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‘Ficará mais fácil para a China alcançar os EUA’, diz economista chinês que assessorou o governo

Samuel Azevedo por Samuel Azevedo
14/06/2025
no Mundo
Tempo de leitura:11 minutos de leitura
15
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Em 1979, o capitão do Exército taiwanês Lin Zhengyi tomou uma decisão cercada de riscos: desertou de sua posição na ilha de Kinmen e atravessou a nado um trecho de 2 km do estreito de Taiwan para começar uma vida nova na China continental. Hoje com 72 anos, ele não parece ter dúvidas de que fez a aposta certa. A China virou potência global e Justin Yifu Lin, como passou a ser chamado, é um dos economistas mais renomados do país. Assessorou o governo, foi economista-chefe do Banco Mundial (2008-2012) e hoje é reitor do Instituto de Nova Economia Estruturalista, disciplina criada por ele.

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Em entrevista ao GLOBO em seu escritório, na parte mais bucólica da Universidade de Pequim, Lin explicou porque mantém-se otimista sobre a economia chinesa, afirmou que o país está mais forte para enfrentar a guerra tarifária iniciada pelos EUA e citou o ex-presidente americano John Kennedy ao justificar sua dramática fuga de Taiwan, 46 anos atrás: “Pergunte não o que o país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo país”.

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Há uma dissonância nas percepções sobre a economia chinesa: analistas do exterior são céticos sobre a retomada, assim como muitos chineses comuns. Mas o governo de Pequim insiste que o quadro é positivo. A situação o preocupa?

Não é fácil entender a economia chinesa. Há muitos problemas, e se você só olhar para eles certamente cairá em teses pessimistas, como o “colapso iminente” da China. O país tem muitos desafios, mas a resiliência se mantém. Desde 2008, a China contribui continuamente com cerca de 30% do crescimento econômico global. Crescimento econômico depende de aumento produtividade, inovação tecnológica e o surgimento de novos setores com valor agregado. Por isso estou confiante.

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A meta de crescimento oficial da China para este ano, de 5% do PIB, é totalmente viável, apesar das tensões comerciais com os EUA. Isso porque o país tem um enorme escopo para avanço tecnológico e desenvolvimento industrial. Atualmente o PIB per capita da China está em torno de US$ 14 mil, 25% do americano.

É uma proporção equivalente à da Alemanha no meio da década de 1940, do Japão nos anos 1950 e da Coréia do Sul nos anos 1980. Esses países foram capazes de crescer 8% ou 9% por mais de uma década.

A China tem outra vantagem: a “quarta revolução industrial”, que inclui inovação, inteligência artificial e big data. Essa corrida é nova para todo mundo, mas a China está adiante em algumas frentes. Primeiro, o capital humano. Temos uma população de 1,4 bilhão, formamos cerca de 7 milhões de estudantes por ano, metade em ciência, matemática e engenharia. É mais do que todos os países desenvolvidos somados.

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Segundo, um grande mercado doméstico, capaz de absorver inovações e torná-las competitivas. Terceiro, a China tem a mais completa cadeia de suprimentos, o que permite que qualquer inovação tenha os componentes necessários para virar produto. A quarta vantagem é a política industrial ativa do governo para apoiar a inovação. Somando tudo, a China tem um potencial de crescimento de 8% do PIB per capita nas próximas décadas.

Um dos principais desafios do governo tem sido estimular a confiança. Se o potencial é tão promissor, porque isso não se reflete na confiança do consumidor e do investidor?

É preciso diferenciar entre os desafios de curto e longo prazo. Na minha visão, a maioria dos desafios, especialmente no setor privado, são passageiros. A China é o maior país exportador. Mas desde 2008 o comércio global começou a desacelerar e nunca se recuperou. Antes de 2008 o PIB global crescia 4,5% e o ritmo do crescimento do comércio era duas vezes maior. Hoje o comércio cresce 3%, até menos. Quem sofreu mais foi a China, por ser o maior exportador.

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Entre 2001, quando a China entrou na OMC, em 2007, o ritmo de crescimento do comércio foi de mais de 22% ao ano. E 97% dessas exportações vêm do setor privado. O alto nível de expectativa gerou muito investimento com base em projeções de crescimento que não se cumpriram. Isso cria pessimismo.

O comércio não irá se recuperar, ainda mais agora, diante das tensões comerciais com os EUA. Mas a demanda ainda existe. Com inovação tecnológica é possível reduzir os custos e aumentar as exportações. Igualmente importante: novos setores emergirão. Como eu disse, na quarta revolução industrial nós temos as vantagens. Para recuperar a confiança é preciso afastar percepções equivocadas, como a de que a China seguirá o caminho do Japão e cairá na estagnação.

Em 1980 o PIB do Japão era 65% do PIB dos EUA. Hoje é 20%. O Japão sofreu uma lavagem cerebral do neoliberalismo e abriu mão da política industrial. A China está em outro estágio de desenvolvimento e continuará a usar política industrial para apoiar novos setores. Veja o caso dos veículos elétricos, dos painéis solares, baterias elétricas, setores que estão explodindo.

A guerra comercial com os EUA é um desafio passageiro ou de longo prazo?

Fomos educados pelos ensinamentos e pelas teorias dos EUA. Portanto, nunca imaginávamos que os EUA iriam usar o comércio como uma arma. Isso irá ferir não apenas os parceiros comerciais, mas sobretudo os próprios EUA. A primeira eleição de Trump (Donald Trump, atual presidente americano) foi uma surpresa e não estávamos preparados.

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Desta vez ele está mais agressivo, mas ainda assim esperamos que seja uma política temporária. A China hoje está melhor posicionada para negociar e se defender. Nossa economia é quase tão grande quanto a americana, temos capacidade de retaliação. Seremos feridos, mas também podemos ferir.

