O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde o início de março, “perdeu” um iate avaliado em mais R$ 2 bilhões logo após sua primeira detenção, e o dinheiro desembolsado pode ficar com o bilionário canadense Patrick Dovigi, idealizador e antigo proprietário da embarcação. A Polícia Federal tenta recuperar R$ 500 milhões em ativos de Vorcaro fora do País, incluindo os pagamentos feitos pelo iate, após autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de maio.
Procurada, a defesa de Vorcaro não se pronunciou até a publicação desta reportagem.
O destino do iate veio a público após o jornal britânico Financial Times reportar a disputa em torno da comissão a ser paga a uma corretora de iates de luxo, a Cecil Wright & Partners, que acabou na Suprema Corte de Londres.
É uma história de idas e vindas. Em outubro de 2024, o family office de Nik Storonsky, fundador da fintech bilionária Revolut, contratou a Cecil Wright para desenhar e construir um iate totalmente personalizado. Como Storonsky tinha pressa, a corretora identificou, no ano seguinte, que o megaiate Nixie estava sendo finalizado pelo estaleiro alemão Lürssen e poderia interessá-lo.
Era a embarcação em construção que Vorcaro havia comprado em 2024 e, com a perspectiva de crise do Master, tentava vender. Vorcaro pedia aos compradores € 350 milhões. Storonsky chegou a visitar o estaleiro na Alemanha e ofereceu € 300 milhões.
O negócio, porém, não chegou a ser fechado. Com a prisão de Vorcaro, em novembro daquele ano, o iate voltou ao antigo dono: o empresário canadense e ex-jogador de hockey Patrick Dovigi. Sem que os pagamentos pelo barco fossem feitos, Dovigi ativou cláusulas contratuais para reaver a embarcação e assumir o controle da venda.
Ao saber que o iate tinha voltado a Dovigi, a equipe de Storonsky ignorou a corretora que havia apresentado o negócio, sem pagar a comissão de 5% sobre a transação (cerca de R$ 100 milhões). Conforme a acusação protocolada em Londres, Storonsky e Dovigi negociaram diretamente via WhatsApp e empresas offshore para fechar a venda, em janeiro de 2026.
Embora o teor exato dos documentos na Suprema Corte de Londres esteja sob sigilo comercial protetivo, o mercado náutico internacional costuma acionar três cláusulas principais, em casos como o de Vorcaro: inadimplemento financeiro, proteção e retrocesso e idoneidade e moralidade.
Em caso de falência, insolvência ou incapacidade severa do comprador (no caso, Vorcaro) de finalizar o projeto do barco, a cláusula de proteção e retrocesso permite que o vendedor original assuma o controle do contrato de construção junto ao estaleiro Lürssen, para evitar que a obra seja paralisada ou confiscada judicialmente.
Já o envolvimento de Vorcaro em escândalos criminais de grande proporção pode ativar cláusulas de rescisão por danos à imagem corporativa do projeto. Isso dá direito à retenção total dos valores aportados anteriormente a título de multa compensatória por quebra contratual.
O mercado náutico de alto luxo funciona de maneira similar ao da aviação: os bens são construídos sob encomenda e os pagamentos são feitos antes de cada fase de execução da embarcação. O setor, por conta das características próprias, é bastante protegido em termos contratuais, já que a maioria dos compradores pertence a países e obedecem a legislações diversas de onde estão os estaleiros.
Não há informações oficiais, porém, se será possível reaver os recursos pagos. A PF tem firmado acordos de cooperação jurídica internacional com o Ministério da Justiça, o FBI (dos Estados Unidos) e autoridades da Alemanha.
Os investigadores da PF formalizaram um pedido específico de cooperação com o governo alemão focado no estaleiro Lürssen. Eles buscam auditar os pagamentos das primeiras parcelas do iate Nixie para descobrir se Vorcaro usou recursos desviados das fraudes do Banco Master para custear a obra.
Para impedir que o dinheiro desapareça em outras jurisdições, a PF incluiu o nome do ex-banqueiro na “Silver Notice” (Difusão Prateada) da Interpol. Essa ferramenta mapeia propriedades, aeronaves e contas bancárias ligadas a ele em 196 países.
Iate Nixie está entre os mais caros e exclusivos do mundo
O iate Nixie, que havia sido comprado por Vorcaro, está entre os mais caros e exclusivos do mundo. Fabricado pelo estaleiro alemão Lürssen, ele combina dimensões massivas, engenharia de ponta e instalações de altíssimo luxo. Tem 334 pés (102 metros) de comprimento, 10 cabines para convidados e precisa de 34 tripulantes para navegar.
Tem ainda uma piscina de 25 pés (7,6 metros) com fundo de vidro. A popa foi transformada num beach club: dois grandes terraços marítimos retráteis no nível da água se transformam num espaço luxuoso que conecta os passageiros ao mar. A garagem é repleta de brinquedos náuticos, como jetskies, caiaques, equipamentos de mergulho e seabobs (propulsor que permite locomoção acima e abaixo da água). Também tem sofás, espreguiçadeiras e área de alimentação.
Além disso, o complexo de saúde tem academia, câmara de crioterapia (usada por atletas de elite para recuperação muscular), spa e sauna. Há ainda salas de cinema interna e externa, salão de beleza e uma grelha japonesa. E, claro, heliponto. No mercado de aluguel de temporada, ele figura como uma das opções mais caras do mundo, cobrando a partir de € 2,4 milhões por semana (R$ 14,2 milhões).
Justiça dos EUA pede dados de negócios entre plataforma de cripto e grupo do Master
Em outro movimento ligado aos bens desviados pelo ex-controlador do Banco Master no exterior, a Justiça dos Estados Unidos determinou, na noite de terça-feira, 4, que a One World Services LLC forneça todas as informações de transações feitas com Vorcaro e o grupo de pessoas e empresas arroladas no processo impetrado pelo liquidante do Master. A One World tem como principal atividade a negociação de criptomoedas.
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