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Mercado em 5 minutos

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
04/09/2025
no Capa, Economia
Tempo de leitura:9 minutos de leitura
15
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Enquanto o Fed ensaia corte e Trump briga por tarifas, o Brasil procura pela pacificação

A quinta-feira começa novamente sob a influência do mercado de trabalho americano. Hoje será divulgado o relatório ADP sobre vagas no setor privado, que deve complementar os sinais já trazidos pela Pesquisa de Vagas de Emprego e Rotatividade de Mão de Obra (JOLTS). O dado divulgado ontem reforçou as apostas em cortes de juros por parte do Federal Reserve, em um movimento que mantém o foco dos investidores no payroll de sexta-feira — o grande evento da semana lá fora, sobretudo após as revisões negativas para maio e junho. Além disso, a agenda norte-americana inclui índices PMI, pedidos semanais de auxílio-desemprego, balança comercial e dados de serviços, enquanto no Brasil o olhar se volta para o julgamento no STF e para as discussões em torno do projeto de anistia. No front dos mercados, os rendimentos dos Treasuries recuaram após a tensão recente, o que trouxe algum alívio às ações.

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Na China, o movimento de valorização das ações já soma cerca de US$ 1,2 trilhão desde agosto e tem despertado preocupações crescentes entre reguladores. A lembrança do colapso de 2015 segue viva, e as autoridades discutem medidas para conter o excesso de euforia, que vão desde a flexibilização das restrições às vendas a descoberto até limitações sobre operações mais especulativas. O índice de Xangai atingiu o maior patamar da década, enquanto o CSI 300 acumula alta superior a 20% em relação às mínimas recentes. Ainda assim, o risco central é que o varejo, animado por crédito fácil e pela promessa de ganhos rápidos, acabe inflando uma bolha.

No cenário externo mais amplo, comentários de dirigentes do Fed em tom dovish ajudaram a sustentar ganhos em parte da Ásia e também na Europa, com o Stoxx 600 em alta, ainda que tensões geopolíticas permaneçam no radar, com líderes europeus discutindo com Volodymyr Zelenskiy a possibilidade de nova ofensiva russa em Donetsk. Já nos EUA, Donald Trump levou à Suprema Corte recurso para tentar preservar suas tarifas, aumentando a incerteza política e comercial. Entre os ativos, o dólar manteve-se estável, o ouro recuou após recentes recordes e o petróleo seguiu em correção, pressionado por temores de que a OPEP+ aumente a oferta.

Tentativa de pacificação

No Brasil, os mercados locais continuam refletindo o humor externo, mas, neste início de mês, o componente político voltou a ganhar protagonismo. O Ibovespa emendou ontem a terceira queda consecutiva, pressionado tanto pela baixa nos preços internacionais do petróleo quanto pelo aumento das preocupações de investidores com a possibilidade de novas sanções vindas dos Estados Unidos. Em Brasília, a cena política segue dominada pelo julgamento de Jair Bolsonaro no STF e pelas articulações em torno de um projeto de anistia. A oposição parte do pressuposto de que o ex-presidente será condenado. Setores do Centrão enxergam na situação uma oportunidade de barganha: condicionam seu apoio a uma anistia mais abrangente a uma eventual candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em 2026. 

Tarcísio, por sua vez, busca interlocução com ministros do Supremo para moldar uma proposta que não seja declarada inconstitucional. A posição da Suprema Corte, contudo, tende a admitir apenas uma versão mais restrita — excluindo Bolsonaro e os réus em julgamento —, enquanto no Senado, o presidente Davi Alcolumbre já adiantou que não pretende levar a plenário um perdão total. Em vez disso, defende um projeto mais leve, limitado à redução de penas para condenados pelos atos de 8 de janeiro, ainda que alguns ministros resistam até mesmo a essa alternativa. Nesse desenho, Bolsonaro permaneceria inelegível, mas se abriria espaço para algum grau de acomodação política; em um segundo momento, um eventual governo Tarcísio poderia recorrer ao instrumento do indulto para aliviar a situação do ex-presidente, hipótese que circula entre lideranças do Centrão e encontra algum tímido eco no Judiciário.