O governo Trump parece querer um ‘desacoplamento’ econômico com a China. Acha isso possível?

Tudo é possível. Mas que fique bem claro, se os EUA querem desacoplar, eles têm muito a perder. Significa que eles terão que reconstruir os setores da economia responsáveis pelos produtos importados que lhes dão vantagens comparativas. Se decidirem desacoplar, há duas alternativas: produção doméstica ou importação.

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Ambas vão encarecer o produto final. Mas Trump não quer importar de outros países, ele quer reconstruir a indústria nos EUA. Isso sairá ainda mais caro e baixará o nível de produtividade do país. Ficará mais fácil para a China alcançar os EUA. Não acho que a política de descolamento seja permanente, mas se for, boa sorte. A China sairá vitoriosa.

Além do déficit comercial dos EUA com a China, o que o governo americano alega para o tarifaço é que Pequim tem práticas desleais. Faz sentido?

É só uma desculpa. No processo de desenvolvimento industrial, todo país precisa de apoio. Se olharmos os setores em que os EUA hoje são dominantes no mundo, sempre houve no estágio inicial o apoio do governo em pesquisa básica.

Mesmo para países que chegaram com atraso, como o Brasil e a China, é preciso incentivo do governo para melhorar as instituições, a infraestrutura, reduzir o custo das transações para que os produtos se tornem competitivos. Então eu não vejo o governo chinês fazendo algo tão diferente do que faz o americano ou qualquer outro governo.

Sua proposta da “nova economia estruturalista” afirma que todo país pode encontrar o caminho para o desenvolvimento se apoiar os setores em que tem vantagens comparativas. Como isso pode ser feito por países que perderam o bonde da inovação tecnológica?

É uma grande questão. Precisamos de um novo arcabouço intelectual. Por isso eu propus a nova economia estruturalista. Sabemos que o desenvolvimento econômico é um processo de transformação estrutural por meio de inovação tecnológica. Assim os trabalhadores podem produzir mais e melhor, e também entrar em novas indústrias, com maior produtividade e valor agregado. Como fazer isso? Focar nos setores onde há vantagens comparativas.

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As ideias neoliberais pregavam que o governo não deve intervir. Como resultado, os antigos setores industriais ficaram desprotegidos e entraram em colapso. E, sem a facilitação do Estado, novos setores nunca emergiram. Na América Latina isso levou a uma desindustrialização prematura. As antigas indústrias morreram e as novas não nasceram, porque vocês foram guiados por ideias equivocadas.

É preciso ter como alvo os setores certos, onde há vantagens comparativas, e transformá-las em vantagens competitivas. O problema do pensamento desenvolvimentista atual é sempre olhar para outros países como referência. Minha proposta é que cada país busque suas próprias vantagens competitivas.

Como vê as críticas de que o governo chinês deveria ser mais ousado nas medidas de estímulo à economia para, por exemplo, aumentar o consumo doméstico?

Na estratégia de longo prazo, acho que a China está fazendo a coisa certa. Temos um crescimento movido por investimento. É preciso manter a produtividade em alta, o que exige investimentos em inovação tecnológica nos setores principais da economia. Para ser sustentável, o crescimento é sempre movido por investimento. Não há crescimento movido por consumo. Pode ser que o consumo conduza ao crescimento por alguns anos, mas o resultado pode acabar sendo o aumento da dívida e crise.

O aumento do consumo na China tem sido de 8% por ano em média por mais de 40 anos. É a taxa mais alta de crescimento do consumo do mundo. O que há de errado nisso?

— .

Mesmo que o consumo seja baixo em relação ao PIB, o que importa é o aumento como um todo. Mas, agora que há um choque nas exportações, deve haver ajuda a certos setores para que atravessem esse período. E também ajuda às famílias. Num momento de excesso de capacidade causada pela queda nas exportações pode haver perda de empregos, o que torna necessário tomar medidas temporárias de apoio ao consumo

O envelhecimento da população tem sido apontado como um dos principais obstáculos para que a China continue crescendo a longo prazo. Isso preocupa?

Todos os países de alta renda enfrentam o envelhecimento da população, mas isso não significa necessariamente estagnação. Por exemplo, a Suécia foi o primeiro país com esse desafio. Em 1960, 14% de sua população estava acima de 65 anos. Mas o crescimento da Suécia manteve-se estável. No Japão, o crescimento per capita caiu para menos de 1%, mas não por causa do envelhecimento, e sim porque o país perdeu a capacidade de inovação tecnológica.

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Depois dos anos 1980 você consegue pensar em alguma nova tecnologia vinda do Japão? Não. Antes disso eles estavam na fronteira tecnológica global. Naquela época os semicondutores já eram a indústria de ponta no mundo e eles eram líderes globais no setor. Mas aí, sob pressão dos EUA, eles desistiram do setor.

Em 1979, quando o senhor fugiu de Taiwan, a China estava apenas iniciando sua abertura. Esperava que o país se tornaria a potência atual?

É como Kennedy disse em sua posse: “pergunte não o que o país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo país”. Acho que isso deveria ser um lema universal para a elite de qualquer país. Eu sou uma pessoa de sorte. Comparado com gerações anteriores, eles tinham a mesma aspiração e sacrificaram muito mais do que eu. Infelizmente, naquela época a China estava em decadência.

Mas eu tive sorte de cumprir minha missão e ver a ascensão do país. A reunificação (com Taiwan) será o resultado final, isso com certeza. E o fundamento será a economia. Mas temos 5 mil anos de sabedoria. E de paciência.

O senhor ainda pratica natação?

Já não mais. Estou ficando velho (risos).

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