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Uma guerra entre EUA e Venezuela é cada vez mais provável. Seria um teste da ‘doutrina Trump’

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
13/11/2025
no Mundo
Tempo de leitura:14 minutos de leitura
28
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E se os Estados Unidos invadirem a Venezuela?

Disparidade militar entre EUA e Venezuela é abissal: enquanto Washington tem as Forças Armadas mais poderosas do mundo, Caracas ocupa apenas a 50ª posição. Crédito: Amanda Botelho e Gabriella Lodi/Estadão

“Nós deslocamos recursos e interesses dos EUA por todo o planeta, mas quando fazemos isso em nosso próprio hemisfério… todo mundo fica meio que apavorado”. Assim, Marco Rubio, secretário de Estado americano, descartou o alarme sobre a campanha militar em formação contra os “narcoterroristas”.

O USS Gravely, um navio de guerra da Marinha dos EUA, parte do Porto de Port of Spain em 30 de outubro de 2025 Foto: Martin Bernetti / AFP

A diplomacia das canhoneiras americanas revive uma história sombria de intervenções militares e golpes de Estado na América Latina, muitas vezes motivados pelo medo de potências hostis, que diminuiu após a Guerra Fria. Seu retorno decorre em parte da preocupação com o aumento da influência do Irã, da Rússia e, especialmente, da China. Mas se deve mais à obsessão de Trump em proteger o território nacional, aliada à sua vontade de parecer um estadista poderoso. Meses antes, ele se preocupava com a possibilidade de a China assumir o controle do Canal do Panamá e com a necessidade dos Estados Unidos de tomar a Groenlândia. Agora, ele volta sua atenção para a Venezuela, auxiliado por uma nova doutrina duvidosa.

O governo Trump redefiniu as gangues de traficantes como terroristas, em vez de criminosos, em um esforço para justificar o uso da força militar contra elas. Ele vinculou Maduro diretamente às gangues para justificar a pressão sobre seu regime. Rubio chama os cartéis de traficantes de “Al-Qaeda do hemisfério ocidental”. Assim como a “guerra global contra o terrorismo”, a nova guerra contra o narcoterrorismo traz o risco de um envolvimento militar dispendioso — isso vindo de um presidente que prometeu acabar com as “guerras eternas” dos Estados Unidos. Uma pesquisa da YouGov no mês passado revelou que a maioria dos americanos se opõe a uma ação militar na Venezuela. (Outra pesquisa, da AtlasIntel, mostrou que a maioria dos latino-americanos apoiava a ideia.)

As ações dos Estados Unidos são estranhamente contraditórias. Se a Venezuela é um Estado terrorista, por que os Estados Unidos encerraram o “status de proteção temporária” de cerca de 600 mil requerentes de asilo venezuelanos e enviaram alguns deles de volta para os narcoterroristas? Voos lotados de deportados pousam na Venezuela duas vezes por semana, mesmo com os B-1s e B-52s ameaçando bombardear o país. Os petroleiros fretados pela Chevron ainda navegam do Lago Maracaibo, carregados de petróleo com destino às refinarias americanas.

No início deste ano, as relações com a Venezuela pareciam estar melhorando. O país libertou vários americanos da prisão. A Chevron foi autorizada a retomar os embarques de petróleo em julho. Mas quase imediatamente depois disso veio a grande reviravolta. O Tesouro classificou uma organização obscura chamada Cartel de Los Soles (Cartel dos Sóis), um grupo de tráfico de drogas ligado a oficiais militares de alto escalão, como “Terrorista Global Especialmente Designado”. Maduro foi identificado como seu líder. O cartel foi acusado de ajudar outra gangue venezuelana, a Tren de Aragua, que já havia sido designada como “Organização Terrorista Estrangeira” em fevereiro. Em agosto, o Departamento de Estado dobrou a recompensa por informações que levassem à prisão ou condenação de Maduro para US$ 50 milhões. Mísseis começaram a chover sobre supostos barcos de tráfico de drogas em 2 de setembro. Mais de 60 pessoas foram mortas até agora. Partes de corpos carbonizados foram levadas pelas ondas até as praias de Trinidad e Tobago.

Autoridades dizem que tudo isso reflete a evolução de Trump. O negociador deu uma chance à diplomacia, ficou desapontado com os resultados e então aumentou a pressão. A mudança também reflete o equilíbrio de poder em transformação entre seus assessores. Ric Grenell, “enviado especial para missões especiais” de Trump, liderou as negociações com Maduro e é considerado favorável à diplomacia. Rubio, que também atua como conselheiro de segurança nacional, defende a linha dura. Ex-senador de ascendência cubana, ele enfatiza a restauração da influência dos Estados Unidos em seu hemisfério.

O show de Rubio

Rubio fundiu assim seus instintos neoconservadores com o nativismo do America First de Trump. Ele argumenta que muitos dos problemas dos Estados Unidos, da migração ao contrabando de drogas, vêm das Américas. À medida que a política interna se estende à política externa, o America First se torna “Americas First”. Ele pode ver uma chance de remodelar o Caribe ao gosto dos Estados Unidos. Se Maduro cair, inimigos como Cuba e Nicarágua provavelmente perderão o acesso ao petróleo venezuelano subsidiado e ficarão desestabilizados.

O secretário de Estado Marco Rubio na Sala do Gabinete da Casa Branca, sexta-feira, 7 de novembro de 2025, em Washington Foto: Evan Vucci / AP

No entanto, o efeito dominó pode ser o contrário. Uma intervenção mal sucedida pode levar ao caos na Venezuela e além, alimentando o antiamericanismo e agravando os problemas de drogas e migração.