No plano internacional, a tensão política doméstica conecta-se diretamente ao risco de sanções externas. Em Washington, o vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, recebeu representantes da CNI, em uma reunião sem avanços concretos: a autoridade teria reiterado que a questão não é puramente comercial, mas essencialmente política, descartando qualquer redução de tarifas no curto prazo. De forma paralela, em Pequim, o presidente russo Vladimir Putin reforçou a mesma interpretação ao afirmar que, embora os EUA mantenham disputas comerciais com China e Índia, o caso brasileiro é distinto por estar diretamente atrelado a Bolsonaro.

Assim, a saída para o impasse com Washington passa inevitavelmente pelo desfecho do julgamento no STF, pelo destino do projeto de anistia e, em última instância, pelas eleições presidenciais de 2026. Até lá, notícias sobre abertura de novos mercados seguem no radar, com destaque para o acordo Mercosul-UE, cuja conclusão ainda este ano voltou à mesa de negociações após uma nova proposta apresentada pelo bloco europeu — ainda que persistam resistências políticas em alguns países do continente.

Sinais para o corte

O pregão americano de ontem foi marcado por forte influência da decisão judicial envolvendo a Alphabet. Como já comentei, um juiz federal reconheceu que a companhia manteve práticas que configuraram monopólio ilegal no segmento de buscas, mas rejeitou a proposta que previa um desmembramento forçado — como a venda do navegador Chrome ou do sistema Android —, considerando a medida desproporcional. Em vez disso, a sentença estabeleceu que o Google não poderá mais firmar contratos de exclusividade, como os mantidos com a Apple, e deverá compartilhar parte dos dados que utiliza para definir resultados de busca. A decisão foi interpretada pelo mercado como uma vitória parcial para a empresa: ao mesmo tempo em que impõe restrições relevantes, preserva a espinha dorsal de seu modelo de negócios. O alívio se traduziu em números expressivos: as ações da Alphabet dispararam 9,1%, puxando o Nasdaq para uma alta de 1% e o S&P 500 para 0,5%, enquanto o Dow Jones — que não inclui a companhia em sua composição — recuou 0,1%. A Apple também foi beneficiada, avançando 3,8%, já que seguirá recebendo pagamentos bilionários do Google para manter seu buscador como padrão.

Apesar do otimismo pontual com o setor de tecnologia, o ambiente macroeconômico segue carregado de incertezas e atuou como contrapeso no mercado. O governo Trump mantém a ofensiva jurídica na Suprema Corte para tentar reverter a decisão que considerou ilegais a maior parte de suas tarifas, movimento que ameaça reduzir em quase 70% a arrecadação tarifária projetada para 2026 — um risco relevante para a dinâmica fiscal americana. Do lado dos dados econômicos, os sinais de enfraquecimento no mercado de trabalho se intensificaram: o relatório JOLTS indicou queda no número de vagas abertas para 7,18 milhões em julho, o menor patamar em dez meses, com recuo concentrado justamente em setores que vinham sustentando a criação de empregos, como saúde e lazer. O Livro Bege do Fed reforçou a leitura de fragilidade, apontando que os salários não têm acompanhado a alta dos preços e que as tarifas já estão pressionando os custos de insumos em diversos distritos. Embora preocupante do ponto de vista da atividade real, esse conjunto de informações reforça a percepção de que há espaço para cortes de juros ainda neste mês, em linha com a estratégia do Fed de calibrar sua política diante da desaceleração econômica.

Pressão sobre o Fed

O Senado dos Estados Unidos se prepara para avaliar a indicação de Stephen Miran ao Conselho de Governadores do Federal Reserve (Fed), nomeado por Donald Trump após a renúncia de Adriana Kugler em agosto. A audiência de confirmação, agendada para hoje, deve girar em torno de dois pontos centrais: a preservação da independência da autoridade monetária e as propostas de Miran para uma eventual reestruturação do banco central. Em depoimento escrito divulgado antes da sessão, Miran destacou que a autonomia da política monetária é um pilar essencial para o Fed e assegurou que pretende defender essa independência. Ainda assim, sua proximidade com a Casa Branca alimenta dúvidas sobre até que ponto estaria disposto a resistir às pressões do Executivo por cortes mais agressivos de juros.

