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Lula e Moraes elevaram o tom e irritaram a Casa Branca

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
20/07/2025
no Brasil
Tempo de leitura:7 minutos de leitura
15
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Críticas inviabilizam tentar adiar vigência do tarifaço de 50% em 1º de agosto; petista voltou a repetir que Trump poderia ter sido preso no Brasil e magistrado tratou Estados Unidos como “inimigos estrangeiros”

A semana passada teve duas manifestações de autoridades brasileiras que produziram um grau de irritação um pouco maior na Casa Branca. O resultado é que possivelmente não terá sucesso a negociação para adiar a entrada em vigor da tarifa de importação de 50% dos Estados Unidos sobre todos os produtos brasileiros a partir de 1º de agosto de 2025.

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Primeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repetiu uma analogia que sempre faz sobre o presidente dos EUA, Donald Trump (republicano), poder ser preso se fosse julgado pela Justiça brasileira. O petista vocalizou essa opinião num discurso durante uma reunião de estudantes. Segundo, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes sugeriu em um despacho (PDF – 5,4 MB) que os EUA são “inimigos estrangeiros”. Moraes usou a expressão na decisão em que determinou que Jair Bolsonaro (PL) passasse a usar tornozeleira eletrônica.

Eis o que disse Lula a estudantes no Congresso da UNE em 17 de julho de 2025, em Goiânia:

“Se o Trump morasse no Brasil e ele tentasse fazer aqui o que ele fez no Capitólio, certamente ele também seria julgado e poderia ser preso”.

Essa não foi a 1ª vez que Lula fez uma declaração dessa natureza sobre Trump poder ser preso no Brasil. Em 10 de julho, no dia seguinte ao anúncio do tarifaço, o petista falou à TV Record e disse o seguinte: “Eles têm que respeitar a Justiça brasileira, como eu respeito a americana. Se o que Trump fez no Capitólio ele tivesse feito aqui no Brasil, ele estaria sendo processado como Bolsonaro e arriscava a ser preso, porque feriu a democracia, feriu a Constituição. E eu não me meto no Poder Judiciário porque o Poder Judiciário é autônomo. Aqui no Brasil, quem estabelece as regras é o Brasil”.

Eis a afirmação de Moraes em despacho sobre Bolsonaro em 18 de julho (as letras maiúsculas estão dessa forma no despacho do ministro): 

“É um PRINCÍPIO INFLEXÍVEL da Constituição brasileira a independência do Poder Judiciário em defesa da Constituição brasileira, e a história desse [sic] SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL demonstra que jamais faltou coragem aos seus membros para repudiar as agressões contra os inimigos da Soberania nacional, Democracia e Estado de Direito, sejam inimigos nacionais, sejam inimigos estrangeiros. Um país soberano como o Brasil sempre saberá defender a sua Democracia e Soberania e o Poder Judiciário não permitira qualquer tentativa de submeter o funcionamento do Supremo Tribunal Federal ao crivo de outro Estado, por meio de atos hostis derivados de negociações espúrias e criminosas de políticos brasileiros com Estado estrangeiro”.

Os Estados Unidos são historicamente um país amigo do Brasil e um de seus maiores parceiros econômicos e comerciais. No seu despacho, Moraes não fala diretamente sobre os EUA. Refere-se à atividade de integrantes da família Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas criticando o que consideram ilegalidades no processo judicial brasileiro. A Casa Branca interpretou que o magistrado do STF classificou o governo dos Estados Unidos como um dos “inimigos estrangeiros” contra os quais a Corte deve agir. 

A decisão de Moraes de restringir a liberdade de Jair Bolsonaro –impondo o uso de tornozeleira, proibição do uso de redes sociais, de falar com o filho Eduardo e de circular à noite– foi considerada autoritária pela Casa Branca, segundo o Poder360 apurou em Washington. 

No caso da declaração de Lula, o Poder360 ouviu uma analogia reversa de integrantes do governo Trump. O presidente dos EUA poderia responder assim, se dependesse de parte da sua assessoria direta: “Se Lula estivesse submetido à Justiça dos Estados Unidos e tivesse enfrentado em solo americano o processo da Lava Jato, com provas materiais, dinheiro apreendido, confissão de várias empresas e devolução de bilhões de reais, certamente ainda estaria condenado e preso até hoje, sem condições de se candidatar a presidente do Brasil”. 

