O vereador petista de São Paulo Senival Moura foi preso preventivamente na manhã desta quarta-feira, 28, por suspeita de envolvimento na gestão financeira da Transunião, empresa de ônibus investigada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil por supostamente ser utilizada em um esquema de lavagem de dinheiro e infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte coletivo da capital paulista.
Esta é a segunda vez que Senival é preso no âmbito da Operação Última Parada. O parlamentar foi detido pela primeira vez em 25 de junho e solto em 5 de agosto. Após passar 40 dias preso na carceragem do 8.º Distrito Policial, no Brás, o vereador usou a tribuna do Plenário 1.º de Maio para rebater a investigação e afirmou que foi “pintado como o demônio”.
Nesta quarta, a defesa do vereador manifestou “sua discordância quanto à decisão judicial que decretou sua prisão preventiva em 20 de outubro de 2026, por entender que a medida extrema não encontra fundamentação concreta suficiente para justificar a privação de sua liberdade”.
Os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) sustentam que os elementos reunidos na investigação apontam Senival como uma das figuras centrais do núcleo de comando da Transunião. Embora não ocupasse formalmente um cargo de direção na companhia, o vereador seria responsável pela gestão financeira da empresa e por decisões sobre seu funcionamento.
A nova ordem de prisão foi expedida pelo juiz Antonio Carlos Martins, da 1.ª Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores.
Na decisão, com base na representação dos promotores, o magistrado destaca indícios de que Senival mantinha o “domínio econômico sobre parcela relevante da frota da Transunião”, controlava valores e utilizava terceiros e familiares como titulares formais de bens.
Para o juiz, esses elementos demonstram risco concreto na manutenção do vereador em liberdade. A posição de comando atribuída a Senival, exercida “à margem da administração formal da empresa”, e o uso de familiares e terceiros para manter ativos em seu nome lhe dariam condições de continuar atuando sobre a estrutura empresarial investigada.
A apuração do Ministério Público aponta que, entre 1.º de janeiro de 2019 e 17 de maio de 2022, Senival teria movimentado R$ 8,6 milhões em créditos e débitos em suas contas bancárias, distribuídos em 3.134 lançamentos. Desse montante, R$ 2,3 milhões corresponderiam a movimentações sem origem declarada.
Licenciado do mandato, Senival já liderou a bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo e tem uma trajetória de quase três décadas ligada ao setor de transportes. Do inquérito sobre o suposto uso da Transunião como plataforma de lavagem de dinheiro do crime organizado surgiram novas provas a respeito da atuação do parlamentar no setor.
Operação Última Parada:
Segundo os investigadores, a análise de duas planilhas apreendidas no inquérito sobre o assassinato do então presidente da empresa, Adauto Soares Jorge, ocorrido em 2020, levou à abertura de uma nova investigação e permitiu identificar os possíveis verdadeiros proprietários de veículos da frota da Transunião.
Um dos ônibus, por exemplo, estava registrado em nome de um suposto laranja, mas aparecia vinculado, na planilha, ao CPF da mulher de Senival, Maria de Lourdes Andrade de Moura. Outro veículo estaria associado ao CPF de Ítalo Andrade de Moura, um dos filhos do vereador.
Na avaliação da Polícia Civil e dos promotores, Senival figura entre os principais beneficiários das contas relacionadas ao núcleo econômico do suposto esquema. Os investigadores identificaram intensa circulação de recursos financeiros entre pessoas físicas e jurídicas ligadas ao entorno familiar e empresarial do parlamentar.
Atualmente, a Transunião está sob intervenção da prefeitura de São Paulo, com a SPTrans assumindo a administração operacional da companhia.
Sete mandados de prisão
Além de Senival Moura, foram presos Lourival de França Monário, Osiel Bernardino Pinto, Jair Ramos de Freitas, Fábio Fernandes de Souza e Devanil Sousa Nascimento.
Leonel Moreira Martins não foi localizado. O Estadão busca contato com todos os citados.
Segundo a investigação, Lourival assumiu formalmente a presidência da Transunião após o assassinato de Adauto Soares Jorge, mas já exercia funções de direção na empresa antes de ocupar o cargo. Osiel Bernardino Pinto participou da constituição da Transunião e ocupou os cargos de diretor-presidente e presidente do Conselho de Administração.
Fábio Fernandes também integrou o Conselho de Administração da empresa e manteve vínculos societários e financeiros com integrantes do núcleo central do suposto esquema. A investigação aponta sua ligação com a organização criminosa dedicada ao tráfico internacional de drogas liderada por Willian Barile Agati, o “concierge do PCC”.
Leonel Martins, o “Cabeça Branca”, é apontado como intermediário entre integrantes do PCC e a Transunião. Segundo os investigadores, ele orientava a redistribuição de receitas da companhia e pagamentos a terceiros, incluindo familiares. Seu nome também aparece em uma carta manuscrita, com características dos chamados “salves” do PCC, apreendida na residência de Jair Ramos de Freitas. No documento, Adauto teria afirmado que cumpria ordens de “Véio” e “Cabeça Branca”, identificados pelo Gaeco como Senival e Leonel, respectivamente.
Devanil é apontado como homem de confiança de Senival e integrante do núcleo operacional do esquema. Ele também responde a uma ação penal pelo homicídio de Adauto Soares Jorge. Segundo a investigação, Devanil dirigia o veículo que levou a vítima ao local da execução, permaneceu no automóvel durante o crime, não prestou socorro após os disparos e deixou o local com a chegada dos policiais.
Com a conclusão do inquérito sobre a Transunião, o Ministério Público ofereceu denúncia à Justiça, que expediu as ordens de prisão preventiva cumpridas nesta quarta.
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