Os otimistas acham que a intervenção seria semelhante às invasões curtas e bem-sucedidas de Granada em 1983 e do Panamá em 1989. Os críticos argumentam que a Venezuela é um país maior e mais complexo, e a intervenção poderia se assemelhar aos desastres no Afeganistão, Iraque e Líbia. De qualquer forma, há poucos sinais de que o governo Trump tenha um plano coerente para derrubar Maduro, muito menos para depois disso.

O maior trunfo dos Estados Unidos é a impopularidade e a ilegitimidade de Maduro e seu regime. Maduro instaurou a repressão política e o colapso econômico, levando a uma das maiores ondas de refugiados do mundo. Maduro fraudou a eleição presidencial de 2024, proibindo a líder da oposição, María Corina Machado, de concorrer. No lugar dela, Edmundo González Urrutia, venceu de maneira esmagadora, mas a ditadura declarou o resultado falso.

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A melhor esperança de destituir Maduro é que as ameaças militares enfraqueçam seu regime. A aproximação do USS Gerald Ford, o maior e mais novo porta-aviões dos Estados Unidos, pode concentrar as atenções. “Presumo que o papel da CIA seja enviar muitas mensagens às pessoas do regime e das forças armadas, dizendo: ‘Olhem, Maduro tem que sair. Não há motivo para vocês afundarem com ele’”, diz Elliott Abrams, enviado especial à Venezuela no primeiro mandato de Trump.

Foram feitas concessões. Uma proposta, de acordo com o jornal Miami Herald, era criar um governo de transição formado por chavistas seniores, sem Maduro. Outra, relatada pelo The New York Times, oferecia acesso privilegiado a recursos petrolíferos e minerais, e um papel reduzido para a China, a Rússia e o Irã. “Ele ofereceu tudo”, declarou Trump em 17 de outubro. “Sabe por quê? Porque ele não quer se meter com os Estados Unidos”.

Um caça F-18E decola do porta-aviões USS Gerald R. Ford durante o exercício NATO Neptune Strike 2025, em 24 de setembro de 2025, no Mar do Norte Foto: Jonathan KLEIN / AFP

No entanto, Maduro ainda controla as armas. Com a ajuda da inteligência cubana, ele está intensificando uma purga de suspeitos de oposição. Dezenas de oficiais militares considerados desleais estão presos, muitos torturados, suas famílias ameaçadas e também presas. Poucos se arriscam a se manifestar contra Maduro até terem certeza de que ele está de saída.

Portanto, Trump pode ter que usar a força, e não apenas ameaçar usá-la. Ele prefere ataques rápidos e surpresa, com pouco risco para as forças americanas, como o bombardeio das instalações nucleares do Irã em junho. No caso da Venezuela, porém, Trump parece estar divulgando suas ações para aumentar a pressão. Vazamentos sugerem que ele pode primeiro atacar locais remotos, talvez aeródromos ligados a redes de tráfico de drogas. Se isso se transformar em uma campanha aérea sustentada contra o regime chavista, as defesas aéreas terão que ser destruídas.

Mas o poder aéreo por si só raramente, ou nunca, conseguiu derrubar um governo sem uma força amiga em terra — o que parece ausente na Venezuela. Talvez o governo Trump ache que pode matar Maduro dos céus (supondo que esteja preparado para reverter as ordens executivas que proíbem o assassinato de líderes estrangeiros desde 1976). Isso também é difícil. Saddam Hussein, ditador do Iraque, só foi capturado depois que as forças americanas ocuparam o Iraque em 2003. Enviar forças terrestres para a Venezuela seria profundamente impopular.

O sucesso de qualquer intervenção dependerá de ela melhorar o país e de essa melhoria ser duradoura. Há duas questões cruciais. Primeiro, a oposição pode governar a bagunça que é a Venezuela? Muitos de seus líderes estão no exílio. María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz deste ano, está escondida na Venezuela, mas pode se comunicar. Ela apoia Trump, tendo dito à Bloomberg: “Acredito que a escalada é a única maneira de forçar Maduro a entender que é hora de sair”. Nem todas as figuras da oposição compartilham dessa opinião. Ainda assim, María Corina Machado diz que tem planos para as primeiras 100 horas de uma transição e para os primeiros 100 dias.

Uma captura de tela de um arquivo distribuído e publicada na conta do Instagram da líder da oposição venezuelana, Maria Corina Machado, mostra Machado discursando para apoiadores em Caracas, em 10 de janeiro de 2025 Foto: Instagram @mariacorinamachado / AFP

Também não está claro se quaisquer remanescentes do regime — unidades do exército, os coletivos (milícias armadas que também atuam como organizações comunitárias) e agentes de segurança do Estado — sem mencionar grupos criminosos e insurgentes colombianos que operam na Venezuela, optariam por lutar. Se o fizessem, uma guerra curta poderia se transformar em uma longa contra-insurgência.

Ryan Berg, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um think tank em Washington, vê três cenários: o exército venezuelano abandona Maduro e toma o poder; os Estados Unidos negociam uma transição com ele ou parte de sua camarilha; ou o regime entra em colapso sob a campanha militar americana. Os dois primeiros, diz ele, oferecem estabilidade, mas não muita democracia. O terceiro pode levar a oposição legítima ao poder, mas é mais volátil. Também é bem possível que Trump perca o interesse e siga em frente, talvez depois de declarar sucesso após um ataque superficial.

Em janeiro, Trump postou um meme de si mesmo parecendo um gângster ao lado de uma placa que dizia “FAFO” — abreviação de “Fuck Around and Find Out” (brinque e descubra). Era um aviso à Colômbia, que se recusou (de maneira breve) a receber deportados. Isso também poderia se aplicar a outros lugares. Trump está pronto para descobrir as consequências da intervenção na Venezuela?

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