Lula foi condenado por 3 Instâncias da Justiça do Brasil e passou 580 dias preso –saiu da cadeia em 8 de novembro de 2019. Depois, seu processo foi anulado pelo Supremo Tribunal Federal. O petista nunca foi absolvido. O STF apenas considerou –em uma decisão controversa e contestada no Brasil e no exterior– que o então juiz federal Sergio Moro não tinha a competência jurisdicional para ter comandado o processo. As ações teriam de recomeçar do zero, em outras Instâncias. Por causa da idade de Lula (hoje com 79 anos) e da lentidão da Justiça brasileira, nada prosperou. O atual presidente da República não será mais admoestado por acusações da hoje enterrada Lava Jato.

CLIMA EM WASHINGTON

Logo depois de Donald Trump anunciar o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, em 9 de julho de 2025, houve um início de mobilização do setor privado nos EUA e no Brasil. Empresas afetadas pela medida começaram a traçar uma estratégia para demonstrar à Casa Branca que seria do mútuo interesse dos 2 países, pelo menos, adiar por até 90 dias a entrada em vigor da tarifa –cuja vigência, por enquanto, começa em 1º de agosto.

Houve progressos tímidos nessa movimentação empresarial. Tudo acabou retrocedendo na semana passada por causa da escalada de declarações e atitudes beligerantes do governo Lula e também por causa das medidas impostas por Moraes contra Bolsonaro.

O clima dentro do governo norte-americano hoje impede que qualquer funcionário minimamente relevante na Casa Branca tenha condições de propor a Donald Trump alguma trégua com o Brasil. O presidente dos EUA tem um estilo conhecido. Quando algum adversário eleva o tom nas respostas, Trump também responde aumentando a beligerância em suas declarações e atitudes.

Diferentemente do Brasil, a estratégia de negociação de alguns países até agora foi quase ignorar as eventuais ofensas e críticas que recebem de Trump. Foi assim com os casos do México, Canadá e França –liderados por políticos de centro-esquerda ou de esquerda. Os chefes dos Executivos desses 3 países sempre procuraram responder à Casa Branca com pragmatismo e buscando soluções práticas –sem apelar exclusivamente para o discurso patriótico e nacionalista, que rende dividendos eleitorais, mas nenhum resultado efetivo nas relações comerciais.

No caso brasileiro, há um componente extra no contencioso. Trump deu grande ênfase ao que considera uma “caça às bruxas” no processo contra Jair Bolsonaro no STF. Defendeu que esse julgamento seja interrompido “IMEDIATAMENTE”, como escreveu com letras maiúsculas em sua carta de 9 de julho (PDF – 225 kB).

Esse componente político acrescentado por Trump agrega complexidade à possível negociação entre os 2 países. Até agora, o Brasil –o governo e o STF– optaram pelo discurso da soberania e do patriotismo. 

No campo das negociações comerciais, Lula escalou seu vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB). Alckmin é também titular do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). Ele ocupa esse cargo apenas porque Lula não conseguiu convencer um empresário de peso no início do mandato para comandar a área. 

Alckmin tem pouca liderança na área. É completamente desconhecido em Washington. A diplomacia brasileira tampouco nunca conseguiu em 6 meses do governo Trump estabelecer relações sólidas com a administração do republicano. Parte dos diplomatas brasileiros em Washington estava em férias neste mês, durante o impasse das tarifas.

Lula nunca deu prioridade à relação com Trump desde a posse do republicano. Em 2024, classificou o então candidato Trump como representante de um “nazismo e fascismo com outra cara”. Decidiu apoiar publicamente a democrata Kamala Harris.

O presidente brasileiro até hoje nunca se interessou em falar com o norte-americano (que já conversou com 34 líderes internacionais, a maioria de esquerda ou de centro-esquerda). O petista disse que não teria assunto e teria de ficar contando piadas.

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, já afirmou em público que nunca conseguiu conversar com o chefe do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio. Em 28 de maio de 2025, falando a deputados, Vieira afirmou que conheceu Rubio na época em que foi embaixador do Brasil nos EUA, de 2010 a 2015. “Eu não tive, depois disso, contato com ele. Ele não me respondeu e não me chamou”, declarou o ministro. Na semana passada, Vieira passou alguns dias na Croácia e na Irlanda.

A embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, interrompeu suas férias na semana passada. E tenta estabelecer contatos mais efetivos com o Departamento de Estado.

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