assinou o pedido de instalação da CPI do Banco Master no Congresso.
Grupo age para barrar CPI do Master no Congresso
Conforme o Estadão mostrou, os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), resistem a instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Master no Congresso Nacional.
Em reunião de líderes, Motta apontou obstáculos regimentais que dificultariam a criação da comissão. A situação aumentou a pressão sobre ele e Alcolumbre, responsável por abrir uma comissão mista entre deputados e senadores.
O presidente do Senado avisou a interlocutores que tomará uma decisão após a volta do recesso, nesta segunda-feira, 2, mas aliados avisam que ele não está disposto a criar uma CPI do Master.
O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, também entrou em campo para barrar a instalação da CPI, segundo apurou a reportagem.
Um dos parlamentares que busca assinaturas para a criação do colegiado diz que houve houve investidas de deputados do União Brasil para limitar o sucesso na coleta de assinaturas para a CPI e até mesmo tentativas de reduzir o número de apoios.
A mensagem ouvida por esse parlamentar é de que Rueda estava pessoalmente interessado nas questões relacionadas à comissão e que partiu dele a ordem de envio dos emissários do União.
Rueda é constantemente apontado por parlamentares como uma espécie de “lobista” do Master e de Vorcaro no Congresso. O Estadão ouviu essa avaliação de dois deputados e um senador que só aceitaram falar reservadamente. Procurado, o presidente do União Brasil não comentou.
A criação da CPI também não interessa ao governo. O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), avisou que é contra a criação do colegiado. Apesar disso, um grupo de governistas começou a apoiar a investigação do Congresso — um deles foi o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-PA).
‘Bancada do Master’ apoiou tentativa do TCU de questionar liquidação
Além dos projetos e da atuação contra a CPI, a “Bancada do Master” agiu nos bastidores para apoiar uma tentativa do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), de questionar a liquidação do Master decretada pelo Banco Central.
Jhonatan chegou a determinar uma inspeção no BC com a “máxima urgência” e falou até em impedir a autoridade monetária de vender os bens do banqueiro Daniel Vorcaro. Depois, voltou atrás e a inspeção se tornou uma diligência negociada com o Banco Central. Ainda assim, como mostrou o Estadão, auditores do TCU relataram pressão do ministro para influenciar na análise técnica.
Segundo integrantes do Congresso, a cúpula do Legislativo está alinhada com Jhonatan de Jesus, apadrinhado pelo ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) para assumir a cadeira na Corte de Contas.
Em entrevista à GloboNews, o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), disse que Lira e Motta estavam pressionando um setor do TCU a anular a liquidação do Master. Lira negou e chamou a declaração de “fake news”. Motta não comentou.
Líder do governo Lula no Senado é amigo de ex-sócio de Vorcaro e sugeriu Lewandowski para o Master
O líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), confirmou que indicou o ex-ministro da Justiça e ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski para ser consultor do Banco Master. Wagner não assinou a CPI do Master.
O senador é amigo do empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Lima era parceiro da empresa estrangeira que venceu o leilão de privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que tinha uma rede de supermercados chamada Cesta do Povo na Bahia. O negócio originou o Credcesta, um cartão de benefício consignado, incorporado mais tarde pelo Master.
Em entrevista ao portal BNews, da Bahia, Jaques Wagner confirmou que negociou a venda da Cesta do Povo no Estado com Augusto Lima. O senador afirmou, no entanto, que “está fora dessa confusão” do caso Master e disse que apenas sugeriu o nome do ex-ministro do STF para o banco de Daniel Vorcaro.
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.















