A vitória de Lula acelera a longa crise brasileira. Ela é ao mesmo tempo uma crise de legitimidade do “sistema” e uma crise de estagnação de produtividade e capacidade de crescimento para um País que não consegue há décadas sair da condição de renda média.
Triunfos de fatores circunstanciais são relativamente comuns em regimes nos quais uma grande parcela da população acredita que pode prosperar via gastança do dinheiro público. Incentivado pelo perverso populismo para combater populismo. É bastante óbvio que o Brasil chegou aos limites estruturais, que populistas creem poder dominar no gogó.
Lula é a cara e não a resposta ao patrimonialismo brasileiro, que dificilmente pode ser dividido ou mesmo tratado como “direita” contra “esquerda”. Nossas agremiações políticas existem para garantir a grupos privados a maior proximidade possível dos cofres e da máquina pública, transformadas em ferramentas na defesa de seus interesses regionais, econômicos ou paroquiais.
O que torna essa situação ainda mais difícil é a profunda degradação das instituições, combatendo-se entre si, descontroladas e com a agora descarada corrupção no topo da mais importante delas para o convívio social, que é o Judiciário. Longe de emprestar algum “crédito” a esse formidável aparato de manutenção de privilégios de estamentos burocráticos, a vitória de Lula agrava essa decadência.
Que deve ganhar velocidade rumo ao desconhecido. Seria possível imaginar um caminho “virtuoso” para fora disso se existissem lideranças capazes de organizar um mínimo de “concertación”, que é fazer opostos convergirem para algo como “bem comum”.
Lula não pode, porém, ser visto hoje sem o papel do bolsonarismo, seu mais importante e eficaz cabo eleitoral. Enquanto os Bolsonaros lucraram politicamente sobretudo do antipetismo, que é uma característica de forma alguma “apagada” pelas eleições. Mas a capacidade do bolsonarismo de liderar a “centro direita”, sim.
Jamais saiu desse conglomerado, composto em parte por gente apegada a ideias estúpidas, e comportamento internacional idem, um projeto nacional claramente delineado. Surfaram ondas de insatisfação cujo alcance nunca souberam entender, e cuja falta de sentido estratégico ajudou a que essas ondas se espraiassem divididas entre seus vários componentes, muitos deles antagônicos.
Os Bolsonaros são, em certo sentido, o outro lado da mesma longa agonia. A que levou o País, numa eleição, a não ter boas escolhas.
O medo costuma ser um péssimo conselheiro, e essa foi uma eleição entre dois medos. A vitória de Lula, velho e anacrônico, é a expressão de uma característica central de um País sempre aquém de suas potencialidades. Que é a do triunfo de uma mediocridade sobre outra.
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