O processo ocorre em um ambiente político carregado. Trump tem buscado ampliar sua influência sobre o Fed, tentando destituir a governadora Lisa Cook sob a acusação de fraude hipotecária — movimento que, se bem-sucedido, abriria espaço para consolidar uma maioria de aliados dentro do colegiado. Cook, por sua vez, entrou com ação judicial para barrar a medida, e um juiz federal avalia se emitirá uma ordem de restrição temporária que a mantenha no cargo enquanto o caso tramita. Os democratas devem se opor de forma contundente à indicação de Miran, argumentando que a estratégia representa uma ameaça direta à independência do banco central. O desfecho, portanto, dependerá da coesão dos republicanos no Comitê Bancário do Senado: um apoio unificado pode garantir a aprovação da nomeação, mesmo diante da resistência da oposição. Assim, Miran já poderia votar na reunião de setembro…

Perdendo todo o trabalho até aqui

As tarifas impostas por Donald Trump voltaram ao centro das atenções após um tribunal federal de apelações considerar ilegal o uso de poderes de emergência para estabelecer cobranças amplas sobre importações. As tarifas permanecem válidas até pelo menos 14 de outubro, enquanto o governo recorreu à Suprema Corte. Nesse intervalo, a Casa Branca pode acelerar o uso de outros mecanismos legais, como as conhecidas investigações comerciais pela Seção 301, já em curso contra países como o Brasil, para manter ou reconfigurar as medidas tarifárias. Não é um caminho trivial.

O impasse gera incertezas significativas para o comércio global e para a arrecadação americana. As tarifas têm garantido fluxo importante de receita ao Tesouro, mas sua legalidade fragilizada coloca em dúvida a sustentabilidade dessa fonte de recursos, ao mesmo tempo em que pressiona acordos comerciais recentes. Sem uma decisão acelerada da Suprema Corte, o julgamento definitivo pode se arrastar até 2026. Trump, por sua vez, ameaça rever pactos com parceiros estratégicos como União Europeia, Japão e Coreia do Sul caso suas tarifas sejam derrubadas, ampliando o risco de turbulência nas relações comerciais internacionais. Teremos mais ruídos pela frente…

Impasse

A França caminha para um novo período de instabilidade política com a provável queda do governo de François Bayrou, cujo voto de confiança está marcado para 8 de setembro. Caso seja derrotado, o presidente Macron terá diante de si duas alternativas: indicar um novo primeiro-ministro — que seria o quinto em apenas 21 meses — ou convocar eleições legislativas antecipadas. As pesquisas, entretanto, sugerem que mesmo um novo pleito dificilmente alteraria de forma substancial o equilíbrio de forças, mantendo o partido de direita União Nacional (RN) na liderança do cenário político.

No campo fiscal, o debate aberto por Bayrou colocou a necessidade de ajuste no centro da agenda nacional. Tanto as propostas do Partido Socialista quanto os sinais emitidos pelo próprio RN convergem com as exigências de consolidação fiscal da União Europeia, reforçando que qualquer futuro governo, independentemente de sua coloração política, terá de enfrentar esse desafio. Paralelamente, o RN, comandado por Marine Le Pen e Jordan Bardella, intensifica a pressão por eleições antecipadas. Com maioria de cadeiras na Assembleia Nacional e liderança nas pesquisas, o partido deixou explícito seu objetivo de derrubar o governo. Diante desse impasse, a leitura predominante é de que novas eleições legislativas podem se tornar inevitáveis.

A principal infraestrutura do mercado

No campo fiscal, o debate aberto por Bayrou colocou a necessidade de ajuste no centro da agenda nacional. Tanto as propostas do Partido Socialista quanto os sinais emitidos pelo próprio RN convergem com as exigências de consolidação fiscal da União Europeia, reforçando que qualquer futuro governo, independentemente de sua coloração política, terá de enfrentar esse desafio. Paralelamente, o RN, comandado por Marine Le Pen e Jordan Bardella, intensifica a pressão por eleições antecipadas. Com maioria de cadeiras na Assembleia Nacional e liderança nas pesquisas, o partido deixou explícito seu objetivo de derrubar o governo. Diante desse impasse, a leitura predominante é de que novas eleições legislativas podem se tornar inevitáveis.

Por Matheus Spiess

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